Álvaro Siza faz 90 anos

Prêmio Pritzker de 1992, arquiteto reúne obra que impressiona pelo olhar modernista aliado à tradição portuguesa.


projeto de álvaro siza: fundação iberê camargo
Fundação Iberê Camargo, com projeto de Álvaro Siza. Fotos: Fernando Guerra



“A arquitetura de Álvaro Siza é uma alegria para os sentidos e eleva o espírito. Cada linha e curva é colocada com habilidade e segurança. Como os primeiros modernistas, suas formas, moldadas pela luz, têm uma simplicidade enganosa; elas são honestas.” Foi com essa citação que o júri do Pritzker, o prêmio de arquitetura mais importante do planeta, definiu o arquiteto português como o vencedor de 1992.

O trabalho de Siza, que completa agora 90 anos, contém a força da tradição aliada ao olhar para o futuro. Um conjunto de obras tão relevante que atraiu as mais variadas honrarias, como o prêmio Fundação Mies van der Rohe, o reconhecimento da universidade de Harvard por sua proposta de habitação em Évora e a medalha de ouro da Fundação Alvar Aalto – o arquiteto finlandês, aliás, é referência constante para ele. Assim como o grande Le Corbusier.

Nascido em Matosinhos, perto da cidade do Porto, em 1933, Siza se tornou reconhecido por carregar em seu DNA a graça das construções típicas do interior do país, em contraposição aos fortes traços modernistas que marcam seus trabalhos. Suas obras equilibram o respeito às tradições, a atenção ao contexto e o olhar apurado para o tempo em que se vive.

projeto de álvaro siza: edifício sobre a água

Edifício sobre a Água, na China.

Já se tornou clássica sua afirmação de que os lugares “falam”, orientando o nascimento de cada projeto. A conexão entre suas construções e a natureza, aliás, é um espetáculo arrebatador. As piscinas de Marés de Leiça da Palmeira, em Portugal; seu Edifício sobre a Água, na China, e a Casa de Chá Boa Nova, esta última de 1963, mostram o domínio do arquiteto sobre o espaço natural. Nos três casos, ele se estende na ousadia, tornando suas ideias concretas sobre formações rochosas à beira-mar e sobre um lago artificial.

projeto de Alvaro Siza: Casa de chá boa nova

Casa de Chá Boa Nova, em Portugal.

Seu interesse pela escultura é outro fator importante, que fundamenta seu percurso e transparece em seus traços. Como não admirar as rampas da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, que flutuam ao longo do prédio como se sempre tivessem existido, ou o encontro dos dois blocos em curvas e retas do Museu Mimesis, na Coreia do Sul? E o que dizer do cilindro maciço, mas com um recorte inesperado para a entrada, do Centro Meteorológico, que parece ter pousado do céu para o chão de Barcelona?

projeto de Alvaro Siza: Museu Mimesis

Museu Mimesis, na Coreia do Sul.

Os grandes volumes que se apresentam em seus projetos são uma característica que se destaca. “Uma de suas principais referências, o arquiteto Fernando Távora, é uma figura que corresponderia ao papel de Lucio Costa para a cultura arquitetônica brasileira. A partir desse referencial, Siza revela sua autonomia na modelagem particular das formas. São formas que tendem mais ao volume do que à linha. Diferentemente do caso brasileiro, que são formas mais próxima do desenho, do contorno”, explica Rodrigo Queiroz, arquiteto e professor livre-docente do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP).

projeto de álvaro siza: saya park

Saya Park, na Coreia do Sul, projeto de Siza com Carlos Castanheira.

Basta olhar para a Fundação Serralves, no Porto, para o Saya Park, na Coreia do Sul, idealizado com Carlos Castanheira, para o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Amore Pacific, também na Coreia do Sul, com Castanheira e Kim Jong Kyu, entre tantos outros. “Em Siza, a forma não é resultado da associação de partes ou elementos de materialidades e origens distintas, mas da manipulação de uma volumetria mutável, como um desdobramento da própria tradição da escultura transposta para a escala e para as especificidades da arquitetura”, completa Queiroz.

Álvaro Siza e o paradoxo da genialidade

Frequentemente se fala do paradoxo entre a simplicidade e, ao mesmo tempo, a complexidade dos edifícios produzidos por Siza, um ponto que explica sua genialidade. “A simplificação sem o necessário teor de complexidade resulta no simplório, no comum. A busca por uma simplicidade que põe em xeque a zona de conforto da obviedade, perceptível na obra de Siza, carrega consigo uma reflexão complexa, cuja pesquisa formal refuta a resposta fácil. Trata-se de uma beleza um pouco distante do próprio princípio clássico de beleza, pois é carregada de um forte teor de subjetividade. Sabemos que nos agrada, mas não sabemos exatamente por que nos agrada”, explica o professor da FAU. 

Diferentemente do que se espera, Siza se considera um conservador. “Tradição é um desafio para a inovação. Consiste em inserções sucessivas. Eu sou um tradicionalista e um conservador, como se diz. Me movimento entre conflitos, comprometimentos, hibridização, transformação”, escreveu em seu livro Siza, Complete Works, editado pela Phaidon, com curadoria de Kenneth Frampton. “Cada um dos meus desenhos procura captar, com o maior rigor, um único momento concreto de uma imagem fugaz, em todas as suas nuances. Na medida em que se consegue captar essa qualidade fugaz da realidade, o desenho vai surgindo com mais ou menos nitidez, e quanto mais preciso for, mais vulnerável será”. Siza é assim. Pura poesia concreta, que se revela em palavras e em arquitetura. Simples e sólidas. Para ele, os arquitetos não inventam nada, mas se transformam em resposta para os problemas que encontram. E isso ele faz magistralmente. 

Alvaro Siza

Quem quiser se aprofundar em seu legado tem agora uma boa oportunidade. Como parte das comemorações, a Cooperativa Árvore, no Porto, abre a exposição Queria ser Escultor, com curadoria do também arquiteto e parceiro frequente Carlos Castanheira. A mostra vai reunir croquis e esculturas de Siza, que desistiu de ser escultor porque o pai acreditava que era uma profissão que não lhe daria futuro, o que o levou a se matricular na Escola de Belas Artes, atual Faculdade de Arquitetura do Porto.

Na data do aniversário, dia 25 de junho, mais uma homenagem. A Casa da Arquitectura lança o documentário SIZA, dirigido por Augusto Custódio, que reuniu, ao longo de dois anos, mais de 300 horas de filmagens e o depoimento de quarenta pessoas próximas ao mestre. O resultado é um passeio afetivo e intimista pela vida do arquiteto sempre lembrado pela personalidade reservada. Uma chance rara de descobrir outros aspectos de sua trajetória. 

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