Uma mulher de voz
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Fotos: Getty Images e Divulgação
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Uma mulher de voz

Atriz e ativista, Jane Fonda estreia como dubladora na animação Luck e não vê a hora de voltar a lutar contra a crise climática pessoalmente.

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Em seus 84 anos de vida, Jane Fonda foi várias. Filha de Henry Fonda, um dos maiores atores entre os anos 1940 e 60, foi símbolo sexual por Barbarella (1968), dirigido pelo então marido, Roger Vadim, e atriz elogiada e premiada com dois Oscar, por Klute – O passado condena (1971) e Amargo regresso (1978). Também foi ativista, lutando pelos direitos civis, apoiando causas feministas, LGBTQIA+, os povos originários e protestando contra a Guerra do Vietnã. Ela chegou a ir a Hanói, no então Vietnã do Norte, que lutava contra o Vietnã do Sul, apoiado pelos Estados Unidos. Por causa disso, passou a ser chamada de Hanói Jane e foi monitorada pelo FBI. Foi também pioneira como guru dos vídeos de ginástica.

Jane continua ativa como nunca. O bate-papo com a ELLE View, por videoconferência, foi feito a partir da Itália, onde ela roda a continuação do filme Do jeito que elas querem (2018), com Diane Keaton, Candice Bergen e Mary Steenburgen, sobre quatro amigas maduras que formam um clube do livro. Ela acaba de encerrar também a série Grace e Frankie (Netflix), em que atuou por sete temporadas com a amiga Lily Tomlin. E, agora, faz sua primeira dublagem para a animação Luck, que estreia em 5 de agosto no Apple TV+.

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Foto: Divulgação/Apple TV+


No filme dirigido por Peggy Holmes, interpreta Babe, um dragão que é CEO de uma empresa na Terra da Sorte, onde a azarada adolescente Sam vai parar. Como a atriz, Babe não gosta de ficar parada e prefere colocar a mão na massa: em vez de ficar encastelada em seu escritório, desce para conversar com seus funcionários e resolver os problemas.

Mas o que faz seu coração bater mais forte mesmo é o ativismo. A causa que abraça no momento é a emergência climática. Em 2019, Jane participou de protestos semanais em Washington D.C. (EUA) e foi presa algumas vezes. Com a pandemia, fez encontros virtuais semanais sobre o tema. E, assim que terminar o filme e voltar para os Estados Unidos, quer retomar o ativismo ao vivo e cercada por mulheres.

Por que você quis interpretar Babe em Luck?
Fazia tempo que eu queria fazer dublagem e filmes de animação. Nunca tinha feito. Conheço a empresa Skydance, que financiou minha série Grace e Frankie. E gostei de Babe. Ela é muito prática, não fica sentada em seu escritório, vai ao chão da fábrica e conversa com os trabalhadores. É uma personagem divertida. Pensei que seria uma boa maneira de ganhar experiência (em dublagens) e ver como é. E gostei muito.

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Acredita em sorte?
De certa forma. Não sei quem foi que disse que sorte é oportunidade somada à preparação. A sorte acontece quando você meio que preparou as bases para que acontecesse. E nesse sentido, sim, acredito na sorte.

Seria uma boa CEO?
Não. Um bom CEO precisa ser estratégico. E eu não sou. Como sou ativista, certifico-me de ter amigos bons de estratégia ao meu redor, porque é preciso ter tática para ter sucesso como ativista.

Jane Fonda, em 1970, durante um protesto contra a Guerra do Vietnã, em frente à Casa Branca, em Washington.Foto: Getty Images


Recentemente, você terminou Grace e Frankie. É muito legal como a série retratou a amizade feminina, até em pequenas coisas. Lembro-me de uma cena em que Grace comenta sobre a pele de Frankie, que é algo que fazemos, mas não vemos isso muito retratado, não é?
Eu gosto de poder mostrar as mulheres se amando sem que isso seja sexual. Sem problemas em ser sexual, mas não precisa ser.

Acha que isso nos diferencia? É mais difícil imaginar um homem comentando sobre a pele de um amigo.
As amigas mulheres são 100% diferentes dos amigos homens. Amigos ficam lado a lado, olhando para fora: para uma mulher, para um carro, para um jogo. As mulheres se olham nos olhos. E dizem: "Eu preciso de ajuda", "Me dá um abraço?". Revelamos nossas vulnerabilidades e nossas dores. Acho que é uma das razões pelas quais vivemos mais do que os homens. Eles não querem pedir ajuda. Tenho pena deles, que não têm a mesma capacidade de cuidar dos outros e de expressar suas emoções como as mulheres. E sei que, sem amigas, eu provavelmente não teria a idade que tenho. Teria morrido mais cedo.

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"Sei que, sem amigas, eu provavelmente não teria a idade que tenho. Teria morrido mais cedo."

Acredita que isso esteja mudando nas novas gerações masculinas, agora que está cercada de tantos jovens em seu ativismo?
Mas são principalmente mulheres.


Discursando durante um comício climático em frente ao Capitólio, em 2020. Foto: Getty Images


Por que acredita que mulheres são mais ativistas?
Se você olhar para o movimento climático, são principalmente mulheres, jovens e idosas. Sentimos uma conexão com a terra diferente da dos homens. Não quero dizer que não haja homens envolvidos na tentativa de parar a crise climática. Mas, quando eu estava em Washington, no outono de 2019, sendo presa regularmente, eram mulheres que majoritariamente estavam na plateia e que concordaram em ser presas comigo. Elas estão carregando o peso da crise climática, da guerra, da fome. Tudo recai sobre as mulheres. Elas também estão na liderança para fazer algo a respeito, nos EUA ou no Quênia. Tenho um filho e dois netos homens e eu diria que eles são emocionalmente alfabetizados. Mas não sei se houve uma grande mudança para os homens mais jovens.

A pandemia dispersou um pouco o movimento?
Trabalhei com o Greenpeace para continuar virtualmente. Toda semana, eu fazia as Fire drill fridays(Sextas-feiras de treinamento contra incêndio, em que ela debate a crise climática, democracia, racismo, feminismo com ativistas, especialistas, artistas e políticos). Em 2020, tivemos 9 milhões de pessoas nos assistindo. Foi muito bom. Várias delas nunca tinham sido ativistas antes, nunca tinham escrito para seus representantes no Congresso ou incentivado as pessoas a votar. Nós continuamos, mas é mais difícil sem podermos nos encontrar pessoalmente. Estou na Itália agora fazendo um filme. Mas, quando eu voltar, vamos começar de novo pessoalmente.

Deu para aprender algo com a pandemia?
Há muitas lições inerentes à pandemia. Você precisa de um governo federal forte que se preocupe com todos, não apenas com algumas pessoas. Um sistema de saúde forte e preparado para o que está por vir, porque, com a crise climática, haverá mais pandemias. A covid nos mostrou até que ponto é possível mudar e transformar seus hábitos. Lembrou às pessoas o quão importante são os trabalhadores essenciais que estão nos armazéns, entregadores, enfermeiros, coletores de lixo. Eles são chamados de trabalhadores essenciais, mas eram tratados como se fossem descartáveis. E acho que muitas pessoas percebem isso pela primeira vez.

"Me tira o sono que os líderes indígenas estejam sendo mortos por lutarem para proteger a Amazônia. O que vamos fazer com o Bolsonaro?"


Acha que a pandemia pode ter trazido algo de positivo, apesar de tudo?
Muitas pessoas aprenderam coisas novas. Mas há um monte de consequências que não esperávamos. As pessoas não estão voltando ao trabalho, para as cidades. Elas começaram a repensar como estavam vivendo e onde estavam morando. E não consegui ainda ter a distância suficiente para analisar o que tudo isso significa. Mas os resultados disso, acho, são muito complicados. Alguns são bons e outros, não.

Você está acompanhando a situação aqui, no Brasil, a devastação da floresta amazônica e do Pantanal?
Sim. Me machuca. É como se minha pele estivesse sendo arrancada. Estarem destruindo esse lugar sagrado, do qual nosso povo, nosso clima, nossos animais, nossas plantas, dependem para a vida... E que os líderes indígenas estejam sendo mortos por lutarem para proteger a Amazônia, me tira o sono. O que vamos fazer com o Bolsonaro?

Muitas vezes, é difícil continuar lutando. Onde encontra forças?
Sou uma mulher privilegiada, branca, famosa e rica. Se não posso ter esperança, devo ser assassinada. Sou moralmente obrigada a ter esperança. Se pessoas como eu não tiverem esperança, o que vai acontecer com o resto do mundo? Sei que muitas pessoas nos Estados Unidos estão dizendo: "Oh, Deus, é tão horrível o que está acontecendo no país. Vamos embora daqui". E eu digo não! Estou na Itália e amo esse país. Mas mal posso esperar para ir para casa porque tenho que lutar. Está difícil não se sentir desanimada. Mas é porque estou fazendo um filme e não estou sendo ativista. Quando volto ao ativismo, tenho mais esperança. Ação gera esperança.


Ao lado de Angela Davis, a atriz participa de mais um protesto contra a Guerra do Vietnã. Foto: Getty Image


Você se tornou ativista durante a Guerra do Vietnã. Desde então, falou sobre os direitos das mulheres, igualdade racial e agora da emergência climática. Acha que, no fim das contas, essas lutas todas estão conectadas?
Totalmente. Se não houvesse racismo, não haveria crise climática. Se não houvesse misoginia, patriarcado, não haveria crise climática. Pense nisso. É uma mentalidade. Já existe há muito tempo, e vai ser difícil se livrar dela. É uma mentalidade que vê as mulheres como bens e pessoas não brancas como inferiores. Que vê uma árvore, acha que seria uma boa porta e simplesmente corta tudo. É uma mentalidade que cria todas essas coisas. É parte integrante do mesmo problema.

Você provavelmente enfrentou muito machismo durante sua carreira. E há momentos em que a misoginia e a violência são muito claras. Mas, com a ampliação das discussões dos últimos anos, houve momentos em que percebeu que algo que não achava ser misoginia, na verdade, era?
Ah, nos anos 1960 e 70, durante a Guerra do Vietnã, quando havia 10 mil mulheres nas ruas protestando pelos seus direitos. Lembro que escrevi no meu diário: é uma distração do que é realmente importante. Eu não entendia, mas agora compreendo. E isso é bom. É sempre bom aprender com os erros.

Sente que o segredo para ser tão ativa e jovial é ser curiosa pelo mundo?
Sim, totalmente. Tem uma frase de que eu gosto muito: é mais importante estar interessada do que ser interessante. É preciso continuar curioso e querendo aprender. E eu tenho isso profundamente em mim. Sou muito curiosa sobre as pessoas.


Fotos de Jane Fonda tiradas durante sua prisão, em 1970, em Cleveland, EUA. Fotos: Getty Images