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Schiaparelli

De todos os designers que passaram pela direção criativa da Schiaparelli desde que a maison voltou à ativa, em 2013, poucos tiveram sucesso tão repentino quanto o estadunidense Daniel Roseberry. Em 2020, ele já havia marcado presença nas redes sociais com looks encomendados por celebridades, vide o look de natal de Kim Kardashian. Aí, chegou 2021, mais precisamente dia 20 de janeiro de 2021, e eis que Lady Gaga aparece com um look sob medida feito pelo estilista para se apresentar durante a cerimônia de posse de Joe Biden, nos EUA.


Fato é que Roseberry, além de bastante rápido e sensível às demandas ditadas pelos likes das mídias sociais, é também um dos melhores intérpretes do trabalho de Elsa Schiaparelli. Em pouco menos de dois anos no atual cargo, ele conseguiu revisitar looks icônicos, elementos essenciais e até um determinado tipo de visão criativa fiel ao da fundadora da marca, com senso de humor e ironia essenciais aos dias de hoje.

Os melhores exemplos são os bustos, vestidos e bolsa moldados em um torço atlético, com músculos bem definidos (a origem disso tudo é um manequim que a própria estilista usava para modelar suas criações). Ou a importância das joias e acessórios na composição da imagem. E tem ainda, a escolha de tecidos, as silhuetas e cores de modelos icônicos do passado, atualizados para o presente. Em tempos monótonos, privados de qualquer montação, faz muito sentido a chuva de likes e repost que cada foto dessa coleção ganhou.


Acontece sempre que ficamos um tanto desesperados, sem perspectivas ou diante de algum grande acontecimento cujas consequências fogem do nosso controle. Recorremos à espiritualidade, a crenças das mais variadas, superstições, misticismo e tudo mais que nos ofereça alguma redenção, explicação, consolo e, principalmente, esperança.

Foi assim para Christian Dior, durante a Segunda Guerra Mundial, quando sua irmã, parte da resistência francesa, desapareceu. Ele recorreu ao tarô, talvez em busca de algum sinal sobre o paradeiro de Catherine Dior. Em 2020, em meio à pandemia de COVID-19, foi assim também com Maria Grazia Chiuri, atual diretora de criação da maison. Como o fundador da marca, ela se voltou às cartas a procura de algum tipo de orientação espiritual. O resultado, porém, não foi só no campo imaterial e acabou por inspirar o verão 2021 de alta-costura da grife.

Em um vídeo dirigido por Matteo Garrone (o mesmo que assinou a última produção audiovisual de couture da label), Chiuri conta a história de uma garota em busca de sua própria identidade numa seção de tarô. Detalhes do filme, bem como dos significados de cada arquétipo representado em versão deluxe , estão explicados às minúcias nesta matéria. Aqui vale falar um pouco mais sobre as roupas. Principalmente aquelas que não aparecem na produção, mas apenas em fotos.

Enquanto o filme assume ares fantasiosos – algo sempre presente no trabalho de Chiuri, mas reforçado desde que os desfiles se tornaram impossíveis –, o resto da coleção propõe um link com a realidade. Ou pelo menos com a realidade rarefeita da alta-costura. De um lado, estão os bordados com signos do zodíaco e estrelas, as rendas pintadas à mão e os jacquards dourados em vestidos com referências medievais e renascentistas do fim do século 14 e começo do 15 (época em que o tarô de Visconti-Sforza, ilustrado por Bonifacio Bembo, foi criado para entreter o Duque de Milão).

Do outro, está a alfaiataria, nos tons de cinza e marinho pelos quais Dior ficou conhecido. Quase sempre em tweed e cashmere, recuperam linhas clássicas como a H, a A e a famosa Bar Jacket, porém numa silhueta mais suave e atual. Por baixo das jaquetas e presas por dentro das calças e saias de cintura alta, blusas de organza transparente propõem uma conexão com a parte mais histórica e romântica da coleção.

É um contraponto interessante em que cada lado contrastante reforça o outro. As imagens, pelo menos em termos de moda, se destacam mais do que o vídeo. Não tanto pela ausência de distrações causadas pela encenação e mais pelo contraponto entre fantasia e realidade. Moda também é sobre sonhar, mas só lembramos dos nossos sonhos quando acordados, não é mesmo?

Chanel


Umas das dificuldades em fazer moda e, mais ainda, um desfile em tempos como os de agora são os vários fatores a serem considerados. É preciso conciliar as expectativas criativas do estilista no comando, a cobrança por resultados por parte dos executivos, o desejo por imagens impactantes do público, o desejo de compra das clientes e as limitações e imposições da realidade. Sob este ponto de vista, o desfile de alta-costura da Chanel foi um dos que melhor resolveu a equação.

A apresentação encena um casamento no campo, com arcos de flores e celebração em família. Tudo isso recriado dentro do Grand Palais, sem convidados. Na plateia, apenas as embaixadoras da marca Penélope Cruz, Marion Cotillard, Vanessa Paradis e sua filha Lily-Rose Depp. O show começa com todas as modelos descendo as escadas e caminhando pelo espaço, conversando, rindo, como numa festa. Aos poucos, algo mais parecido com a ordem a uma passarela toma forma e, após cada entrada, as modelos tomam seus lugares nas cadeiras vazias.

Mas este não é um casamento convencional. Existem os vestidos com saias rodadas, bordados intrincados, plumas, rendas, tudo feito à mão como se espera da alta-costura. Mas o que chama atenção é o que foge à regra. É a tradição desrespeitada, pelo menos dentro das etiquetas da couture. Um tailleur de tweed rosa, por exemplo, jamais viria com um botão aberto e umbigo à mostra. Também é pouco provável (salvo nos anos 1980) que uma festa de casamento desse métier contasse com um minitubinho de paetês pretos, poás, profusão de tules na costas e meia arrastão branca. Um look despretensiosamente chic composto por saia ampla e camisa de seda bem soltinha por cima dela tampouco seria esperado. Ah, e tem os conjuntinhos de calça e colete, numa clara referência às preferências de Coco Chanel por modelagens masculinas.

Desde que assumiu a direção criativa, Virginie Viard está focada em eliminar qualquer ironia, excesso e, às vezes, até senso de humor das coleções da maison. Suas roupas são objetivas, focadas em vestir mulheres de diferentes estilos e idades, sem firulas. Não é um trabalho fácil, principalmente depois de toda pirotecnia e grandiosidade dos desfiles Karl Lagerfeld. Mas é algo que faz cada vez mais sentido, muito devido à pandemia e suas consequências.

Como muitos, Virginie parece em fase de adaptação. Pelo menos foi assim nas apresentações recentes. Agora, porém, sua visão e propostas se apresentam mais bem definidas. Não dá para dizer que são roupas básicas, ainda estamos falando de alta-costura. Porém, tampouco são grandes elucubrações fashionistas pensadas para arrecadar o maior número de likes possíveis. São roupas que reconhecemos, entendemos, talvez até tenhamos em versões similares em nossos guarda-roupas. São roupas com as quais nos relacionamos. Justamente por isso, são roupas que encantam tanto.

Valentino


Assistir a quase 20min de vai-e-vem de modelos num salão de mármore não é algo que eu recomendaria. Porém, os minimamente interessados em moda deveriam fortemente se debruçar sobre cada take do vídeo de apresentação do verão 2021 de alta-costura da Valentino. Diferente da temporada passada, em que Pierpaolo Piccioli colaborou com o fotógrafo Nick Knight, este reproduz uma passarela – sem narrativa, sem tema, sem história. Só roupas. E que roupas!

Silhueta, corte, tecido e superfícies são os pontos principais aqui. Os bordados, as rendas, os jacquards e tudo mais que se associa à alta-costura está em segundo plano no momento. Numa inversão significativa, os looks de festa, tapete-vermelho e afins são reduzidos, ficam quase tímidos diante da grandiosidade e relevância dos demais. As cores, texturas e acabamentos manuais entram como detalhes potencializadores da estrutura essencial.

Estamos falando de combinações de saias mídi com regatas soltinhas, calças de alfaiataria com camisa e trench-coat, camisetas e mais toda uma gama de itens "básicos" trabalhados e retrabalhados à perfeição. As formas variam entre as já conhecidas e versões experimentais dela, difíceis de descrever, impossíveis de nomear – porém, fáceis de entender e irresistíveis de desejar.

Há tempos se fala sobre a desconstrução dos conceitos tradicionais da alta-cosutra. O que ela significa hoje? O que torna uma roupa digna dessa nomenclatura? Qual o sentido no mundo de hoje? Piccioli talvez seja um dos estilistas em atividade com as respostas mais convincentes. Dada a liberdade e abertura para experimentação desse setor, é um tanto frustrante a falta de novidades daqueles que o integram. Com mão de obra qualificada, recursos aos montes e uma relação única entre diretor, costureiros e fornecedores, não faz sentido o apego ao passado, às tradições.

Um dos efeitos dos meses de lockdown e isolamento durante a pandemia foi sobre a construção de nossas roupas. Miuccia Prada, Raf Simons, Dries Van Noten são alguns nomes preocupados em repensar e explorar a engenharia e o design da moda. Com toda excelência de um ateliê de alta-costura, Pierpaolo Piccioli eleva esse pensamento a outro patamar. E ao incluir modelos masculinos, reforça mais uma vez a ruptura com as estruturas do passado e coloca o foco na roupa como objeto neutro e plataforma de expressões múltiplas.

Armani Privé


Giorgio Armani ficou conhecido por transformar o terno masculino nos anos 1980. Deixou-o mais leve, desestruturado e, então, adequado aos novos tempos. Fez isso também na moda feminina e, desde então, sua abordagem segue a máxima da descomplicação, do conforto, da suavidade e de uma sensualidade bem particular. O verão 2021 da linha de alta-costura, a Armani Privé, não é diferente. Filmado pela primeira vez no Palazzo Orsini, em Milão, sede dos ateliês da grife, o desfile é uma celebração do que há de mais essencial no trabalho do estilista: as cores (magenta, marinho, bege, preto, cinza), a silhueta fluida, os brilhos e a relação do corpo com a roupa.

Fendi


Não sei vocês, mas a primeira coisa que lembro quando falam em Kim Jones são as roupas meio esportivas meio de passarela que ele fazia na marca própria, bem antes de todo fenômeno streetwear. Aí veio o cargo no comando do masculino da Louis Vuitton e a famosa collab com a Supreme. Nesse meio tempo, ele ganhou cinco prêmios do British Fashion Awards, recebeu a condecoração da Ordem do Império Britânico e assumiu a Dunhill. Hoje, é diretor criativo da Dior Men, onde explora de forma muito bem-sucedida elementos de alta-costura dentro do universo masculino. Mas roupa feminina mesmo só os looks de Kate Moss e Naomi Campbell na sua despedida da LV (sua etiqueta homônima teve uma linha para elas, mas era assinada por Marios Schwab).

Corta para esta quarta-feira (27.01) e lá está Sr. Jones estreando sua primeira coleção feminina, no caso para o verão 2021 de alta-costura da Fendi. Em setembro de 2020, o inglês foi indicado para o antigo cargo de Karl Lagerfeld (ele continua no masculino da Dior). E como foi? A julgar pelo cenário (um grande salão com vários nichos de vidro em forma de letra F) e pelo casting (com Demi Moore, Kate e Lila Moss, Bella Hadid, Adwoa Aboah, Christy Turlington, Cara Delevingne e Naomi Campbell), foi grandioso. Já pela coleção, foi mais como uma introdução a um novo capítulo de sua carreira ou a um outro lado do estilista que ainda não conhecemos (observação esta feita pela colega Lelê Santana).


É que não havia muito (ou nada) do que já vimos de Jones antes. Boa parte dos looks eram compostos por vestidos longos de tecidos transparentes, decorados com bordados e rendas manuais, e finalizados por capas suntuosas. Havia um ar monástico na apresentação, apesar do set algo modernista. O caminhar das modelos, o caimento delicado das sedas e organzas sobre seus corpos, a riqueza de textura e detalhes evocam toda uma sensação de nobreza. Ao mesmo tempo, os motivos florais, a leveza dos materiais e as transparências lembravam algo de natural – mas não em relação à natureza e, sim, à liberdade, fluidez e permissividade.

Isso tudo tem muito a ver com vivências do estilista – e aqui vale dizer que Jones sempre faz coleções muito baseadas em paixonites e obsessões próprias ou elementos de seu passado. Além de colecionar looks clubbers antigos, ele também coleciona livros raros. Nove deles são de Orlando, de Virginia Woolf. A escritora fez parte do movimento Bloomsbury, composto por um grupo de artistas, escritores e intelectuais cujas obras influenciaram de um tudo – da economia até a literatura, feminismo e sexualidade. Por acaso, eles se reuniam numa cidade do interior inglês perto de onde o designer cresceu. Coincidentemente, muitos desses pensadores cultivavam uma admiração extrema por Roma e todos seus simbolismos. A capital italiana, no caso, é a sede e lugar de origem da Fendi.

Woolf também é conhecida por suas ideias e escritos sobre feminismo e a representação da mulher na sociedade. A Fendi é reconhecida como uma marca matriarcal, comandada, desde sua origem, por mulheres. Jones fez questão de manter essa estrutura: sua chefe é Silvia Venturini Fendi (isso não foi sua escolha, mas ok); a designer de joias é Delfina Delettrez (filha de Silvia); a consultora de acessórios, Kate Moss; a stylist, Melanie Ward; e a diretora de arte, Ronnie Cooke Newhouse.

De volta a Orlando, a obra de Woolf é uma das grandes referências sobre sexualidade e identidade de gênero na literatura. Apesar do foco na moda masculina, Jones sempre flertou com elementos queer, muito devido a seu passado e gosto pela cena clubber. Vem daí os modelos masculinos na apresentação, com vestidos ou looks que não se importam com tais definições. Algumas das mulheres também brincavam com elementos tidos como originalmente dos homens. Em ambos os casos, a fluidez era extremamente interessante.

Por enquanto, não resta muito a dizer. Estreias são quase sempre vagas e um tanto incertas. Nesta, em específico, vale prestar atenção nas entrelinhas para entender os processos e imaginar o que está por vir.

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Sem grandes emoções, desfiles digitais de alta-costura buscam refletir parte das emoções e sentimentos durante a pandemia.

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