No outono de 2024, cada uma de suas aparições no Tribunal de Avignon, na França, era recebida com aplausos estrondosos. Mulheres apareciam para lhe entregar maços de flores, algumas desabavam em lágrimas ao tocá-la, e centenas de outras lhe escreveram cartas comoventes. Seu nome surgiu em colagens pelas ruas da cidade e seu rosto apareceu em murais do outro lado do mundo. Ao se recusar a fechar as portas — ao escancarar as portas do julgamento de Mazan — e ao encarar diariamente as câmeras do mundo inteiro de cabeça erguida, Gisèle Pelicot, drogada pelo marido e estuprada enquanto estava “adormecida” por dezenas de homens, tornou-se um verdadeiro ícone.

E ela, que até então reservava suas palavras ao tribunal, agora abre o coração em um livro já traduzido para vinte e duas línguas, inclusive o português: Et la joie de vivre (Um hino à vida, publicado pela Companhia das Letras). 

O título pode parecer surpreendente à primeira vista, considerando que o caso de estupro de Mazan representou uma descida tão profunda à depravação, mas torna-se claro à medida que a história avança: Gisèle Pelicot, uma “pequena soldada da felicidade”, revela uma vida marcada por tragédias e luto — narrada, porém, sob a escolha consciente de permanecer alegre, aconteça o que acontecer.

“Fiquei pensando se as pessoas diriam: ‘Ela de novo!’ Ou pior: ‘Gisèle Pelicot? Isso vai ser sensacionalista…’”, diz no dia da nossa entrevista. 

Ela conta que trabalhou com sua coautora, a jornalista Judith Perrignon, para garantir que o relato nunca fosse vulgar nem voyeurista — sempre contido e totalmente sincero. O texto impressiona pela dignidade e delicadeza, retratando uma mulher que se recusa ao ódio e à raiva. Uma mulher de força surpreendente.

“Eu não queria falar do julgamento”, explica. “Tudo já foi dito. Eu queria que as pessoas me conhecessem. A resiliência é algo com que cresci!”

Descobrimos também uma mulher apaixonada — uma adolescente de 73 anos que nos pede para testemunhar:

“Vocês viram como ele é bonito?”, diz ela, apontando para Jean-Loup, seu novo companheiro, que a mima e não sai de seu lado.

Mas quando sua assessora de imprensa, por engano, diz “seu marido”, Gisèle Pelicot reage imediatamente:

“Ah, não! Meu amante! Casamento, nunca mais! Sou um espírito livre.”

Gisele Pelicot

A última vez que nos vimos, você estava saindo do tribunal de Avignon logo após o veredicto, e havia uma multidão. Como você está hoje?

Estou melhor. Com este livro, consegui olhar para dentro de mim mesma, fazer um balanço da minha vida. Estou tentando me reconstruir nesse campo de ruínas e acho que estou no caminho certo. Nunca poderei esquecer o que aconteceu. A cicatriz ainda está aberta. Mas agora me pergunto: “O que fazer com toda essa lama?” Porque sim, foi como se eu tivesse sido mergulhada em uma torrente de lama… Decidi trazer cor de volta à minha vida. Precisamos transformar tudo isso em algo nobre. Hoje, estou renascendo das cinzas.

Daí o título Et la joie de vivre (E a alegria de viver, Um hino à vida, na edição brasileira), que pode surpreender — e é lindo. Como você o escolheu?

O título também remete a uma saga familiar. É a trajetória de três gerações, três mulheres, com suas alegrias, tristezas e resiliência. Minha força e positividade me foram transmitidas pela minha avó e, sobretudo, pela minha mãe. 

Ela ficou doente muito jovem, aos 28 anos, e morreu aos 35 de um tumor cerebral. Apesar da doença, nunca chorou na minha frente. Sempre sorria, mesmo nos piores momentos. 

Perto do fim, tinha emagrecido muito e não tinha mais seios. Então colocava laranjas dentro da blusa, e ela e sua irmã riam juntas como duas cúmplices. Eu sempre via uma mulher que parecia feliz — porque acho que ela era feliz com meu pai. 

Eles, no entanto, viviam muito separados porque ele era militar de carreira. Passei muito tempo com minha mãe e pouco com meu pai. Tudo isso molda a personalidade de uma pessoa.

Foi isso que você também quis mostrar com o livro — quem você era muito antes de Mazan?

Era importante voltar à infância, porque vivi tragédias. Minha avó perdeu uma filha pequena que morreu depois de se queimar com água fervente. Aquela mulher devastada nunca vacilou diante de mim. No dia seguinte à tragédia, ela apareceu vestida de preto — mesmo com meu avô ainda vivo — e nunca mais saiu do luto. 

Depois minha mãe desapareceu. 

O medo da morte me acompanhou desde muito cedo. Lembro de uma noite em que estávamos assistindo “La Piste aux étoiles” na televisão. Minha avó entrou e disse que tinha colocado uma bolsa de água quente nos pés da minha mãe, mas eles continuavam frios. Ela havia morrido com os olhos abertos. Quando meu pai fechou seus olhos, eu a sacudi, achando que ela acordaria. 

Eu tinha nove anos. Ali entendi que não seria uma menina como as outras. Meu pai estava devastado, meu irmão também, e eu pensei: “preciso ser forte, preciso consolá-los.” 

Os papéis se inverteram. Foi assim que cresci. Era importante explicar como fui formada, como foi minha vida, porque embora meu nome, meu rosto e o que sofri tenham marcado a opinião pública, ninguém sabia quem eu era ao final do julgamento. E eu não quero ser apenas a vítima — a mulher quimicamente subjugada pelo marido e oferecida a dezenas de estupradores.

Algumas pessoas criticaram essa sua força durante o julgamento: “Por que ela não chora mais? Por que não desmorona?”

Tenho um senso de pudor que me impede de chorar diante dos outros. Não compartilho esse sofrimento. Isso não quer dizer que eu não esteja imensamente triste. Tenho momentos de tristeza, mas guardo-os para mim. Estou focada no futuro. Ódio e raiva não me interessam. Eles não constroem nada — destroem — e eu já fui destruída o suficiente. Não posso nem levar o mérito por isso; deve ser genético!

Você chega a dizer no livro que decide ser feliz…

Sim, eu busco a felicidade e a alegria de viver. Meus amigos às vezes me perguntam: “Como você consegue?” Eu não sei, talvez por causa do exemplo das mulheres da minha família. Por isso eu as homenageio no livro. Falar da luz e do sorriso da minha mãe é uma forma de mantê-la viva.

Há uma cena no livro que nos deixou atônitos: em 2 de novembro de 2020, quando você sai da delegacia de Carpentras, onde um policial revela que você vinha sendo estuprada e sedada por anos pelo seu marido, você volta para casa e o seu primeiro impulso é passar o aspirador…

Em 19 de setembro de 2020, o sr. Pelicot me disse que havia sido convocado à delegacia porque tinha feito algo “estúpido”. Fiquei atônita e, por alguma razão, pensei que ele tivesse cometido um roubo. Na verdade, ele confessou que tinha tirado fotos por baixo das saias de mulheres, que tinha sido um impulso. Eu lhe disse: “Escute, você vai pedir desculpas a essas mulheres, vai procurar um terapeuta. Não vou te abandonar, vou te ajudar.” E também disse que, se acontecesse de novo, eu iria embora.

Então fomos convocados para comparecer à delegacia de Carpentras em 2 de novembro de 2020, às 9h30. Mais tarde, durante a investigação, descobri que ele me havia estuprado e feito com que eu fosse estuprada nas noites de 3, 10 e 21 de outubro! Será que ele acelerou o ritmo porque sabia que tudo estava prestes a acabar?

Quando entrei no escritório do policial naquele 2 de novembro, a entrevista imediatamente me pareceu estranha. Ele perguntou se recebíamos amigos em casa, como eram nossas noites… e se eu participava de trocas de casal! Fiquei chocada. Respondi: “Nunca, nem em um milhão de anos!”

Então o tenente disse: “Seu marido está sob custódia, e o que vou mostrar agora não vai deixá-la feliz.” Ele me mostrou fotos de uma mulher dormindo sendo estuprada. Ela estava vestida, maquiada, como uma prostituta… Eu disse que não era eu, que aquelas não eram minhas roupas. Mas era meu quarto, minha mesa de cabeceira, meu abajur… Pensei que fosse uma montagem fotográfica. Não conseguia acreditar que fosse real.

O policial chamou uma psicóloga. Eu só queria estar em casa, com meu cachorro, caminhar pela vegetação. Quando cheguei em casa, estava tudo revirado: a polícia tinha vasculhado tudo em busca de drogas. Então sim, passei o aspirador, limpei — mas eu precisava limpar o que estava dentro da minha cabeça!

Disse a mim mesma que aquilo era mentira, que alguém queria prejudicar o sr. Pelicot… Como admitir que, durante cinquenta anos, eu não tinha visto nada? Que você tinha caído no inferno? Então sim, como um robô, completamente atordoada, arrumei a casa, coloquei roupa para lavar, lavei o pijama dele, estendi a roupa no varal…

Você chama Dominique Pelicot de “o homem de duas faces”: o homem que foi seu carrasco, mas também seu porto seguro. Era importante mostrar esse lado também?

Sim. Nos conhecemos muito jovens, aos 19 anos. Eu estava loucamente apaixonada por ele. Foi o primeiro homem da minha vida; esperamos nove meses antes de dormir juntos, e ele respeitou isso. O que é louco, quando vejo o que aconteceu depois!

Ele não era feliz na família dele… Nosso relacionamento era quase um pacto contra a infelicidade. Queríamos ter filhos e ser felizes. Sempre nos apoiamos; eu sempre o apoiei — em sua carreira caótica, durante sua doença, quando teve câncer… Para mim, isso era a vida a dois: casar “para o melhor e para o pior”.

Eu não imaginava que o pior chegaria em 2 de novembro de 2020. Para mim, o pior era a morte ou a doença.

Depois desse cataclismo, recomecei do zero, com apenas duas malas e meu cachorro. Vendi todos os meus móveis na internet. Parti como uma jovem de 20 anos começando a vida.

Gisele Pelicot entrevista

Então ele também tinha esse lado luminoso que você se recusa a ignorar…

Mas todo mundo era encantado por ele: eu, nossos filhos, nossos amigos! Sempre que alguém precisava, ele estava lá. Nossos amigos diziam: “Vocês são o casal perfeito.”

Minha amiga Pascale, que nos conheceu aos 20 anos, dizia que tínhamos um lar feliz, sempre cheio de convidados, com amigos dos nossos filhos entrando e saindo, festas, dança… Minha filha Caroline dizia que parecíamos adolescentes eternos — e era verdade!

Preciso dizer a mim mesma que aqueles cinquenta anos não foram apenas uma mentira, uma ilusão. Senão tudo desmorona. Significaria que eu não vivi nada. E aí a morte vence.

Você escreve que sempre teve medo da morte e medo da noite…

Quando era pequena, não conseguia dormir no escuro. Sempre precisava de uma luz ou dormia com meu irmão. A morte da minha mãe me marcou tanto que associei a morte ao sono.

Até hoje durmo mal. Quando o sr. Pelicot trabalhava à noite, eu escutava um programa de rádio chamado Ligne ouverte au cœur de la nuit e adormecia justamente quando ouvia a chave girar na fechadura — sabendo que ele havia voltado para casa.

Você nunca soube dos estupros porque estava fortemente sedada, mas descreve pesadelos perturbadores que teve por anos…

Quando morávamos em Gournay-sur-Marne, eu sonhava com frequência que dois homens entravam no meu quarto armados. Eu me escondia debaixo da cama. No sonho, via apenas os pés deles, e meu medo era que levantassem a cama e me encontrassem.

Na época, não tentei interpretar esses pesadelos. Eu os empurrava para fora da mente e atribuía ao meu sono ruim. Mais tarde, tive outro sonho: um homem e uma mulher tocavam a campainha e diziam que uma mulher queria denunciar o sr. Pelicot. Algum tempo depois, ele foi preso.

E mesmo com esses sonhos — e com sintomas físicos — você nunca suspeitou de nada?

Não. Quando comecei a ter apagões, pensei que fosse morrer de tumor cerebral, como minha mãe. Consultei médicos. Falei com o sr. Pelicot, e ele disse: “Não, você não tem nada. Pare de se preocupar.”

Mas eu sempre tive uma memória excelente, e de repente não conseguia lembrar o que tinha feito no dia anterior. No livro conto um episódio no cabeleireiro: ele me levou lá, lembro de abrir a porta do salão… e depois tudo ficou negro.

No dia seguinte meu cabelo estava tingido e cortado, mas eu não lembrava de nada.

Voltei ao salão. A cabeleireira disse: “Você nos assustou muito, pensamos que estava tendo um AVC. Seu rosto estava congelado.” Ela aconselhou meu marido a me levar a um médico.

Consultei vários neurologistas. Um falou em derrame cerebral; outro disse que eu era ansiosa e receitou melatonina. Fiz tomografia — nada apareceu. Meus apagões ficaram cada vez mais frequentes. Às vezes eu dormia a tarde inteira.

Um médico chegou a dizer ao meu genro que eu tinha sinais iniciais de Alzheimer.

Também tratei infecções ginecológicas. Mas todos esses especialistas — que nunca tinham ouvido falar de submissão química — interpretavam os sintomas como os de uma senhora ansiosa.

Depois da prisão do sr. Pelicot, fui ao pronto-socorro forense de Versailles. Descobri que tinha quatro doenças sexualmente transmissíveis. Fui tratada com antibióticos, mas uma permaneceu: o papilomavírus. Tive que fazer uma cirurgia em novembro passado.

Tudo por causa daqueles homens que me estupraram.

Algumas pessoas se recusaram a acreditar que você não tivesse percebido nada durante tantos anos…

Meu marido me acompanhava aos médicos, até marcava as consultas. Hoje sei que ele me manipulava, mas na época eu sentia que ele era meu aliado.

Houve algumas coisas estranhas. Um dia ele me serviu uma cerveja com uma cor verde estranha. Comentei que levaria de volta à loja, e ele imediatamente despejou tudo na pia.

Houve também um momento em que, sem lembrar da noite anterior, eu brinquei: “Você não está me drogando, está?”

A reação dele foi surpreendente. Ele começou a chorar e disse: “Você percebe o que está dizendo?” Eu me desculpei imediatamente…

Talvez meu subconsciente suspeitasse de algo. Desde a prisão dele, passei dias revendo esses momentos como sinais.

Mas mesmo que eu tivesse suspeitas, jamais poderia imaginar o que foi descoberto: a extensão da trama, a rede de estupradores, os crimes. Tudo isso ultrapassa a imaginação.

O que impressiona é que, depois da revelação na delegacia, você nunca mais vê sua casa da mesma maneira. Você escreve: “Ela está cheia de esconderijos e segredos…”

Depois da prisão dele, a polícia encontrou comprimidos para dormir escondidos nas minhas botas de caminhada: Temesta, Zolpidem e um poderoso relaxante muscular. Também encontraram meias femininas no carro dele.

Quando retiraram da parede um quadro que ele havia pintado — o de uma mulher nua vista de costas — descobriram o título escrito atrás: “L’Emprise” (O Domínio).

Há também aquele momento terrível em que você precisa contar aos seus filhos. Eles vão até a casa de Mazan e cada um reage de uma forma…

Caroline, minha filha, foi à delegacia e viu fotos tiradas pelo pai: fotos dela nua, dormindo. Fotos abjetas, que revelavam o olhar incestuoso e abominável que ele tinha sobre ela.

Ela voltou completamente perdida, furiosa, e eu fiz o possível para não desmoronar diante dos meus filhos. Porque, se eu desmorono, tudo desmorona.

Vi minha filha devastada pela dor e me senti impotente. Ela teve uma crise de tetania; dei a ela um copo de água com açúcar e chamamos os bombeiros. Eu compreendia a dor dela, mas não sabia o que fazer.

Ela me pediu para dormir com ela naquela noite, mas eu recusei, porque tinha medo de começar a chorar se a tocasse. Então voltei para a cama conjugal — aquela em que fui estuprada tantas vezes…

Foi o irmão dela, Florian, quem colocou o colchão no chão ao lado dela.

Ela me perguntou: “Mãe, você vai dormir nesse quarto?”

Mas para mim, naquele momento, ainda era o meu quarto. Eu não tinha lembrança dos estupros e ainda não tinha visto os vídeos. Se tivesse visto, jamais teria entrado naquele quarto. Eu teria incendiado a casa…

Mas naquela noite eu estava em estado de choque.

Você também fala daqueles momentos em que seus filhos esvaziam a casa, fazendo várias viagens ao depósito de lixo…

Eles precisavam se livrar de tudo. Eu queria salvar o que fosse possível — as boas lembranças, um pedaço da minha vida que estava em frangalhos.

Disse que gostaria de separar algumas coisas, e Caroline respondeu: “Mas o que você quer guardar dessa vida? Você não pode guardar nada de uma pessoa assim!”

Tentei argumentar, mas não consegui. Hoje entendo por que ela reagiu daquele jeito. Para eles, aquela vida já não existia mais.

Eu arrumei duas malas, como um robô, e fui com eles. Não queria ir para Paris, mas não tinha escolha. Não podia ficar naquela casa.

A polícia me disse que eu estava em perigo, porque alguns indivíduos — que ainda não tinham sido presos — sabiam meu endereço.

Durante o julgamento, sua filha Caroline acusou você de não apoiar a convicção dela de que também foi abusada pelo pai. Era insuportável para você imaginar isso?

Era realmente insuportável. Mas tentei entender, inclusive conversando com minha filha sobre quando e onde aquelas fotos tinham sido tiradas. Eu precisava de provas.

Nas imagens, vê-se claramente um olhar incestuoso, mas nada indica que um ato tenha sido cometido — o que não significa que não tenha acontecido.

Por essas imagens, assim como pelas fotos que ele tirou das minhas enteadas, o sr. Pelicot foi condenado por produção de imagens com fins pornográficos.

Minha filha vive na dúvida — condenada a um inferno permanente. Ela sofre, e isso me dói profundamente. Ela precisa de respostas, e eu culpo o sr. Pelicot por não lhe dar essas respostas.

De certa forma, dentro da minha tragédia, tenho uma “sorte” que muitas vítimas não têm: existem todas as provas do que aconteceu comigo.

As coisas se acalmaram entre vocês?

Sim. Antes do Natal ela me ligou para saber como eu estava. Minha cachorrinha, Lancôme, morreu no começo de dezembro, de um câncer agressivo no baço.

De 2020 a 2025, dormi com esse cachorro; ele era meu consolo.

Minha filha sabia que eu estava triste e me ligou. Desde então conversamos todos os dias. Estou muito feliz por isso.

É muito doloroso para uma mãe saber que a filha está sofrendo e não conseguir ajudá-la. Hoje fico feliz por termos nos reencontrado e por podermos reconstruir nossas vidas lado a lado.

Caroline busca justiça para si mesma. Contratou um novo advogado, e eu a apoio totalmente. Tenho muito orgulho dela — da luta dela e do que se tornou.

O trabalho que ela realiza com a associação “M’endors pas”, que luta contra a submissão química, é extraordinário.

Ainda há cerca de trinta homens que não foram presos. Isso a assusta?

Sim, é inquietante pensar em todos esses estupradores soltos. Inquietante para tantas outras mulheres.

Mas não quero me tornar paranoica e imaginar que o homem que me diz “bom dia, senhora” na rua possa ser um deles.

Durante o julgamento em Avignon, uma vez fomos almoçar em um restaurante perto do tribunal. Quando fomos pagar, o garçom disse: “O senhor ali já pagou a conta.”

Fui agradecê-lo e disse que aquilo me deixava um pouco desconfortável. Ele começou a fazer um grande discurso dizendo que sabia que eu tinha perdido tudo…

Quando perguntei onde ele morava, respondeu: “Em Saint-Pierre-de-Vassols.”

Fica a apenas quatro quilômetros de Mazan.

Pensei: talvez ele seja um dos estupradores. Ou talvez tenha apenas se emocionado com a minha história e quis fazer um gesto gentil.

Mas admito que o primeiro pensamento foi esse.

No livro você fala com muita franqueza sobre sua vida sexual com Dominique Pelicot e até sobre um caso extraconjugal. Por que essa sinceridade absoluta?

Porque revisitar minha história, minha evolução e até meus desejos é apagar aquela imagem de um corpo inerte — quase morto — que estava no centro de tudo isso.

Também é uma forma de compartilhar com outras mulheres os medos da juventude, os complexos, as ansiedades e essa virada incrível que é a maternidade.

Casei jovem, aos 20 anos. O sr. Pelicot foi meu primeiro homem. Mas, por volta dos 35 anos, me apaixonei por Didier, um engenheiro com quem trabalhava.

Nos tornamos amantes. Ele era cinco anos mais jovem que eu. Talvez tenha sido também uma maneira de provar para mim mesma que ainda podia ser desejada.

Na verdade, eu amava os dois — de formas diferentes.

Você passa a vida revisitando sua história, tentando entendê-la. Mas também precisa não se sentir sozinha.

Na minha geração, as mulheres falavam pouco entre si. Vivíamos com culpa.

As mulheres precisam compartilhar suas experiências. Porque, quando estão sozinhas, a tampa do casamento se fecha sobre elas.

Como Dominique Pelicot descobriu esse caso?

Ele suspeitava, e acabei contando. Ele bebia muito e chegou a ficar violento — algo completamente fora do caráter dele.

Ele sempre teve medo de me perder. Era quase obsessivo. Eu saí de casa, depois voltei.

Mas senti uma espécie de liberdade quando tive um amante.

Você acha que ele queria se vingar?

Essa pergunta foi feita no tribunal. Era uma forma de me tornar parcialmente responsável pelo que ele fez comigo.

Mas não acredito nessa ligação. A patologia dele é muito mais profunda do que uma crise conjugal.

Além disso, ele também teve amantes.

No livro vemos trajetórias opostas: você prospera no trabalho enquanto ele se afunda em fracassos. Você acha que ele quis dominar uma mulher que estava escapando dele?

Nunca senti isso. Para mim não havia distinção entre o que era meu e o que era dele.

Quando ele diz que eu fui o amor da vida dele, eu acredito. Mas como tratar assim a mulher que você diz amar?

Como ele conseguia me olhar nos olhos no café da manhã, sabendo o que tinha feito na noite anterior?

Algumas cenas dos estupros são aterradoras…

Como você conseguiu assistir aos vídeos?

Durante anos eu me recusei. Só os vi muito tarde. No começo, não queria que ninguém soubesse quem eu era.

Foi apenas em maio de 2024 que decidi retirar o sigilo. Minha filha já tinha sugerido isso antes, mas eu não estava pronta. Levei quatro anos.

Um dia estava caminhando na praia pensando no julgamento que viria. Disse a mim mesma: não posso enfrentar esses homens sozinha; a vergonha precisa mudar de lado.

Recusar o julgamento a portas fechadas também foi uma maneira de ajudar outras pessoas.

Como foi assistir aos vídeos?

Me isolei e assisti ao primeiro. Foi violento, mas eu não reconheci a mulher na tela. Não era eu. Era uma carcaça.

Ela estava sem vida, sem consciência.

Vi alguns daqueles homens — uma dúzia talvez. Depois precisei caminhar por duas horas. Chorei muito.

Quando voltei, disse ao meu companheiro: “Pronto, acabou. Não vamos estragar o resto do dia. Vamos almoçar.”

Durante todo o julgamento, havia uma multidão de apoiadores diante do tribunal de Avignon. Você se tornou um símbolo feminista em todo o mundo. Como vive isso?

Nunca imaginei que me tornaria um símbolo. Sou apenas uma mulher comum que foi confrontada com algo extraordinário.

Mas se minha história pode servir para abrir os olhos das pessoas sobre a violência sexual, sobre a submissão química, então fico feliz. Durante o julgamento, vi tantas mulheres nos degraus do tribunal. Elas seguravam cartazes, gritavam palavras de apoio. Aquilo me deu força.

Muitas me diziam: “Você está fazendo isso por nós.”

Na verdade, eu estava fazendo isso por mim mesma — para recuperar minha dignidade. Mas, se isso também ajudou outras mulheres, tanto melhor.

Você recebeu milhares de cartas…

Sim, de mulheres do mundo inteiro. Algumas me contaram histórias terríveis que nunca tinham ousado revelar antes. Outras simplesmente me agradeceram.

Às vezes leio essas cartas e penso: quantas histórias permanecem escondidas? Quantas mulheres vivem com esse peso sozinhas?

Isso me toca profundamente.

Depois de tudo o que aconteceu, você ainda acredita no amor?

Claro que sim. Se eu deixasse de acreditar no amor, ele teria vencido.

Hoje estou vivendo uma história muito bonita com Jean-Loup. Ele é atencioso, gentil, e me trata com um respeito imenso. Com ele, redescobri a leveza.

Mas não quero mais casamento. Já dei essa parte da minha vida. Hoje quero liberdade.

Você pensa em visitar Dominique Pelicot na prisão algum dia?

Não. Para mim, ele não existe mais.

Passei cinquenta anos da minha vida ao lado daquele homem. Tivemos três filhos, construímos uma família, compartilhamos tantos momentos.

Mas o homem que eu conhecia não existe mais — ou talvez nunca tenha existido.

Hoje, preciso seguir em frente.

O que você diria às mulheres que passam por situações de violência ou abuso?

Que elas não devem sentir vergonha. A vergonha deve mudar de lado.

É difícil falar, eu sei. Levei anos para compreender o que tinha acontecido comigo. Mas o silêncio protege os agressores.

Se minha história pode ajudar outras mulheres a romper esse silêncio, então todo esse sofrimento não terá sido em vão.

Como você imagina o futuro?

Quero viver. Simplesmente viver.

Passear, rir, passar tempo com meus filhos e meus netos. Viajar talvez. Ler, ouvir música, olhar o mar.

Depois de tudo o que aconteceu, percebo ainda mais o valor das pequenas coisas.

E, acima de tudo, quero continuar escolhendo a alegria de viver.

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