Cultura

Quer entender o Brasil de 2020? Leia Lélia Gonzalez!

Relançada pela editora Zahar, a obra de uma das mais importantes figuras do feminismo e do movimento negro brasileiro é fundamental para compreender o momento atual – e saber agir politicamente nesse contexto.

Foto Cezar Loureiro
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"(...) negro tem mais é que viver na miséria. Por quê? Ora, porque ele tem umas qualidades que não estão com nada: irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice etc. e tal. Daí é natural que seja perseguido pela polícia, pois não gosta de trabalho, sabe? Se não trabalha é malandro, e se é malandro é ladrão. Logo, tem que ser preso, naturalmente. Menor negro só pode ser pivete ou trombadinha, pois filho de peixe, peixinho é. Mulher negra, naturalmente, é cozinheira, faxineira, servente, trocadora de ônibus ou prostituta. Basta a gente ler jornal, ouvir rádio e ver televisão. Eles não querem nada. Portanto têm mais é que ser favelados. Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro acima de tudo, graças a Deus. Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a gente tem. Tanto é que, quando se esforça, ele sobe na vida como qualquer um. Conheço um que é médico; educadíssimo, culto, elegante e com umas feições tão finas... Nem parece preto."

O trecho acima — se não fosse tão bem escrito — poderia ter sido publicado neste 2020 em perfis de redes sociais, comentários de grandes portais ou pronunciamentos públicos do alto escalão do governo. Atualíssimo. Mas foi escrito por Lélia Gonzalez, em 1982, no ensaio "Racismo e sexismo na cultura brasileira". Em bom pretuguês, a antropóloga, filósofa, feminista e militante do movimento negro (que era também professora, tradutora e estudiosa da psicanálise), mobiliza jargões do senso comum para descortinar o discurso ideológico do racismo brasileiro a partir das noções de consciência e memória. Consciência como um saber de alienação e encobrimentos. Memória como as inscrições que permitem restituir uma verdade histórica que não foi escrita. "E, no que se refere à gente, à crioulada, a gente saca que a consciência faz tudo pra nossa história ser esquecida, tirada de cena. E apela pra tudo nesse sentido. Só que isso tá aí... e fala". E que poderosa a fala — e a escrita — de Lélia Gonzalez.

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Não vou fingir que "Racismo e sexismo na cultura brasileira" não é meu texto preferido desta pensadora brilhante. Já era o preferido quando comecei a ler Lélia, há pouco mais de dez anos. Era em 2018, quando foi publicado o primeiro livro que reunia artigos de Lélia Gonzalez, organizado pela União dos Coletivos Pan-Africanistas (UCPA). Era em 2019, quando pedi a autorização de seu filho Rubens Rufino para republicá-lo na coletânea Vozes insurgentes de mulheres negras: do século XVIII à primeira década do século XXI. E continua sendo neste 2020, depois da leitura de Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos, organizado por Flavia Rios e Márcia Lima, publicado esta semana pela editora Zahar. E que prazeroso o aprendizado de reler Lélia, e a oportunidade de conhecer textos inéditos da autora.

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Mas antes de compartilhar impressões deste lançamento, peço licença para contar duas memórias.

Era domingo. Vinte e dois de julho de 2018, pouco mais de quatro meses depois do assassinato de Marielle Franco. Mulheres e homens negros de todos os tons de pele lotavam o auditório do primeiro andar da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Enquanto esperava as falas iniciais do lançamento de Lélia Gonzalez: primavera para as rosas negras, coletânea dos escritos de Lélia organizada pela UCPA, editada pela Diáspora Africana, eu observava o revestimento em madeira das paredes do auditório e lembrava de Sueli Carneiro contando do dia em que ouviu Lélia Gonzalez pela primeira vez, exatamente naquela sala.

Foi um momento de revelação para Sueli Carneiro. Enquanto Lélia Gonzalez positivava aquilo que estigmatizava mulheres negras, era como se colocasse tudo em uma perspectiva mais ampla. Aquilo que a jovem Sueli sentia, mas não estava organizado racionalmente, era vocalizado pela oradora brilhante que escancarava as opressões racistas, machistas e sexistas vivenciadas por um sujeito político que tinha lutas e horizonte político próprios: a mulher negra.

Foi marcante sentir o cheiro de novo do primeiro livro organizado com uma diversidade de textos de Lélia Gonzalez, tendo aquelas mesmas paredes como testemunhas. Depois, na experiência de ler impressos alguns dos textos que eu só havia acessado em formato PDF e conhecer pela primeira vez tantos outros, gostei de pensar que experimentava um pouco da sensação de descoberta narrada por Sueli Carneiro. A cada linha, Lélia descortinava opressões e oferecia uma interpretação singular sobre o Brasil.

Minha alegria primeira ao saber que uma nova coletânea de escritos de Lélia Gonzalez seria lançada esta semana foi por imaginar uma progressão geométrica de outras meninas, jovens e mulheres negras devorando esses escritos pela primeira vez. Sementes de Lélias e Suelis impressas em offset sobre papel Pólen Soft. Diferentemente do trabalho cuidadoso, mas de circulação restrita da UCPA, Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos, distribuído pela Zahar, editora de circulação nacional, permitirá momentos de revelação em escala.

Mas a leitura deste lançamento trouxe muitas outras alegrias. Flavia Rios estuda a memória do feminismo negro brasileiro há quase duas décadas e é co-autora, com Alex Ratts, de um livro sobre Lélia. Márcia Lima foi aluna de Carlos Hasenbalg, parceiro intelectual próximo de Lélia Gonzalez, e é das pesquisadoras mais rigorosas e comprometidas da sociologia brasileira. Uma obra organizada por ambas apresenta ainda mais camadas de informação aos textos já tão ricamente compostos por Lélia. Pela divisão entre ensaios, intervenções e diálogos, além de um apêndice sobre Lacan, já é possível perceber a diversidade de gêneros e propósitos da produção intelectual e política de Lélia Gonzalez.

Além dos bastante citados e amplamente republicados "A categoria político-cultural de amefricanidade", de 1988; "A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica", de 1982; "Racismo e sexismo na cultura brasileira", também de 1982; e do próprio "Por um feminismo afro-latino-americano", de 1988; nesta nova edição temos acesso pela primeira vez a trabalhos que ainda não haviam sido traduzidos para a língua poruguesa, como "O apoio brasileiro à causa da Namíbia: dificuldades e possibilidades", publicado em 1983; ou "O Movimento Negro Unificado: um novo estágio na mobilização política negra", de 1985.

Racismo. Democracia racial. Sexismo. Quilombo. Democracia. Candomblé. Movimento negro. Feminismo. Cultura. Linguagem. África. América Latina. E mais. A multiplicidade de temas tratados em profundidade por Lélia Gonzalez possibilita que a leitura de seus textos configure um curso do pensamento social brasileiro. Para ativistas e militantes que precisam aprimorar estratégias de luta, há detalhes de como foi organizado o movimento de mulheres negras no Rio de Janeiro, no Brasil e na América Latina; o movimento de mulheres faveladas e periféricas; o movimento negro contemporâneo a partir do MNU.

Sobre pessoas brancas antirracistas, ainda hoje chamadas por alguns setores do movimento negro de aliadas, Lélia Gonzalez falou em uma de suas intervenções, em 1986, durante um debate na UNB, publicada como "A cidadania e a questão étnica". Mesma ocasião em que podemos confirmar seu compromisso político materializado em uma práxis que não se limitava à produção teórica desconectada da ação política: "Puxando o gancho, jogo um confete em cima do Carlos [Hasenbalg], que é o meu co-autor predileto, porque escrevemos um livro juntos – a questão, por exemplo, do Censo de 1980. Foi efetivamente uma conquista do movimento negro. No Rio de Janeiro, nos articulamos, pressionamos o presidente do IBGE para que entrasse de novo o item cor. Nessa luta tivemos os nossos aliados, porque temos que ter mesmo, e nossos aliados estão aqui representados pela figura de Carlos Hasenbalg, que justamente na Anpocs de 1979, em Belo Horizonte, puxou a questão junto à intelectualidade brasileira, no sentido de que um abaixo-assinado fosse enviado ao presidente do IBGE. A partir dessa conjunção de forças conseguimos, mas não de maneira satisfatória, e certamente Carlos Hasenbalg deverá colocar também a questão da inserção, de novo, do item cor em termos do censo brasileiro". Em 1970, o regime militar havia retirado a pergunta sobre cor de pele do censo. Exatamente como os censos de 1900 e 1920, no pós-abolição. Estratégia dos governos autoritários para esconder a maioria negra do país. No atual momento político, agora que somos 56,10% da população, fica o alerta para garantir a continuidade da pergunta importante nos próximos censos.

Mas mesmo nesses dias difíceis, há motivos para ter esperança, como a recente criação da Assembleia Constituinte no Chile. Em celebração, destaco trecho de outra intervenção de Lélia, de 1987, publicada como "Discurso na Constituinte": "Nós não estamos aqui brincando de fazer Constituição. Não queremos essa lei abstrata e geral que, de repente, reproduz aquela história de que no Brasil não existe racismo porque o negro conhece o seu lugar. Nós queremos, efetivamente, que a lei crie estímulos fiscais para que a sociedade civil e o Estado tomem medidas concretas de significação compensatória, a fim de implementar aos brasileiros de ascendência africana o direito à isonomia nos setores de trabalho, remuneração, educação, justiça, moradia, saúde e por aí afora."

Por ser a Constituinte do Chile a primeira da história com paridade de gênero, vale atentar para a continuidade do discurso de Lélia Gonzalez: "Gente, nós não somos iguais perante essa lei, absolutamente, tanto que o sacrifício que fizemos para chegar aqui, nós que somos a maioria da população brasileira, por que não está cheio de negros aqui? Por que esta Constituinte é tão plena de brancos e tem apenas uns gatinhos-pingados de negro? Vamos refletir a respeito disso, e termos a seriedade de levar a fundo a questão de construir uma sociedade nova, uma Constituição que garanta o princípio da isonomia, senão, malandro, é a velha heteronomia que nós já conhecemos desde 1500". Heteronomia e desigualdades que, infelizmente, seguiram e se aprofundaram no Brasil depois de 1988.

No livro, há ainda textos sobre eleições e a importância da participação negra na política institucional brasileira, com menções emocionantes ao encontro do movimento negro com o movimento de favelas nas eleições de 1982, no Rio de Janeiro, sintetizadas na campanha conjunta de Lélia Gonzalez com Jurema Batista e Benedita da Silva.

Se você não é negra ou negro, não é por que me digiri pouco a você nesta resenha que o livro de Lélia Gonzalez não é para você. "Como foi dito hoje, a questão do negro, a questão do índio ou a questão da mulher não são questões só nossas especificamente, e sim da sociedade brasileira, de todos nós", interviu Lélia em 1986. Concordo integralmente com ela, confiando também que seu antirracismo vai ser manifestado na urna, no próximo 15 de novembro. Pode até levar o livro para te acompanhar na cabine de votação. É sobre todas e todos nós.

Bianca Santana é jornalista e escritora, doutora em Ciência da Informação pela ECA-USP. É autora do livro Quando me descobri negra (SESI-SP).


Marcas de beleza capitaneadas por mulheres negras combatem o racismo estrutural e institucional no país e lutam para fazer seus produtos chegarem às consumidoras.


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