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Terminou no último domingo (27.06) mais uma São Paulo Fashion Week em formato digital. Foram cinco dias de transmissões, seguidas de um rápido bate-papo com cada estilista, alguns convidados especiais e muito conteúdo patrocinado. E o que podemos concluir disso? Bom, vamos por partes.

Em termos de tendências, vale ressaltar o patchwork. A técnica foi a favorita nesta estação – João Pimenta, Meninos Rei e Flavia Aranha que o digam. O trio foi o principal (e melhor) expoente do recorte e cola que tem tudo a ver com o momento em que estamos vivendo.

Elementos do cotidiano doméstico também foram outra referência marcante da edição. Rafaella Caniello, por exemplo, partiu da observação de como detalhes de sua casa envelheciam ou quebravam para desenvolver o verão 2022 da Neriage. A LED desenvolveu três videoclipes entre quatro paredes, a ALUF transformou objetos do mobiliário em roupas e Luiz Cláudio, da Apartamento 03, a partir da vista da sua janela, criou uma coleção sobre a saudade de um mundo menos limitado.

Tem a vontade de conexão com a natureza. A A.Niemeyer trabalha essa ideia junto a conceitos femininos como pano de fundo para os tricôs, linhos e algodões em tons neutros, que são a cara da marca. Flavia Aranha, de novo ela, vai um pouco mais a fundo e fala sobre a responsabilidade ambiental e social da produção de roupas. Já Isaac Silva reverência às culturas afroindígenas para informar sobre o genocídio racial endossado pelo governo federal.

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Modelo veste look Meninos Rei. Meninos Rei.Foto: Bruno Gomes

Falando em Isaac, o estilista ainda aborda outro assunto recorrente nesta temporada: o esporte. Não é de hoje que elementos esportivos invadiram as passarelas e guarda-roupas, porém, dado o contexto pandêmico, a tendência ganhou sobrevida. ÀLG e Another Place são exemplos bem literais desse movimento. Outros mais interessantes e fora da caixa são Isabela Capeto, Wilson Ranieri e Juliana Jabour. Sabe aquela história de básico-não-tão-básico, então, é isso. No caso de Juliana, aliás, eles são dignos de festas.

Sobre sofisticação e construção, um elemento importante nesta estação são as mangas. Infladas, com babados, laços ou plissados, elas são o centro das atenções de muitos looks. Em segundo lugar, vêm os ombros, quase sempre marcados ou estruturados, já dando a deixa para outra tendência importante: a alfaiataria. Ela aparece oversized e quase geométrica ou mais romântica, estampada, com tecidos acetinados, formas fluidas.

Luz, câmera, ação

Pela segunda vez, a SPFW foi realizada em formato digital e em vídeo – única possibilidade num país com pandemia descontrolada. A ausência de passarela, por sua vez, começa a desenhar mais claro algumas distinções há tempos discutidas nos bastidores e por amantes do assunto. Uma delas é a diferença entre coleção e desfile. Uma apresentação pode ser bem mais interessante do que as roupas que a compõem, e vice-versa. Isso ficou evidente em alguns filmes que, embora belos, falharam ao mostrar a moda presente neles (muitas delas dignas de um olhar mais atento e esmiuçado).

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modelo com look de Juliana Jabour Juliana Jabour.Foto: Vagner Jabour

A questão tem a ver com o próprio formato. A linguagem das imagens em movimento talvez não seja para todo mundo. E, com certeza, custa caro. Demanda toda uma outra equipe de profissionais especializados, equipamento de captação, iluminação, pós-produção, além de tudo o que é necessário para se produzir uma coleção. Em tempos incertos, é capaz que muita gente veja esse investimento como arriscado e até desnecessário.

Por outro lado, as plataformas digitais permitem uma nova forma de apresentar roupas e acessórios. Wilson Ranieri aproveitou o controle do olhar (no caso, dirigido por uma câmera), para focalizar detalhes de sua coleção de retorno ao evento – e em 360º. Nesta edição, teve ainda a estreia da marca de joias Esfér, algo completamente impensável para uma passarela, mas agora possível – ainda que não 100% bem resolvido.

Mudanças estruturais?

Em termos de conteúdo, esta edição da SPFW não foi das mais memoráveis – com exceção das oito marcas comandadas por pessoas negras, que estrearam como parte do Projeto Sankofa. Com 26 anos de história, é marcante a ausência de diretores criativos e empreendedores negros no evento (quase um microcosmo da indústria da moda brasileira). Essa iniciativa está aqui para mudar esse cenário – e com méritos exclusivamente próprios.

O momento também é bastante propício para transformações significativas. Atualmente, quase todas as marcas participantes são independentes e/ou jovens, com poucos anos de atuação. Tal composição lembra os primórdios das fashion weeks nacionais, numa época em que quase não havia grandes empresas na área, muito menos conglomerados milionários. É verdade que a informalidade era alta e o mercado pouco profissionalizado. Também havia menos informação e acessos, em todos os sentidos.

Modelos com look de Isaac Silva Isaac Silva.Foto: Flora Negri.

De lá para cá, muita coisa mudou. Houve crescimento de fato – a custo de quem e do que ninguém gosta muito de falar. Dá para ter uma ideia quando percebemos uma melhora significativa na profissionalização de parte setor, mas quase nada na formalidade dos contratos de trabalho de outra. Com a formação dos grandes grupos de moda, a lógica quantitativa e o pensamento do lucro acima de tudo também não ajudou muito nessa questão.

E aí veio a pandemia e deu-se início (de novo) a toda aquela conversa sobre revisão de conceitos, práticas e valores. Sabemos que muito disso já caiu por terra e não passou de conversa good-vibes-caça-cliques. Ainda assim, o cenário caótico é, sim, um catalisador para mudanças. Só é preciso mais consciência, coerência e verdade.

Com a forte presença de marcas em plena fase de desenvolvimento, há uma nova possibilidade de construir e nutrir um mercado mais responsável e humano – se erros do passado não forem repetidos. A criação de um ambiente fértil para tais empreendimentos depende de uma série de fatores que não caberiam nesta coluna. Porém, podemos nos atentar ao mais óbvio deles: a realidade.

Modelo com look de Flavia Aranha Flavia Aranha.Foto: Cai Ramalho e Mari Caldas

Foram poucas as marcas que quiseram falar sobre ela de maneira, seja em suas coleções ou nas entrevistas transmitidas ao vivo. Sim, está todo mundo cansado e nem toda marca precisa ter algum tipo de engajamento. Porém, diferentemente de edições passadas, esta foi uma das poucas em que o público pôde ver e ouvir os nomes por trás das grifes. Explicar e informar o cenário real para essa audiência seria bem desejável para estimular um maior conhecimento e incentivo ao setor. Da parte do evento, também houve pouca provocação ou estímulo nesse sentido.

Por muito tempo, a moda evitou assuntos políticos, econômicos e sociais em nome da aparência, da boa vizinhança e da manutenção de privilégios e garantias pessoais. Evidentemente deu ruim. Tem aquela regra de etiqueta que diz que religião e política são assuntos proibidos em rodas sociais. Tudo pelo bom convívio. Acontece que não tem convívio algum. Pelo contrário, tem mais de meio milhão de mortes. Se não falarmos sobre isso agora, não teremos com quem falar.

E quem acha que todo esse papo só tem a ver com ideologia política ou partidária está bem enganado. Já passamos desse ponto, infelizmente. Chegamos a tal nível do fundo do poço que a questão é, antes de qualquer coisa e acima de tudo, humanitária. Não discutir isso é ignorar que a moda é feita por e para seres humanos.

Modelo com look LED. LED.Foto: Italo Gaspar

Recentemente, publicamos neste site uma série de reportagens sobre como estilistas, empresários e profissionais informais estão sobrevivendo à crise causada pela pandemia. Comum à todos os relatos é proporção direta entre a melhora de seus negócios ou atividades e o alívio da situação de saúde no país.

Nos EUA, assim que a campanha de vacinação em massa teve início, os indicadores econômicos voltaram a dar sinais positivos. Em março deste ano, um novo pacote de auxílio de renda de quase 1,9 trilhão de dólares reacendeu os ânimos dos consumidores. Naquele mês, as vendas subiram 10,7%, em comparação ao anterior.

Por aqui, o estímulo à economia e auxílio aos trabalhadores foram drasticamente reduzidos este ano. A vacinação segue lenta, capenga e insuficiente – agora, com indícios de quem assim o é, em prol de enriquecimento próprio. Como se as vidas já não fossem motivo o suficiente, tudo isso tem impacto direto no preço da mão de obra, matéria-prima, produção, distribuição e todas as demais etapas da cadeia produtiva de moda. Sem contar em todos os outros desmontes e ataques proferidos oficialmente desde janeiro de 2019. Muitos deles, aliás, sobre valores caros e essenciais à SPFW.

E aí vem a pergunta: como falar sobre regeneração, criação, sustentabilidade, responsabilidade social e consumo sem considerar ou mencionar o desgoverno sob o qual estamos submetidos desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência?

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