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No teatro brasileiro é comum os atores mandarem uns aos outros à merda para desejar boa sorte no espetáculo. Já na gringa, entre os americanos, quem lhe quer prosperidade fala logo um "break a leg", ou "quebre a perna", em bom português. Quem diria que a figura de linguagem fosse funcionar ao pé da letra, com o perdão do trocadilho, no caso de um skatista do ABC Paulista.

Eric Cesar, 28, já colecionava patrocinadores para se tornar profissional quando torceu o joelho. "Fiz uma cirurgia e a história de ser skatista brecou", relembra. Ele já namorava com Rafaela Sayuri, 25, com quem decidiu trabalhar em uma ótica para fazer alguma grana, mas, ela conta, "a vontade de ter um negócio próprio ficou na cabeça, porque a gente sempre foi muito criativo."

Os dois tinham parado de estudar no ensino médio, nem tinham formação específica em uma área, mas saíram do trabalho formal para lançar uma etiqueta própria de bonés. Usaram os quase 1,5 mil reais da rescisão para comprar uma máquina de costura. E, assim, em 2014, a Class nasceu. Bem, não sem antes vitimar outras pernas.


A máquina de costura foi instalada na laje da avó dele, na residência em que Cesar cresceu na periferia de Santo André. O casal já havia se aventurado na compra de tecidos e aprendeu na marra que malha com elastano não funciona para chapéu, porque estica e deixa o boné gigante. Mas eis que apareceu uma tia costureira recém divorciada vinda de Tupã, também em São Paulo, porque "quando rolava B.O.", ele brinca, "a casa da avó era onde todo mundo ia".

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A tia estava com emprego armado, quando — claro! — quebrou a perna. "Então ela aprendeu a fazer boné só para me ensinar a fazer boné. E é engraçado que eu não sabia fazer a barra de uma calça, mas aprendi a fazer boné", diz. O casal comprava e desmontava principalmente os modelos mais desejados pelos skatistas daqui, e que dificilmente eram encontrados nas lojas brasileiras, como os Five Panel, construídos com cinco pedaços de tecidos além da aba.

A Class virou a faculdade de moda que os dois nunca cursaram. Esforçaram-se para desenvolver produtos do zero, aumentando pouco a pouco a grade do catálogo, enquanto ele costurava e ela fazia a modelagem. "A gente diz que começou do difícil para chegar ao mais fácil". Depois do boné veio a jaqueta, e logo a calça, a camiseta e, só agora, tiragens de adesivos para os fãs.

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É provável que a fórmula do sucesso tenha sido entender que o trabalho vem antes do nome. Cesar e Sayuri explicam que a relação com Santo André e todo o histórico industrial do ABC Paulista foi fundamental para a formação da marca. "A moda brasileira é elitizada, geralmente com o filho de um ou o neto de outro no comando de tudo. A gente é operário. Filho e neto de operário, o que nos diferencia de muitos dentro desse mercado".


Eles montaram a grife nesse jeitão chão de fábrica. Para a construir a identidade visual, estudaram lookbooks, editoriais e a preocupação das marcas com as redes sociais. Os olhos nunca desgrudaram de referências como a Supreme e a Palace, mas essas etiquetas urbanas só abriram ainda mais as portas para "grifes fashion", como Comme des Garçons e Helmut Lang, que os inspiram nos dias de hoje.

Já a conexão com o próprio público foi bem mais simples. Com a CPTMáfia, um grupo de skatistas do ABC, a relação é pessoal. Os meninos e as meninas do grupo viraram espécie de "persona Class", que leva a marca para as ruas. "Eles estão na cidade, não só no Instagram", dizem sobre a adesão dessa comunidade que é de dar inveja a muitos empresários em busca de engajamento. "Eles definem o lifestyle da marca na maneira como andam de skate, no jeito que se vestem, nos conteúdos que consomem. São os nossos garotos propaganda e porta-vozes"

A valorização de Santo André também se estende às colaborações. Primeiro, veio uma com a Burger Map, hamburgueria bastante conhecida do município. Depois, com o Vintage Skate, uma mídia mundial para skatistas com sede no ABC.

Já a parceria mais recente (e que está à venda no site) é a com o coletivo de pichadores Oscururu. O casal desviou durante muito tempo da ideia de cooptar o grafismo do picho para estampar roupas, receosos de que isso soasse como aquele tipo de afronta de quem desloca a arte de rua sem compromisso algum com ela.


A deixa para mergulhar na cultura do picho veio quando os dois conheceram o trabalho do artista Luiz Sacilotto, concretista nascido na mesma Santo André da marca. Sua carreira teve destaque nos anos 1960 e, por causa dela, o casal enveredou por longas conversas sobre a relação da rua com a arte.

"O Sacilotto é respeitado mundialmente pela academia. É a arte certa. Juntamos com o Gds (lê-se Guedes), do [coletivo] Oscucuru, que faz a arte incorreta, segundo a elite brasileira", afirma Cesar. "Brasileira!", reforça Sayuri. "Porque, na verdade, ele viaja o mundo todo, com o povo pagando bem para conhecer como é a pichação paulista", continua.

Foto: Amanda Adász.


O contraste e a semelhança entre esses dois universos artísticos aparecem no último drop, principalmente em uma tote bag e em um tricô de lã italiana. "Porque a gente é assim: lixo e luxo, improviso e sofisticação, funk e bossa nova, centro e periferia", afirma o casal. Não à toa, contam que, depois de vestir nomes como Marcelo D2 e Mano Brown, o sonho é ver as peças desfilarem por aí com Rihanna ou Zeca Pagodinho.

Nenhuma outra perna precisa quebrar no meio do caminho, mas o sucesso parece certo. Agora, ambos assumem a parte criativa, enquanto contam com uma equipe nos setores comercial, financeiro, de expedição e operacional. Segundo a dupla, o streetwear brasileiro não é desvalorizado, mas falta uma profissionalização maior para que o setor cresça ainda mais.

"As marcas são principalmente de jovens, mas é importante que essas pessoas, que têm a vivência das ruas, consigam se profissionalizar, gerem empregos e conquistem o mercado que elas mesmas geram e que está em franca ascensão. Caso contrário, os tubarões aproveitam para nos substituir." Ou quebrar, de verdade, as pernas deles.

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