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Quadro da artista ILLI de uma mulher da etnia Mursi para a exposição "Negras Cabeças".

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Penteados e adornos de cabelos funcionam como um tipo de linguagem dentro de certas tribos africanas. No ano passado, a artista plástica ILLI (nome artístico de Íldima Lima) entrou em contato com algumas dessas tradições — transmitidas por gerações através da oralidade —, e transformou-as na exposição "Negras Cabeças", disponível virtualmente em um ambiente interativo até o dia 30 de dezembro. Para visitar, clique aqui.

"Em um primeiro momento, precisei selecionar apenas oito etnias para contar visualmente essa história: Betsimisaraka, Mangbetu, Suri, Mursi, Mwila, Mbalantu, Himba e Fulani", conta ILLI em entrevista à ELLE. "Todas, dentro do seu sistema cultural, têm uma forte ligação com a estética, como o corpo se apresenta também como um canal de diálogo. De maneira sucinta, pode-se dizer que a forma como cabelos eram arrumados serviam para transmitir mensagens de cunhos diversos".

Ela continua: "A Mwilas, Mblanatu e Himba, por exemplo, sinalizam pelos penteados se estão aptas para o casamento. As Mangbetu, em rituais sagrados, passam horas trançando o cabelo para mostrar o estreitamento de laços com o divino. Enquanto as Tumburu e as Betsimisaraka cortam os cabelos em ritos funerários para expressar o luto. Já etnias como as Fulani, Suri e Mursi utilizam adornos como matéria orgânica, metais, conchas entre outros para valorizar sua estética e inspirar respeito".

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Cortesia/ Negras Cabeças

Quadro da artista ILLI de uma mulher da etnia Mwila para a exposição "Negras Cabeças".


Todo ambiente da exposição foi desenvolvido pela empresa Ops Game Studio. A mostra tem como ponto de partida o mar, que entrelaça outros três biomas, a floresta tropical, o semi-árido e a savana, onde estão alocadas as pinturas assinadas por ILLI. As imagens podem ser ampliadas e contam com informações específicas sobre a importância dos penteados e adornos para suas culturas, separadas de acordo com as características climáticas de onde vivem suas etnias.

Cada espaço tem uma trilha sonora específica, original, criada por Filipe Catro. "Como estamos falando de ancestralidade e afrofuturismo, pensamos em trazer esses elementos melódicos tradicionais mesclados com uma sonoridade contemporânea. O Felipe estudou a sonoridade de cada uma dessas etnias associadas à localidade onde residem", explica ILLI.

"Ao sairmos da última vila, onde vivem os Fulani, encontramos um último portal que nos leva de volta ao ponto inicial. A ideia de circularidade está presente de forma que possamos refletir que os novos começos de alguma forma passam por antigos caminhos. Não há como avançar negando a bagagem que carregamos."

Aos 39 anos, ILLI lembra que quando era adolescente, ainda que de forma inconsciente, a construção da sua identidade teve de atravessar a negação das características físicas que destoavam do padrão de beleza europeu. "As opções disponíveis estavam diretamente e exclusivamente relacionadas a produtos para o alisamento do cabelo, como se fosse o único caminho possível para alcançar uma beleza que só nos afastava do lugar que viemos."

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Hoje, no entanto, ela vê a indústria da beleza tomando outro rumo: "Atualmente o cabelo crespo protagoniza um movimento de valorização da estética negra. A indústria dos cosméticos é uma das que mais crescem no mundo. Ajustar-se a acompanhar esse movimento de fortalecimento identitário das mulheres negras me parece um caminho natural e sem volta para esse mercado. É a resposta a uma demanda que só aumenta. Acredito que a valorização da estética negra é um caminho de fortalecimento para derrubarmos de uma vez os muros do condicionamento do racismo e a arte é uma ferramenta poderosa nesse combate", conclui.

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