Fernando Young conta histórias por trás de “Curucucu divino”

Série de imagens deu origem à exposição e ao livro homônimo do fotógrafo, conhecido por retratos de Gilberto Gil a Marisa Monte.


Fotografia de Fernando Young
Foto: Fernando Young



Fernando Young é conhecido por retratos de personalidades como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Fernanda Montenegro. Mas foi fotografando anônimos mascarados que ele desenvolveu seu projeto mais pessoal, o Curucucu divino.

Há dois anos, ele passou a registrar as Cavalhadas, batalhas encenadas na Festa do Divino Espírito Santo, em Pirenópolis (GO), introduzidas na cidade goiana por colonizadores portugueses. A manifestação é uma representação folclórica das lutas entre mouros e cristãos na Península Ibérica entre os séculos 8 e 15. Há um terceiro grupo, os cucurucus, mascarados, que animam o público. Durante três dias, cerca de mil pessoas mascaradas desfilam pelas ruas de Pirenópolis, montadas em cavalos. 

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A capa de Abraçaço (2012), de Caetano Veloso, fotografada por Fernando Young Foto: Fernando Young



“A primeira vez que vi essas imagens foi em 2004 e demorei anos para conseguir ir para Pirenópolis, em 2024. Fiquei completamente encantado que aquilo estava ali ainda, acontecendo ano após ano, e pela maneira como as fantasias são as mesmas há 230 anos”, conta Fernando à ELLE. 

O projeto resultou em cerca de 300 imagens, que deram origem a uma exposição com 44 delas, Curucucu divino, em exibição no Rio de Janeiro, além de um livro homônimo. A série fotográfica é dividida em três atos: I, composto por fotografias em que predominam o céu azul; II, com imagens tiradas à noite; III, com registros que têm como fundo uma grande lona montada no estacionamento da festa.

Fernando conta à ELLE as histórias por trás de três imagens de Curucucu divino:

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Foto: Fernando Young



“Tenho uma relação especial com essa foto porque ela tem uma força enorme por conta do céu do Cerrado, que é inacreditável. Quem já teve a oportunidade de ir a Goiás ou a Brasília sabe que as cores são impressionantes e parece que a presença das nuvens é tridimensional. Esse cavalo passou por mim a uma velocidade absurda. É muito potente ver um cavalo cavalgando. O fato de ele estar sem foco parece um acontecimento aleatório, como se tivesse sido sorte do destino, e a presença dele se torna mais textura do que forma. Adoro o corte, em que não se vê o cavalo inteiro, a pessoa inteira. Fica a sensação de que ela está cavalgando e, ao mesmo tempo, voando. Essa imagem está em destaque na galeria, a gente fez uma ampliação muito grande.”

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Foto: Fernando Young



“Já era entardecer, quase noite. Por isso, essa imagem tem flash, o que faz com que as coisas acendam, mas não todas, só aquelas em primeiro plano. É muito impressionante porque você não sabe se os mascarados são mulheres, homens, se são pessoas mais velhas, se são crianças com atitude de adulto. Mas você percebe que alguns dos mascarados são crianças. Pirenópolis é uma cidade onde elas crescem sonhando em um dia estar juntos com seus pais fantasiados e mascarados numa Festa do Divino. É um grande desejo de qualquer jovem e um grande rito de passagem, quando chega o ano em que um pai autoriza o filho a sair fantasiado e mascarado. E essa imagem revela um pouco disso. É uma foto roubada e dá para ver que eles estão se divertindo nesse momento, ainda esperando que o Cavalhódromo seja aberto.”

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Foto: Fernando Young



“Mais uma vez, é uma criança. A lona foi montada do lado de fora do Cavalhódromo. As pessoas ficavam muito curiosas e às vezes formavam filas para poder entrar. Me encantei por essa imagem porque, além da questão cromática, da máscara rosa com a calça azul, há uma delicadeza tremenda nessa posição da perna dele, o gesto da mão e, ao mesmo tempo, dá para ver uma confidência entre ele e o cavalo que está ali, superelegante, aguardando.” 

Curucucu divino: Galeria Gávea (rua Marquês de São Vicente, 432, Gávea, Rio de Janeiro, tel. 21 2274-5200). Visitação de segunda a sexta, das 11h às 19h. Até 29 de maio. O livro está à venda na galeria.

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