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Antes de começar a escrever sobre o suposto fim do streetwear, me deparei novamente com uma foto-ícone de tempos distantes. O ano é 2009, Kanye West e sua turma – incluindo Virgil Abloh – posam para as lentes de Tommy Tom, no início do blog Jak & Jil, do lado de fora de um desfile da Comme des Garçons, em Paris. Os looks são uma mistura inusitada (para aquela época) de alfaiataria com clássicos da moda de rua: estampas gritantes, tênis, coletes doudoune e pastas (aka capangas) da Goyard e da Louis Vuitton. No fim da década passada, os sneakers ainda eram, para grande parte da população fashionista, item para ser usado na academia. Camisetas e moletons nem sonhavam em ocupar as passarelas, muito menos causar alvoroços com drops esgotados em segundos. Nesse meio tempo, tudo mudou.

Kanye West e Virgil Abloh do lado de fora de um desfile da Comme des Garçons, em Paris.Foto: Tommy Ton/Reprodução

Passaram-se onze anos, o streetwear ganhou status de luxo, tênis se tornaram itens de colecionador (e parte de um mercado de revenda milionário); o estilista georgiano Demna Gvasalia fez seu nome na indústria com calças jeans de upcycling e moletons de mangas alongadas, na Vetements, e abocanhou a direção criativa da Balenciaga. Virgil Abloh trilhou um caminho certeiro da Off White ao comando da linha masculina da Louis Vuitton em tempo recorde. Até grandes maisons de luxo, como Chanel e Dior, se renderam ao estilo. O streetwear virou pop, virou fashion, virou luxo. Se transformou e transformou o mercado.

Até que, dez anos depois daquela icônica foto, Virgil decretou o fim do streetwear. Em entrevista à Dazed, o estilista diz: "wow, eu diria que, em 2020, o streetwear definitivamente vai morrer. Já está na hora. Na minha cabeça, quantas camisetas mais nós podemos comprar, quantos moletons, quantos tênis?". A frase foi amplamente divulgada, muitas vezes fora de contexto. Mas, e aí, é, de fato, o fim do streetwear?

Carta de Kanye West sobre sua pareceria com a GAP.Foto: Divulgação

Há fortíssimos indícios de que não. Em junho, Matthew M. Williams, fundador da marca de streetwear e roupas de performance Alyx, assumiu a direção criativa da Givenchy. Ele substitui Claire Waight Keller, estilista britânica que comandou a maison por três anos e buscava em códigos clássicos de luxo seus principais alicerces. Poucos dias depois, Kanye West fechou uma parceria de dez anos com a Gap, a fim de lançar uma linha acessível da sua grife própria, a Yeezy. Na quarta-feira (14/07), a Hood By Air, marca de Shayne Oliver desativada desde 2017, anunciou que retomará suas atividades.

Em paralelo, a pandemia — sim, ela de novo — trouxe de volta aos holofotes as roupas confortáveis, casuais, simples, fáceis de usar e combinar. Contudo, é um tanto superficial limitar streetwear dessa maneira. Mais do que camisetas e moletons, trata-se de um estilo de vida que prioriza a originalidade. Sua origem está associada às comunidades majoritariamente negra e latina, nos Estados Unidos de décadas atrás, num mix de elementos do skate, do surf, dos guetos. Há quem diga que o movimento surgiu no Bronx, no fim dos anos 1970, e há quem defenda a tese de que a foi a Califórnia, no começo dos anos 1980, a responsável pelo seu nascimento. Sua origem exata, no entanto, não importa muito aqui.

De dentro para fora

Looks das irmãs Tracie e Tasha Okereke.Foto: Divulgação

Se engana quem resume o streetwear ao último tênis da moda ou àquela camiseta assinada, geralmente caríssimos, como mostra o vídeo Quanto Custa o Outfit. Para provar a falácia de tal ideia, as irmãs Tracie e Tasha Okereke criaram o blog Expensive $hit em 2014. Nele, elas criam looks completos por apenas 20 reais com roupas de brechó, customizam peças, costuram modelos do zero e mostram que a alma do streetwear não está em uma etiqueta. Seu slogan, inclusive, é "Foda-se Suas Etiquetas".

Cantoras de rap com um EP e alguns singles lançados, as gêmeas contam que por muito tempo usaram apenas peças que ganhavam quando alguém se desfazia delas. "Não tínhamos dinheiro para comprar nada, então acabamos criando esse olhar para garimpar em brechós, ver nosso potencial, customizar e transformar as peças no que a gente queria que elas fossem", contam. "Isso acabou sendo bom para gente se conhecer e desenvolver nosso próprio estilo. Para elas, a suposta morte do streetwear tem mais a ver com uma maneira de consumir que está ficando pra trás.

As irmãs Tracie e Tasha Okereke.

Foto: Divulgação

Para Carla Arakaki, DJ, fotógrafa e produtora executiva, "as boas marcas de moda de rua têm história para contar, seus consumidores se envolvem e criam um relacionamento com aquilo. É muito mais do que comprar roupa, tem a ver com se expressar, mostrar que você faz parte de um grupo".

Pedro Andrade, estilista por trás da marca Piet, partilha da mesma opinião. "O streetwear não é o moletom necessariamente. Minha concepção é outra. Quando o Virgil [Abloh], autor daquela polêmica frase, pega rappers, skatistas, atletas patrocinados pelas marcas Palace e da Supreme e coloca na passarela dele, ou quando patrocina o [skatista profissional] Lucien Clark através da Louis Vuitton… isso tudo é streetwear", explica ele. Sua marca mistura elementos da rua com uma alfaiataria precisa e referências japonistas. No início de 2019, chegou à passarela da São Paulo Fashion Week, em um momento que o evento estava sedento por renovação. À época, a Piet já tinha um séquito fiel.

Andrade não gosta de se autodenominar um criador de streetwear, mas um estilista contemporâneo, que combina elementos de diversos estilos. A Piet é, no entanto, um dos nomes mais citados quando falamos da cena do streetwear brasileira. "No geral, acho que todas as concepções antigas desses segmentos acabaram. Quando você fala de luxo, para mim, entra tudo no mesmo saco. Não é o streetwear que acabou, é que tudo virou uma coisa só. Não há mais os rótulos de que o streetwear não pode ser luxo e o luxo não pode ser streetwear", pontua Andrade.

Segundo ele, o que fica na década passada é a concepção de que roupas de streetwear são banais, sem acabamento, sem informação de moda. "Isso já se renovou faz tempo. Hoje, esse estilo não está só na lojinha de skate, está na Dover Street Market, nas grandes lojas de departamento. O status mudou."

Look Piet.

Foto: Alex Batista | Beleza: Helder Rodrigues | Styling: Marcio Banfi

Todo movimento que começa no underground e chega no mainstream perde parte de sua autenticidade. É o que transformou o streetwear ao longo dos anos. A exclusividade das coleções cápsula com pouquíssimos itens, antes um dos principais atrativos que conferia qualidade insider às peças e marcas, já faz parte do modus operandi de muita grife de luxo. "Com o crescimento do segmento, os logotipos, que antes mostravam profundo conhecimento de uma subcultura, perderam significados específicos, misturando os early adopters com as massas", explica Mariana Santiloni, do bureau de tendências WGSN. "Hoje em dia, quando a parcela mais vanguardista usa logotipos, opta por marcas hiperlocais e de amigos, assim seus visuais só podem ser interpretados por verdadeiros conhecedores", completa.


"Como um movimento, o streetwear não morre. Talvez a gente não veja uma colaboração como a da Supreme com a Louis Vuitton de novo, mas tudo isso gerou grandes transformações no mercado como um todo, explica Pedro Prado, um dos sócios da Guadalupe Store.

Inaugurada em 2011, quando o hype do streetwear ainda nem pensava em chegar ao mais alto posto da moda mundial, a loja do Bom Retiro foi criada para a comunidade sneakerhead. Hoje, o endereço é uma das 50 lojas no mundo a vender a coleção Adidas Consortium — uma das mais exclusivas do segmento —, já importou pares de tênis raríssimos e criou algumas coleções em colaboração com marcas como Fila e Nike.

No fim de 2019, Kim Jones criou um Air Jordan em parceria inédita da Nike com a Dior. Alguns semanas atrás, foi criada uma lista de espera para quem quisesse comprar o tênis. Resultado: mais de cinco milhões de pessoas se inscreveram para adquirir um dos 8 mil pares de US$ 2 mil.

Air Jordan em parceria de Kim Jones, da Dior Homme, com a Nike.Foto: Divulgação

Para Prado, não é só porque o estilo não está mais nas passarelas em sua forma mais óbvia que ele tenha morrido. "O streetwear deixou de ser um nicho, não sou mais eu e 50 caras trocando ideia na internet. Hoje em dia, nós fazemos sorteios para escolher quem vai comprar os modelos que chegam na Guadelupe. Semana passada deixamos uma lista aberta por meia hora, às 10h da manhã de um sábado, e nove mil pessoas se inscreveram."

Segundo Bruno Luciano, uma das cabeças por trás do NOTTHESAMO, zine sobre a indústria do streetwear e produtora de conteúdo, a influência do streetwear dentro das marcas de luxo ainda tem um longo caminho a percorrer. "Isso só tende a aumentar. Até então, as marcas que buscam na rua essa influência são as que já tinham linhas de sneaker e de camiseta, como a Gucci, por exemplo", comenta. "Eles querem que esse consumidor mais jovem seja fiel a eles. Vi uma entrevista com o Yohji [Yamamoto] e, quando perguntam pra ele qual a coisa mais legal de ter uma marca, ele responde que é quando vê um jovem adolescente reconhecendo sua marca. As marcas querem cada vez mais isso."

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Matthew M. Williams na Givenchy, Emma Watson na Kering e o chamado apocalipse do varejo, que afeta Zara, H&M, Sies Marjan, entre outros. Toda segunda-feira, a redação comenta as principais notícias de moda da semana.



Neste Pivô, conversamos com estudiosos da cultura brasileira para avançarmos no debate de apropriação cultural, para além da discussão rasa do pode ou não pode. Toda segunda-feira, a redação comenta as principais notícias de moda da semana.

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