Jane Fonda: “Empoderamento é algo profundo e pessoal”
Aos 88 anos, a atriz e embaixadora global da L’Oréal Paris reflete sobre ativismo, autoestima, etarismo e representatividade feminina em Hollywood.
Atriz, ativista, escritora, produtora e uma das vozes femininas mais influentes de Hollywood, Jane Fonda atravessa décadas reinventando não apenas a própria carreira, mas também o significado de envelhecer sob os holofotes. Com 88 anos, ela construiu uma trajetória rara na indústria: venceu dois Oscars, acumulou clássicos do cinema dos anos 1960 e 1970, transformou vídeos de ginástica em um fenômeno cultural nos anos 1980, e, mais recentemente, conquistou uma nova geração ao protagonizar a série Grace e Frankie (2016 – 2022), comédia de sucesso da Netflix sobre amizade, envelhecimento e liberdade feminina.
Paralelamente, se consolidou como uma das celebridades internacionais mais politicamente engajadas. Desde os anos 1970, a artista usa sua visibilidade para defender causas sociais, como direitos das mulheres, justiça racial e direitos LGBTQIAP+. Em 2022, ela também lançou o Jane Fonda Climate PAC, organização focada em eleger políticos comprometidos com políticas ambientais e independentes da indústria dos combustíveis fósseis.
Ao longo da carreira, ela também transformou o próprio envelhecimento em discurso político. Em livros, entrevistas e projetos recentes, a atriz fala abertamente sobre etarismo, autoestima, feminismo e a dificuldade de encontrar papéis complexos para mulheres mais velhas em Hollywood – um tema que aparece novamente em The correspondent, seu próximo filme, ainda sem previsão de lançamento.
Essa trajetória ajuda a explicar porque Jane Fonda é, há mais de duas décadas, embaixadora global da L’Oréal Paris. A atriz se tornou um dos principais rostos da campanha “Porque você vale muito”, que conecta beleza, autoestima e empoderamento feminino. Ela também participa ativamente do Lights on Women’s Worth, iniciativa criada pela marca para destacar e apoiar cineastas mulheres durante o Festival de Cannes. O programa premia diretoras de curtas-metragens e busca ampliar a visibilidade de mulheres atrás das câmeras – uma pauta que a atriz defende há décadas dentro da indústria audiovisual.
Foi justamente no dia seguinte à edição de 2026 da premiação que conversamos com a artista. Na entrevista, ela fala sobre envelhecimento, feminismo, confiança, representatividade no cinema e o que espera para o futuro das mulheres.
L’Oréal Paris há muito tempo posiciona sua mensagem em torno do valor e do empoderamento das mulheres. O que isso significa para você neste momento da sua vida e da sua carreira?
Significa muito para mim, porque empoderar mulheres e ter mulheres em posições de liderança pode ser a solução para os problemas do mundo. Nós fizemos tanto progresso desde quando eu era menina. E acho que foi justamente esse progresso que causou a reação contrária. Porque as mulheres, assim como pessoas gays, trans, lésbicas, negras e racializadas, conquistaram muitos avanços. E as forças conservadoras, como uma fera ferida, estão reagindo agora tentando tirar isso de nós. Por isso, acho realmente importante incentivar o empoderamento feminino.
E qual você acredita ser o papel de uma marca ou de uma instituição nesse processo de empoderamento?
Eu me tornei feminista independentemente da L’Oréal. Mas trabalhar com a L’Oréal todos esses anos me deu muita confiança. Quando comecei, eu pensava: “Por que eles estão me contratando? Eu não sou modelo, não sei fazer isso.” E o fato de eu ainda estar aqui me dá confiança.
Qual é a sua ideia de beleza?
Eu vivi oito ou nove anos na França, no fim dos meus 20 e começo dos 30 anos, e as francesas não têm medo de envelhecer. Elas têm uma elegância e, de certa forma, uma beleza empoderada. Elas entram na idade com tanta confiança, força e aceitação… isso teve um grande efeito sobre mim. E eu passei a acreditar que a beleza não vem da perfeição, mas do que existe dentro de você. Tudo muda se você se sente confiante. As francesas parecem muito confiantes em si mesmas, e as brasileiras também. Eu observo as mulheres nas praias de Ipanema, por exemplo, e existe uma sensualidade muito própria e muito forte. Então acho que esse tipo de confiança é mais importante do que a perfeição dos traços.
Quando falamos sobre empoderamento, normalmente pensamos em algo muito público. Mas, ouvindo você falar, parece também algo íntimo e pessoal. Nos dias em que você não está se sentindo tão confiante, o que faz para se sentir melhor?
Nada. (risos) Eu apenas durmo bem e no dia seguinte me sinto diferente. E eu realmente não acho que o empoderamento seja algo público. Empoderamento é algo pronfudo e pessoal pessoal – ou, então, não é empoderamento de verdade. Eu me sinto empoderada por razões que não têm a ver com maquiagem ou produtos de cabelo. Tem a ver com o que aconteceu dentro de mim.

Jane Fonda na última edição do Lights on Women’s Worth, de L’Oréal Paris. Foto: Divulgação
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Você é uma inspiração para mulheres de todas as idades. O que gostaria que mulheres jovens, que ainda estão encontrando suas vozes, ouvissem de você agora?
Primeiro, eu sempre digo aos jovens: é muito difícil ser jovem em qualquer época da história. Mas, especialmente agora, com as redes sociais, porque você está vendo a vida de todo mundo o tempo inteiro, de forma muito pessoal. E aí pensa: “Eu não sou tão boa quanto ela”, “não sou tão sexy”, “não sou tão interessante”. É muito difícil ser jovem. Tudo gira em torno de não saber quem você deve ser, o que precisa fazer para ter sucesso, quem precisa conhecer… É especialmente difícil para as meninas, porque existe muita pressão para agir de determinada maneira e ter determinada aparência. Quando você envelhece, fica mais fácil – assumindo que você tenha saúde. Você passa a saber quem é. Então eu digo: “Calma que melhora! Fica mais fácil, não desistam”. Se alguém tivesse me dito, quando eu tinha pouco mais de 20 anos, que um dia eu seria considerada uma mulher poderosa, esclarecida e empoderada, eu teria dito: “Você está louco”. Se me dissessem que eu trabalharia para a L’Oréal Paris por 20 anos, eu diria: “Impossível, você enlouqueceu”. Mas eu trabalhei muito em mim mesma. Estudei, li, fiz terapia, meditei. Fiz o que precisava fazer para descobrir quem eu sou, o que quero fazer da minha vida e no que quero transformá-la. Nada disso simplesmente aconteceu. Eu trabalhei para isso.
O que você espera para o futuro das mulheres?
Eu não faço ideia. Mas sei que precisamos eleger mais mulheres para cargos públicos. Mulheres feministas, especificamente. Aí começaremos realmente a resolver nossos problemas. Porque feminismo significa empatia, amor e disposição para compreender o outro apesar das diferenças. Eu tenho um PAC político – um comitê de ação política – e nós também elegemos defensores do clima, porque a crise climática é uma das crises existenciais que enfrentamos. Essas pessoas não recebem dinheiro das empresas de petróleo ou petroquímicas. Elas vão realmente trabalhar pelas pessoas, e não pelas corporações. Quando elegermos pessoas assim em número suficiente, começaremos de fato a resolver os problemas.
É muito importante ter vozes femininas também no cinema. Por que é tão crucial investir no talento feminino atrás e na frente das câmeras?
Porque a forma como nós vemos o mundo e vivemos o mundo é muito diferente da forma como os homens vivem. E se não contarmos histórias do nosso ponto de vista, com a nossa visão, se não for isso que as mulheres da plateia enxergam naquela grande tela do cinema, então, mesmo sem perceber conscientemente, elas vão se sentir invisíveis, incompreendidas. É por isso que os filmes são tão importantes. As histórias que contamos precisam ajudar as pessoas a sentir e amar apesar das diferenças. Nós fazemos as coisas de maneira diferente e isso precisa ser mostrado para que todos possam ver. Nenhum homem faria filmes da maneira que Chloé Zhao faz, por exemplo. Ou Jane Campion e tantas outras diretoras.
Como o Lights on Women’s Worth, de L’Oréal Paris, contribui para isso?
Ainda não existem mulheres suficientes dirigindo. Precisamos de mais. O fato de a L’Oréal dar uma oportunidade – porque hoje ainda é muito, muito, muito difícil para uma mulher se tornar diretora – e chamar atenção para essas mulheres é extremamente importante. Acho que esse programa é tão importante para a L’Oréal quanto o slogan “Porque você vale muito”.
Para encerrar, queria falar sobre o seu próximo projeto, The correspondent. O que te intrigou nessa história?
Você deveria ver os roteiros que eu recebo. (risos) Existem basicamente três versões diferentes de “mulher velha” e todas são muito estereotipadas e entediantes. Então, finalmente apareceu uma história que mostra uma mulher mais velha em toda a sua complexidade, sutileza e contradições. Claro que eu quis fazer. É a oportunidade de uma vida. Sinto que nasci para interpretar essa personagem.
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