Power players da beleza: Bruna Tavares

Com produtos inovadores e de qualidade antes só encontrada no mercado internacional, a empresária conquistou de experts de beleza a consumidores mais tradicionais. Aqui ela revê sua trajetória até o trono da maquiagem no Brasil.

Não é exagero dizer que Bruna Tavares mudou o mercado de maquiagem brasileira. Sua marca homônima foi a primeira brasileira a criar uma base em 30 tons diferentes – a BT Skin, aliás, vendeu mais de 200 mil unidades nos primeiros três dias após o lançamento e vende hoje mais de 1 milhão de unidades por semana. BT Velvet, sua sombra líquida de longa duração, foi um produto tão inovador que não apenas conquistou os beauty experts brasileiros, como também o mercado internacional. Verdade seja dita: é difícil achar algum aficionado por beleza que não tenha caído nas graças da BT. 

A entrada da empresária nesse universo aconteceu por meio da produção de conteúdo como jornalista e blogueira de beleza. Mas foi no desenvolvimento de produtos onde ela realmente se encontrou. “O mundo digital está em constante transformação, e as pessoas sempre vão comprar cosméticos. Isso nunca vai mudar. Meu negócio não é fazer publicidade ou aparecer em eventos. Meu negócio é fazer maquiagem”, diz. 

No bate-papo a seguir, Bruna fala sobre sua trajetória no mundo da beleza e compartilha os bastidores de sua marca. 

 

Bruna Tavares

 

Qual foi o seu primeiro contato com a beleza? 

Tudo começou no teatro, com artes cênicas, que estudei desde os 8 anos até a fase adulta. Eu tinha, inclusive, a certeza de que ia seguir uma carreira na área. Para as peças, a gente precisava se maquiar. Era uma relação muito lúdica, porque a maquiagem funcionava como uma ferramenta de transformação, para contar histórias e viver diferentes narrativas. Apesar de não trabalhar com teatro hoje, é algo que ainda é muito importante para mim. Por isso, estamos, como marca, presentes nas maioria das peças em São Paulo e no Rio de Janeiro. 

Você acabou trabalhando como jornalista de beleza, né?

Sim! Artes cênicas era um curso integral, mas como eu precisava trabalhar e estudar, acabei optando por fazer jornalismo, que era meio período, e tinha a expectativa de trabalhar com cultura. É uma área com muito pouco espaço de atuação e as vagas eram muito escassas. No final das contas, acabei me aproximando do universo da moda e da beleza. Essa escolha foi essencial para eu estar onde estou hoje, principalmente por causa do blog, o Pausa para Feminices. A escrita ainda faz parte do meu trabalho, mesmo sendo CEO de uma marca de beleza. Eu me meto muito no trabalho de todo mundo que faz conteúdo para a BT. (risos) 

Como surgiu o Pausa para Feminices? 

Fui da primeira turma da PUC Campinas a ter uma matéria de jornalismo digital. Durante o curso, a gente precisou criar um blog, e o meu primeiro foi de economia, acredita? Acho que sempre tive um lado empreendedor. (risos) Essa experiência fez com que eu me apaixonasse pela possibilidade de entrevistar pessoas e escrever meu próprio conteúdo. Comecei a ver isso como a oportunidade de ter meu material publicado e criar um portfólio. Na beleza, a Vic Ceridono, do Dia de Beauté, era a minha principal inspiração, porque ela era jornalista e blogueira. Foi assim que surgiu o Pausa para Feminices. E foi por causa dele que consegui diversas oportunidades dentro do jornalismo! 

Você imaginava que ia se tornar esse sucesso? 

Nunca! Meu objetivo era claro: criar um portfólio para conseguir um emprego e depois deletar a página. (risos) Mas comecei a criar uma comunidade, que se tornou parte de mim. Sempre fui muito tímida, então foi como se eu encontrasse a minha turma, feita de pessoas que se interessavam pelas mesmas coisas que eu. No começo, era um conteúdo mais jornalístico, mas depois os leitores começaram a me pedir resenhas e tutoriais – foi quando passei a produzir mais sobre beleza. Eu fotografava timidamente apenas o meu olho, minha boca… Não gostava de aparecer. Foi tudo muito aos poucos, sabe? Respeitei os meus limites no mundo digital. 

Foi com o blog que veio o primeiro convite para produzir seu primeiro batom, em parceria com a Tracta, né? 

Sim! Era a primeira vez que uma marca brasileira fazia parceria com blogueiras para lançar produtos. Mas as coisas só aconteceram para mim aos 45 minutos do segundo tempo: eu entrei no lugar da Vic, que não conseguia participar naquele momento. E é incrível que agora nós duas temos nossas próprias marcas. A Flávia Rocha, empresária por trás do grupo Farmaervas, que é dono da Tracta, brinca que 13 é o número da sorte dela, porque eu fui a 13ª blogueira, a última, a participar do projeto. 

“As coisas só aconteceram para mim aos 45 minutos do segundo tempo: eu entrei no lugar da Vic, que não conseguia participar naquele momento.”

Bruna Tavares

Como foi esse processo? 

Quando recebi o convite, abri uma conversa com os meus leitores para entender o que eles queriam desse batom: falei quais eram as minhas ideias e pedi para que eles opinassem. Esse post foi o que mais viralizou no meu blog. Recebi uma quantidade inacreditável de comentários. O que percebi é que eles queriam uma coisa diferente do que já existia. O mercado era muito tradicional, a maioria das cores era muito básica, por isso tive dúvida se deveria mesmo ir por um caminho mais ousado. Algumas das outras blogueiras optaram por fazer tons muito similares aos que já existiam em marcas como a MAC. Segui minha intuição e optei por um salmão meio neon! Fiquei bastante insegura, não vou negar. Além de tudo, a minha cor foi a que mais demorou para ser desenvolvida porque realmente era muito diferente. Isso gerou uma comoção no laboratório. Para a minha surpresa, o batom foi um sucesso absoluto.

“Uma brecha de oportunidade já é suficiente para eu querer entrar!”

Isso foi fundamental para que a marca Bruna Tavares surgisse? 

Com certeza. No contrato do primeiro batom, havia uma cláusula que dizia basicamente que, se o batom desse certo, a parceria poderia continuar. Quando isso de fato aconteceu, fui proativa e já comecei a apresentar novas ideias de produtos. Uma brecha de oportunidade já é suficiente para eu querer entrar! (risos) Outra decisão importante que eu tomei foi pedir para que a Tracta investisse o valor para produzir mais unidades, em vez de pegar o dinheiro do batom para mim. Eu enxergava o produto como um cartão de visitas: usei como parte de uma estratégia de marketing e mandei para várias pessoas legais e importantes no meio. Minha prioridade era usar a oportunidade para que mais pessoas conhecessem o meu trabalho e isso ajudou muito a fazer o produto bombar.

É aqui que entramos na era da Bruna Tavares oficialmente como marca? 

Na verdade, a primeira coleção foi lançada em 2012 e ainda era como licenciamento do Pausa para Feminices. Mas o sucesso foi tão grande, a linha se expandiu tanto, que ela precisou se separar da Tracta, dando origem ao que hoje é a TB Make, que tem coleções de diversas blogueiras. Foi só em 2016 que apresentei para os investidores o que hoje é a Bruna Tavares. 

Qual foi o primeiro produto lançado? 

Batom! Tinha que ser, né? (risos) Foram oito líquidos e oito em bala. 

Como funciona sua produção hoje? 

Temos um laboratório, que fica dentro da Farmaervas. Há uma parceria. Eles cuidam principalmente da produção e distribuição. Mas existem alguns produtos que são desenvolvidos sem nenhuma relação com o grupo, como as fragrâncias. Toda a parte de marketing e campanha, por exemplo, vem de investimentos meus e tocamos por fora. 

Qual o seu envolvimento com a marca? Quais são as áreas em que você atua mais diretamente? 

Eu estou em todas as áreas. Até os textos que vêm na embalagem, sou eu que escrevo! (risos) As ideias para os produtos, da formulação ao conceito, partem de mim. Faço marketing, campanha, desenvolvimento… Tudo! É claro que tenho uma equipe incrível, que amplia as minhas ideias e coloca a mão na massa. Estou em contato direto com todas as áreas diariamente, porque o briefing sempre vem de mim. A única coisa na qual não me envolvo é a distribuição.  

Você sempre traz produtos muito inovadores para o mercado. Como funciona seu processo de criação? 

Estudo muito. Não tem um dia que não pesquise e leia sobre o assunto. Quando viajo, gosto de conversar com vendedores, quero entender tudo o que está nas lojas, quem são as pessoas no mercado de beleza. Mas acredito que muito parte da minha intuição, que é um feeling de usuária mesmo. Faço maquiagens que eu quero usar – e estou sempre buscando o que está faltando. Um bom exemplo é o BT Velvet, nossa sombra líquida: a minha pálpebra não fixa produtos em pó de jeito nenhum e comecei a perceber o hype do batom líquido matte com aquela duração surreal. Então, pensei: “Por que não trazer essa fórmula para um produto para os olhos?” E ele foi um sucesso absoluto porque não tinha nada parecido na época. Até grandes players do mercado internacional já estão me pedindo por ele. Basicamente, não me limito e penso em solucionar problemas. 

Bruna Tavares

“Se eu consegui encontrar um gap de mercado até na Disney, que é uma marca que tem 100 anos, sempre existe espaço para criar coisas novas.”

Quais são os maiores hits da marca? 

O BT Velvet, não tem como, mas também o blush BT Plush e a base BT Skin. No TikTok, que é outro mundo muito específico e importante para a gente, os queridinhos são o BT Mallow, que é sombra e iluminador, e o Skinpowder, nosso pó facial. Alguns produtos também têm momentos de alta: a minha linha da Minnie, por exemplo, tem sido um grande sucesso. Essa linha, aliás, veio da ideia de trazer uma estética mais sofisticada para a personagem em produtos de maquiagem – algo que ainda não havia sido feito. Até o mercado internacional tem me procurado por causa desses produtos. Sempre digo: se eu consegui encontrar um gap de mercado até na Disney, que é uma marca que tem 100 anos, sempre existe espaço para criar coisas novas. (risos) 

Como vocês conseguem desenvolver produtos de alta qualidade com preços tão acessíveis? 

É tudo sobre negociar bem com o fornecedor e pesquisar muito, testar todas as matérias-primas, fazer muitas combinações. A gente sempre parte dos ingredientes mais caros e exclusivos, sem limite de budget. Já chegamos a usar pigmentos de 80 mil dólares! (risos) É a partir disso que vamos adequando a fórmula para algo que seja realista. Precisa de muita paciência e por isso nosso desenvolvimento demora tanto. 

Você falou muito do mercado internacional. Como estão os planos de levar a marca para outros países? 

BT foi citada pelo WGSN como a única marca brasileira de cosméticos com potencial de internacionalização – e isso é muito grande! Existe muito interesse em levar a marca para países que eu nem imaginava. Acabei de voltar de uma viagem ao Japão e fui abordada por diversos lojistas. Já estamos oficialmente em outros países da América Latina. Na Argentina, por exemplo, a marca é um sucesso. O mercado estadunidense é o nosso próximo passo. Ainda estamos resolvendo questões de vigilância sanitária e outras burocracias, mas logo começaremos as vendas pela Amazon. Meu objetivo é entrar nas grandes lojas físicas, como a Sephora. Eu ainda estou pensando como quero chegar a esse mercado, porque meu desejo é trazer uma identidade brasileira forte. Quero que saibam de onde somos. Estamos pensando nisso principalmente para a identidade visual e as embalagens. Estamos trabalhando nisso hoje para que, em 2024, a gente já esteja por lá com muita força! 

Conta um pouquinho sobre a BT House, a loja física da marca? 

Quando criamos o e-commerce, os desenvolvedores aconselharam que a navegação fosse muito prática para levar a uma compra rápida. Mas eu queria criar uma experiência para o consumidor, mesmo que ele demorasse mais para chegar ao carrinho e, eventualmente, comprasse menos. Isso também acontece no espaço físico, porque eu queria que ele mostrasse a minha visão da marca. Meu sonho era ter um parque de diversões de beleza. (risos) Por isso, criei uma loja lúdica, um lugar no qual as pessoas possam se conectar de verdade com a marca. Criar memórias afetivas com a beleza, sabe? Inclusive para as crianças que vão ali com suas mães e seus pais. A pessoa entra ali e vai para outro mundo. Quis trazer um mobiliário grande, por exemplo, para você sentir que a sua dimensão mudou. A loja é bem comprida e não dá para vê-la por completo quando você entra: é preciso andar por ela e passar por todos os universos que criamos. É uma verdadeira sequência de uaus! (risos)