Oi, Coração

Vivian Whiteman publica quinzenalmente uma sequência de cartas que começa na quarentena e não tem prazo para acabar. Uma correspondência sem destino certo sobre hábitos, modas, sentimentos, notícias e memórias de um tempo em transformação.


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São Paulo, maio de 2020

Hey. Essa carta é pra você, a primeira de todas.

Mentira, você sabe que já te escrevi muitas, talvez com outros nomes. Mas essa é uma nova fase. A gente demora a acertar, e nunca acerta tudo. Mas você aceita todas as tentativas, especialmente as mais ridículas. Você está em todas elas e não é nenhuma. Você serve, depois fica grande, pequeno, perdido em uma pilha de roupas que ninguém sabe mais de onde veio. E aí a gente se veste de novo. Eu vi um amigo de paetê no piano e você estava lá. Eu vi um amigo com roupa de astronauta e você estava lá. Eu vi minha filha de blusão com glitter e você estava lá. Eu vi um menino de cordão de prata e você estava lá.

Faz pandemia lá fora, nenhuma roupa cai bem. Mas do lado de dentro ainda tem muita coisa que brilha. Tive um sonho sobre a cabeça ficar muito cheia, pesando nos ombros, as costas arqueadas. Pensei na viagem do David Byrne cantando de ombreiras gigantes, com um terno imenso. Ele explicando que o look era pensado pra cabeça parecer menor. De repente é hora de aplicar essa técnica, depois me olhar no espelho assim, ver se o cérebro compra o truque. Sempre que toca uma música boa você está lá. Todas as palavras e melodias são o seu nome. Quando junta você e o som: essa é a melhor roupa. A que aperta sem sufocar, a que envolve sem pesar (e se pesa é um cobertor), a que lança um campo de eletricidade, deixa os passinhos odara. Às vezes você também tira o sono, sequestra a fome, faz doer quando anuncia partida. Não é fácil, mas a gente melhora quando aceita que você é movimento.

Às vezes te procuro em lugares desertos. Em grandes construções frias, nas palavras de certos homens. Eles até tocam no seu nome, meio que por obrigação, mas parece que a boca não tem sorriso pra isso, o som sai errado. Ali você não está. Já te vi de gravata, descalço, pelado, black tie, baby doll de nylon, na estica, uniforme de creche e pijama furado. Outro dia te vi de batom, num rosto molhado, mudei de canal, e você tava numa fila, filmando a cidade, tocando disco, servindo comida, dirigindo caminhão e nos tênis da dançarina.

Lá fora faz pandemia e, pra piorar, tem dia que tá frio. Meu pé fica gelado, tem sempre uma meia que some. Eu sei que é pra lembrar que gente nasce e morre com uma coisa faltando, mas ficamos sempre na vontade de completar. De ser inteiro. De saber tudo. De ver o futuro no caderno de previsões. De garantir o que não tem certeza nem nunca terá. Por outro lado, gostamos de entregar ao destino o que só as mãos podem fazer. Você às vezes dá risada, às vezes cobra pesado essa ilusão. E manda seguir. Nesses dias a gente tem seguido como dá. Pensando em nós e, com a coragem que a vida exige, nos outros. Percebendo cada vez mais que as pessoas são ligadas pelo fio real da existência, não é uma escolha. E que cada ação e cada silêncio deixam registro. Todo dia espero os gritos vindos dos prédios em volta. Você está nas palavras de ordem, cada vez mais agudo.

Na TV um apresentador de camisa muito bem passada a ferro conta sobre o futuro sustentável. Penso se tem o que se sustente nesse mundo de agora. Milhões de corpos apartados para que outros possam viver a mentira do universo bunker. Lembro do meu pai cantando “É a cabeça, irmão. É a cabeça, irmão. Mas que depressão!”. Não tem chapéu que segure. Não tem álcool que limpe as mãos. O jeito é atravessar portões, lutar, abrir caminho, não se curvar demais e criar.

Quando tudo pede arrego, pra aliviar, penso em você, no parquinho, no mar da Bahia, no céu de Paris, em andar a pé, subir uma rua de tarde ouvindo Sade ou comer um negócio na feira. Algumas coisas, que não são bem coisas, viraram passado de uma maneira incontornável. Lá fora vejo as mesmas cenas pelo portão, mas mudou o ponto do céu, o ar tem outro tecido. Que grande perda, parceiro, mas não há de ser essa a última. Espero que muito mais vá-se embora, de preferência o muito ruim, que o podre vire adubo ou lição. Não, não tem nada de bom nessa doença trágica. O que tem é uma exigência de mudança. Não do tipo troca de estação, não do tipo apostar dobrado no que já estava em curso. Mudança radical de perspectiva não se faz com saltinho pouco.

Nesses dias a gente pensa mais na morte do que na vida, mas não é o de costume. Muita gente se achando eterna, quando nem você é. Você também depende de gente, da gente. Outro dia eu tava mal e uma nova amiga me disse pra botar lavanda e alecrim na pele. Arrumei os macinhos atrás do cabelo e presos na blusa. Foi a coisa mais chic que usei nos últimos anos. É uma amiga muito elegante, moça de axé, dessas que a gente vê logo que anda muito com você, sócia do seu rolê. Gente que costura cuidado. Fico pensando no que está sendo construído hoje, mas tudo a seu tempo. Nada inteiro e quase tudo resolvido, a resolução sendo força e desejo de viver a vida sem pisar cabeças. Estamos em obras, e você precisa ser fundamento, fonte de calor. Pois apareça. Seu jeito de incompletar é diferente, deixa a gente sempre aceso, sempre querendo.

Dane-se o inverno, o inferno. Que nos aqueça esse arrepio.

Um beijo,

V.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.

Ilustração: Marcela Scheid

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