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A criatividade é uma competência universal, definida como a capacidade de um indivíduo de imaginar, criar e produzir. Ela existe nas mais diversas áreas de atuação humana, de um simples pensamento ao fazer prático das coisas, e pode prosperar até em situações e contextos mais adversos. É a responsável pelas mais variáveis transformações, desde o toque secreto em uma receita até o surgimento de novos hábitos em diversas esferas da sociedade. Por isso mesmo, é livre de fórmulas e manual de instrução. Qualquer balizamento, ou a mera tentativa de enquadramento sistêmico, tem um efeito direto sobre a potência do ato em si.

Ainda assim, é bastante comum a visão de que a criatividade segue padrões predefinidos. Muitas delas, não raramente, fecham os olhos para fatores externos determinantes no processo criativo. Questões sociais, de classe, raça, gênero, financeiros e até geográficas são quase sempre deixadas de lado na análise e valorização da criação e de seu objeto. Como produzir sem recursos? Como criar quando é preciso lidar com conflitos cotidianos outros? Qual é o resultado de uma criação em determinadas condições? Quem define os critérios de avaliação?


Para o artista plástico fluminense Vinicius Carvalho Allencar, 25 anos, a arte é um recurso de sobrevivência. Suas pinturas e colagens falam sobre o contexto histórico de crescer no país que, a cada 23 minutos, mata um jovem negro. "É tudo sobre minhas experiências, sou a minha referência. Os manos que vivem comigo são a minha referência, o pessoal da favela é a minha referência", diz Allencar. "Tento colocar isso em uma linha tênue entre o paraíso e o caos."

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Seus desenhos e ideias começaram a ganhar forma e cores enquanto fazia plantões na boca de fumo. "Estava correndo risco de vida, mas a arte estava ali. E foi algo muito forte dentro de mim", continua ele. Contra todas as estatísticas, Allencar mostrou ao mundo o tamanho de sua criatividade com o lançamento do Crialismo - Open Tour, uma coleção de camisetas e ecobags com desenhos exclusivos pintados com tinta acrílica, óleo e para tecido.

Em lugares considerados como "fim do mundo", onde o barro impede a chegada à escola e faltam recursos e incentivo à arte e à cultura, a moda surge como um grito de libertação. "O Muito Cria (persona e nome artístico criado por Allencar) é sobre quem é realmente cria, quem vive nessa linha tênue entre o caos e a sobrevivência, que resiste no meio de tanta agressão externa. Muito Cria sou eu, são pessoas que vivem em comunidade e querem sair dali, mas, ao mesmo tempo, voltam para resgatar mais gente", completa.

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João Belfort, 30 anos, mora em São Luís, Maranhão, e é o responsável pela marca Moda do João. Suas peças combinam formas clássicas, como camisas e calças de alfaiataria, com tecidos naturais leves, cores intensas e estamparia inspirada no cenário e na cultural locais. Fazer roupas, contudo, não era seu sonho de carreira. Foi durante o curso de publicidade que sentiu necessidade de se jogar nesse universo para expressar melhor parte de sua identidade – muito dela moldada por onde vive.


Porém a percepção de regionalidade e o valor cultural derivado disso variam bastante. Segundo Belfort, é só no segundo semestre, quando alguns festivais, como BR135 e Bumba-Meu-Boi, atraem turistas de outras regiões, que a produção local é impulsionada. "É uma luta diária por não estarmos no centro da moda", diz. "Somos vistos como incapazes."

Vivemos tempos de intensa conectividade. Nunca se teve tanto acesso a informações e pessoas. Contudo, a interpretação de tais conteúdos e individualidades ainda é pautada por valores e padrões elitistas e eurocêntricos. A exclusão se inicia com a separação entre a criação cultural formal e a do cotidiano e regional, feita na rua, passada por gerações e pautadas por valores alheios ao do consumo e status social.

"Trato o meu processo criativo como um filme em minha mente: arquiteto cada passo até que o resultado final possa ser executado perfeitamente", explica Allencar. "Isso me dá liberdade para errar na mente e ser mais assertivo na tela." Ele reconhece que não se trata de um processo academicamente recomendado. É de praxe nesse meio registrar todas as etapas do processo para uma melhor autoavaliação e evolução profissional do artista. Mas as circunstâncias aqui são outras.

Ao adentrar lugares aos quais nunca tiveram acesso, esses artistas precisam provar seu potencial duas vezes mais do aqueles já considerados membros da classe artística. Um simples erro pode ter consequências definitivas. "A arte é um meio muito acadêmico. Se não existe incentivo de produções artísticas das quebradas, como haveria a aceitação e a compreensão do nosso trabalho?", continua o carioca.


"Eu me entrego para provar que sou capaz de fazer o que quero, construindo um lugar melhor lugar na moda para os meus", continua Belfort. "Também somos da alta classe também. O Nordeste tem riquezas que não existem no centro", afirma. Para o designer, as situações externas afetam o processo de produção e pós- produção. "Nunca se sabe até que ponto seremos compreendidos. A questão da cor, não estar dentro dos padrões, a falta de recursos para produzir são situações que nos acompanham do começo ao fim."

"Moro quase no extremo leste de São Paulo, e isso já diz tudo", fala a fundadora da Vish Clothing, Nicoly Bahoc, 25 anos, sobre como sua realidade e seu contexto impactam seu trabalho criativo. "Não há suporte nem estrutura, exceto a cultura de rua, como o graffiti, que foi o que me introduziu ao hip-hop e o maior responsável pela construção do meu pensamento ideológico", continua.


O ano de 2020 foi marcado por eventos e situações que mudaram completamente a vida dos moradores do Conjunto José Bonifácio, onde Bahoc vive. Diferentemente de outras regiões mais abastadas da cidade, a vida ali não parou, apenas continuou com dificuldades aumentadas. "Fiquei uns quatro meses sem criar nada", diz a designer, que viu sua cabeça tomada pelas consequências da pandemia e dos protestos do Black Live Matters. "Estava mentalmente esgotada. Tudo o que estava acontecendo mundo afora me impactava de uma forma muito negativa. Ao mesmo tempo, em meados de junho, fui convidada para iniciar um projeto de uma revista transmidiática com outras 27 mulheres pretas de todo o Brasil e isso deu o gás que estava faltando. Era BLM lá fora e reunião com essas mulheres todo os domingos para se apoiar e criar um projeto em que teríamos a chance de retomar a narrativa que foi tirada de nós", diz.

Essas três histórias se cruzam na mesma estrada, embora geograficamente distantes. A sociedade capitalista valoriza e abre espaço para atividades criativas serem lucrativas, entretanto esse processo é marcado por fases distintas para pessoas que vivem em espaços longínquos dos epicentros da moda. Os passos devem ser mais precisos, cada marca deve ser pensada estrategicamente. O início de uma ideia precisa combater os acontecimentos externos, abraçá-los ou até expulsá-los para se manter de pé. Sorte a nossa que elas se mantêm de pé. O que a moda seria sem as pessoas que caminham nessa estrada? As perguntas continuam, na mesma felicidade que as produções são realizadas.


Uma estética consolidada pelas periferias, cuja imagem de moda anda ao lado de gêneros como o funk, o trap e o grime, forma um visual high tech, ao som de sintetizador, que é um retrato potente de vivência da quebrada.


A gente sabe que a resposta não existe, mas quer entender porque são os empresários negros, principalmente, que precisam lidar com essa pergunta.


Criado por sete jovens espalhados pelo Brasil, o Projeto Moda Preta é uma iniciativa que conhecemos pela hashtag #olhaELLE que fala de moda de forma não estereotipada.

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