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João Pimenta | Foto: Divulgação
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Em novembro de 2020, João Pimenta apresentou um dos vídeos de moda mais impactantes da primeira edição da São Paulo Fashion Week durante a pandemia. Com os rostos todos cobertos por máscaras ultradecoradas, os modelos (ou o modelo, não dava para saber ao certo) transmitiam uma sensação de sufoco, não muito diferente da situação da que se vivia na realidade. Desde então, o estilista vem fazendo de suas coleções uma espécie de válvula de escape ou reflexo de emoções próprias ou coletivas em maior ou menor grau.

Na sexta-feira, 03.06, João decidiu transformar sua passarela num cortejo fúnebre. No convite, lia-se a recomendação para que os convidados fossem vestidos de preto dos pés à cabeça. No backstage, ele contou que esta é a última parte de uma série de apresentações, iniciada com a chegada da covid-19 há mais de dois anos e, agora, acrescida pelo caos político em nos encontramos.

A tradição de usar preto em funerais se difundiu durante a Idade Média, nos anos lembrados como “os mil anos de escuridão”. A comparação com nosso presente dispensa maiores explicações. Ainda mais para quem vive no Brasil: os últimos quatro anos foram obscuros.

João Pimenta.Foto: Divulgação

O desfile-político de João Pimenta poderia chocar apenas pela mensagem, pela música fúnebre, pelo poema A Flor e a Náusea, de Carlos Drummond de Andrade, recitado enquanto os modelos caminhavam. Mas ele também impacta pelos detalhes preciosos que o estilista costuma colocar em tudo que toca. São roupas pesadas, de várias camadas e nuances, que merecem ser olhadas de perto, tocadas, sentidas. As misturas de tecidos, matérias primas e técnicas usadas nesta coleção são infinitas.

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Pense em vestidos midi de renda combinados a calças de alfaiataria e blazers abertos nas costas, saias sobrepostas, sobretudos bordados, devorês de onça e flores em jaquetas e coletes puffer, saias longas volumosas, ternos de paetê e alfinetes e capas com capuzes gigantes. Tudo preto. A coleção começa casual ("para os meus parâmetros", como brinca o estilista no backstage) e termina com peças de alfaiataria com caveiras e esqueletos bordados.

Entre o caminhar dos modelos, todos negros, a cantora Nábia Villela recitava, entre outros versos, o seguinte: “Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”. Ao fim do desfile, João Pimenta entrou na passarela fazendo um L com uma das mãos. Sua coleção é pesada, sombria, obscura, mas seu trabalho e técnica aparece, brilhando. Como uma luz no fim do túnel – e, agora, enfim, há uma.

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Handred.Foto: Divulgação

Quem também escolheu versar sobre o Brasil de 2022 foi a Handred, marca do carioca André Namitala, que completa dez anos de existência. “Minha coleção é toda em tons de vermelho, em um paralelo ao nosso momento político”, explica ele. A coleção é uma celebração do ofício das costureiras que trabalham com Namitala há anos. A moda é mais festiva do que costumamos ver na etiqueta, com bordados de canutilhos, chapéus escultóricos, estampas recortadas a laser e aplicadas no veludo, além de outros trabalhos de superfície.

Walério Araújo é outro nome que está em clima de comemoração desde o ano passado. E dizer que sua passarela virou uma festa é redundância. Quem conhece a trajetória do estilista e seus mais de 30 anos de carreira, forjados em clubes noturnos, bailes de carnaval e muito fervo, sabe que as suas coleções podem até buscar uma ou outra referência externa, mas, no final, tudo acaba na pista.

Walério Araújo.Foto: Antônio Pereira Brandão

Desta vez, a celebração não só era esperada como foi buscada. Walério chamou Alexandre Herchcovitch e Johnny Luxo para fazerem a trilha ao vivo e fuçou o próprio acervo atrás de hits festivos – como o vestido amarelo de franjas usado por Rita Cadillac no Carandiru. Olhar para trás, conta o estilista, é reviver as feiras alternativas dos anos 1990, tal qual o Mercado Mundo Mix, além de toda a juventude underground que o acompanhou. Para entrar no clima do desfile, imagine plumas, vinil e paetês, emblemas LGBTQIA+, como Eloína dos Leopardos, drags e até mesmo um Mister Walério Araújo 2022 com tanquinho à mostra.

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Vontades que vem de dentro

A pandemia ainda é um tema bastante presente nos bastidores da SPFW. Muitos desfiles estão retornando só agora às passarelas físicas – um deles é o da Martins. Nesta temporada, o estilista se inspirou em quatro filmes que marcaram sua história, O Mágico de Oz (1939), Beetlejuice – Os Fantasmas Se Divertem (1988), Kill Bill (2003) e Pânico (1996). Apesar das temáticas cinematográficas completamente diferentes da moda apresentada por Tom Martins reforça os códigos com os quais o estilista vem trabalhando desde o início da marca.

Martins.Foto: Antônio Pereira Brandão

Peças amplas, camisetões, camisas de linho, moletons, vestidos longos e quadrados e bermudas enormes ganham estampas e referências que remetem a cenas dos longas escolhidos – a paisagem de Oz, a máscara do Pânico, as listras borradas de Beetlejuice e a calça e jaqueta amarelas de Kill Bill. A novidade fica por conta das plumas, usadas para decorar barras de mangas e saias, e os paetês, que aparecem nos looks finais.

Foto: Antônio Pereira Brandão

Já na Silvério, vontades internalizadas durante os dois anos de pandemia foram a força motor para a coleção desfilada nesta edição. Idealizador do Projeto Sankofa, ele insere pontos de cores vibrantes que despontam entre as camadas de roupas pretas volumosas para simbolizar esse desejo reprimido. O foco na alfaiataria segue como o norte da marca de Rafael Silvério, que, dessa vez, apostou em silhuetas sereia tanto em saias quanto nas calças boca-de-sino.

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