Lela Brandão encontra na vulnerabilidade um caminho para a conexão
No lançamento de Vertigem, seu primeiro livro, a influenciadora e criadora do podcast “Gostosas também choram” fala sobre a potência de transformar experiências íntimas em reflexões coletivas.
Ouvir Lela Brandão falar sobre qualquer coisa é, antes de tudo, sentir-se menos sozinha. Essa é uma experiência compartilhada pelas milhares de mulheres que acompanham semanalmente o podcast Gostosas também choram, espaço onde questões que costumam ser vividas de forma solitária são abordadas com uma profundidade rara na lógica acelerada das redes sociais. Ao longo dos episódios, Lela transformou a vulnerabilidade em uma ferramenta de conexão, construindo uma comunidade que encontra, em suas palavras, acolhimento.
É essa mesma sensibilidade que atravessa Vertigem, seu primeiro livro, que acaba de ser lançado pela editora Sextante. Partindo de experiências íntimas, a influenciadora, podcaster e, agora, escritora, constrói uma narrativa sobre temas que marcam a vida de uma geração de mulheres, como ansiedade, hiperconectividade, exaustão e a tentativa constante de voltar para si mesma. Ela faz em seu livro aquilo que se tornou sua marca registrada: transforma experiências individuais em reflexões coletivas.
Nós conversamos com Lela no dia do lançamento de Vertigem (16.06), em seu novo escritório. Entre recomendações de livros, histórias sobre a avó Clara e reflexões sobre descanso, a autora falou sobre o processo de escrita de sua estreia literária.

Foto: Bianca Souza
Você já compartilha reflexões há anos no podcast e nas redes sociais. Em que momento percebeu que essas ideias precisavam virar um livro?
Geralmente, as pessoas têm uma ideia de livro, desenvolvem o projeto e vão atrás de viabilizá-lo. Comigo foi o oposto. Por conta do podcast, as editoras vieram atrás de mim. Se você quer um público qualificado, com uma tolerância e uma atenção maiores do que os que normalmente existem nas redes sociais, você vai atrás de quem ouve podcast, que é um formato mais longo, com menos interferências. E, no meu, sou eu falando sozinha! (risos) Então a pessoa precisa ter uma atenção maior para acompanhar. Comecei a ter conversas muito gostosas com várias editoras. Imagina, que sonho! Acabei escolhendo a Sextante porque eles falaram muito sobre o cuidado com o texto. E essa era uma insegurança muito grande minha. É muito fácil uma plataforma enxergar uma oportunidade de se aproveitar da sua audiência e vender qualquer coisa só por vender. Eu não gosto de fazer isso em nenhum campo do meu trabalho. Quando a editora falou sobre a atenção que dedica ao texto e sobre como nunca lançaria algo que não considerasse bom o suficiente, me senti mais segura para seguir com eles. A partir daí, pensei: “Tá, então vou escrever um livro. Mas sobre o quê?”. Só depois de um tempo escrevendo percebi que era sobre a minha jornada, desde as crises de pânico até o caminho que encontrei para sair disso.
No podcast, você trabalha num formato mais livre, mais próximo da conversa. Como foi adaptar seu pensamento para a escrita longa, que exige outro tipo de arquitetura?
Muito desafiador. Acho que foi o maior desafio que eu já tive. Eu trabalho com comunicação há doze anos, mas é tudo muito espontâneo. O podcast tem um roteiro, mas não é exatamente um roteiro. Nas vezes que escrevi roteiros completos de episódios, eles não ficaram legais, porque o que funciona no podcast é a espontaneidade. É você abrir um parêntese e não fechar depois, fazer uma piada, errar uma palavra e brincar com isso. No livro não existe necessariamente espaço para esse tipo de coisa. Quando você passa de uma forma de comunicação para outra, existe o desafio de encontrar a sua voz naquele novo formato. Para mim foi muito difícil porque, no começo, eu escrevia de um jeito muito formal. Eu lia e pensava: “Gente, quem está escrevendo isso? Não sou eu!”. Então tive que refazer. Eu reescrevi muitas vezes o começo do livro, até entender qual era a minha voz. E acho que encontrei uma voz que não é exatamente a mesma do podcast. Porque o livro, por ser texto, exige começo, meio e fim. Precisa parar em pé. Se você cita uma referência, precisa trazer a referência corretamente. Existe um formato. No podcast eu falo: “Ah, um homem falou não sei o quê…”. (risos) No livro não dá. Foi um processo bastante desafiador, mas também um aprendizado enorme. Essa experiência me transformou completamente.
Onde esse livro foi escrito? Existe um lugar físico que você associa a ele?
Escrevi todas as páginas no meu quarto. Meu quarto tem uma dinâmica diferente: tem a parte da cama e uma porta que pode ficar aberta ou fechada, funcionando como uma parede. E atrás dela fica o meu escritório, onde eu gravo o podcast. É um espaço bem pequeno. Todo mundo fala que trabalhar dentro do quarto é difícil, mas eu trabalho há muitos anos assim. Agora estou fazendo uma transição para um escritório novo, mas vou manter esse espaço dentro do quarto porque acho que existe algo de mágico nele. Sabe aquela memória de infância de ter papéis espalhados, farelo de borracha, livros abertos, desenhando até uma da manhã com a porta fechada? Eu cresci assim. Eu me constituí assim. Por muito tempo eu não tive uma escrivaninha dentro do quarto. Quando me mudei para essa casa, pensei: “Acho que quero minha escrivaninha de volta”. Porque é um lugar onde você se conecta muito consigo mesma, sem interferência externa. Então todas as palavras do livro foram escritas no meu quarto. Eu não consegui escrever em nenhum outro lugar.
Como era sua rotina de escrita? Você escreveu de forma disciplinada ou foi um processo mais fragmentado?
Eu demorei muito para entender o meu ritmo. Estou acostumada com conteúdo digital: gravo uma coisa hoje e ela está pronta amanhã. Com o livro, foi diferente. Demorei dois anos e meio para escrever. E parte dessa demora aconteceu porque eu precisei descobrir como encaixar a escrita dentro de uma rotina já ocupada por muitas outras frentes de trabalho. No começo, decidi que escreveria toda sexta-feira à tarde. Pior ideia da minha vida! Porque todas as urgências da semana se acumulam para esse momento. Sempre vai existir algo mais urgente do que um livro que ainda nem existe. Eu fiquei quase um ano tentando e pensando: “Não consigo sair dessas primeiras 20 ou 30 páginas”. Eu falava para a editora: “Gente, me ajuda!”. E eles respondiam: “Ainda não existe material suficiente para a gente ajudar”. (risos) Conversei muito com amigas, especialmente a Marcela Ceribelli [também escritora e podcaster], que escreveu o prefácio. Ela me disse uma coisa muito importante: “Esse livro vai ser importante para todas as suas frentes de trabalho. Você não pode tratar ele como um projetinho. Ele também é trabalho”. E outra coisa que ela falou foi: “Você precisa de mais tempo para entrar no fluxo da escrita”. Aquilo virou uma chave. A partir daí comecei a bloquear semanas inteiras para escrever. Para o desespero da minha equipe! (risos) E aí a produtividade mudou completamente, porque você realmente entra no fluxo. Por indicação da Marcela, também conheci a Ana Holanda, uma mentora de escrita maravilhosa. Nós nos encontrávamos uma vez por mês e ela lia tudo que eu tinha produzido e comentava. Simples assim. Mas isso me obrigava a ter alguma coisa para mostrar. Porque, se eu não escrevesse nada, chegaria ao encontro sem material. Foram vários truques que precisei aprender para conseguir produzir esse projeto novo.

Foto: Bianca Souza
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Agora falando sobre o livro em si: a gente sempre começa pela dedicatória. Você dedica o seu à sua avó Clara. Quem é ela para você?
Nossa, ela fica emocionada toda vez que eu falo dela. A minha avó é muito, muito importante para mim, para a minha constituição como pessoa. Ela é mãe da minha mãe e tem origem armênia. Muitas das minhas tradições e coisas que me constituem vêm dessa parte da família. Ela é uma das últimas pessoas que eu tenho por perto que não tem contato com essa loucura que a gente vive de internet e redes sociais. Até porque ela não enxerga direito. Eu até conto isso no livro: ela não participa do grupo da família no WhatsApp porque não consegue ler. É muito mágico para mim ver o mundo através do ponto de vista dela. É uma pessoa que não está infectada por essa loucura em que a gente vive e, ainda assim, cria vínculos tão fortes. Ela perdeu o marido muito cedo e, mesmo assim, continua tendo uma fome de vida muito grande. Para mim, a dedicatória é uma das coisas mais especiais que existem em um livro. Por isso, o livro foi totalmente escrito para ela. Ela fala: “Eu não acredito que tenho 92 anos e estou vivendo isso”. Inclusive, a gente decidiu gravar um audiolivro, porque eu escrevi um livro para uma pessoa que não consegue enxergar. Ele ainda não foi lançado, mas todos os dias ela pede para ouvir.
A quantidade de detalhes nas histórias é algo que me surpreendeu. Você é uma pessoa que registra muito a própria vida? Mantém diários, notas de celular, cadernos?
Eu tenho um bilhão de cadernos. Tem uma estante onde eu gravo o podcast e uma parte dela é só de cadernos. Eu tenho registros desde os 18 anos, então, eu tenho muita coisa guardada. Mas a minha memória também é muito sensorial. Parte de contar essas histórias vem da forma como eu experiencio o mundo, que é muito física. E eu gosto muito de encontrar a palavra exata para traduzir uma sensação. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer e eu realmente invisto tempo nisso, para que quem está lendo se sinta dentro delas.
Em Vertigem, você trabalha com uma escrita muito confessional. Como foi para você decidir o que entrava e o que ficava de fora?
Esse é um dilema do meu trabalho desde sempre, porque eu falo por uma hora, sem interrupções, toda semana para milhares de pessoas. E isso fica registrado para quem quiser voltar lá e ouvir. Então, eu desenvolvi uma divisão muito clara na minha cabeça sobre o que cabe e o que não cabe falar. O que eu escolho compartilhar é aquilo que eu sinto que tem potencial transformador para outras pessoas e aquilo que não é extremamente individual. Eu não vou contar uma história que só aconteceu comigo e que não conversa com mais ninguém, porque esse não é o propósito da minha comunicação. O meu objetivo é pegar uma coisa que estamos vivendo individualmente e transformá-la em algo coletivo. Ao longo desses três anos de podcast, eu também aprendi a encontrar força na vulnerabilidade. A gente foi ensinada a entender vulnerabilidade como fraqueza. Hoje eu tenho muita clareza de que é justamente na vulnerabilidade que eu encontro a minha força. Acontece muito de eu gravar um episódio e pensar: “Será que eu posto isso?”. E aí alguém da equipe fala: “Posta”. E, invariavelmente, esse acaba sendo o episódio preferido das ouvintes. Então, eu já estou um pouco calejada com isso.
Como é para você ocupar esse lugar?
Para mim é muito acolhedor. Quando alguém chega e fala: “Nossa, eu também passei por isso”, eu sinto um alívio. Penso: “Ufa, não sou só eu”. Esse é o poder da vulnerabilidade para mim. Você tira de dentro de si uma coisa que talvez te gere medo, vergonha, insegurança ou inadequação. Você oferece isso ao público como um presente. O presente é: “Vocês não estão sozinhas. Eu também passo por isso”. E o público devolve imediatamente outro presente, que é a conexão. A conexão que elas sentem com você. Isso é viciante para mim. É o que move todas as frentes do meu trabalho.
Qual é a maior diferença entre a Lela que produz conteúdo e a Lela que escreve?
Acho que é exatamente a mesma pessoa. A diferença é que a Lela que escreve precisou desenvolver uma certa paciência que a Lela que cria conteúdo não tinha. (risos) Eu sou formada em arquitetura e não segui carreira porque não conseguia conceber a ideia do tempo que demora para alguma coisa ficar de pé. Uma casa demora três anos para ficar pronta. Para mim, era impraticável. E aí essa mesma pessoa foi lá e escreveu um livro que demorou dois anos e meio para existir. Então, precisei praticar muita paciência. Mas isso acabou servindo também para a Lela que produz conteúdo.

Foto: Bianca Souza
Existe algo que você nunca disse em um vídeo ou no podcast, mas conseguiu escrever?
Acho que sim. No livro, por eu confiar que as pessoas que estão lendo estão dedicando um tempo e uma energia que provavelmente não dedicariam se estivessem movidas pelo ódio – coisa que acontece muito na internet –, eu me senti mais à vontade para falar sobre uma contradição que sempre esteve presente na minha vida. Que é justamente a contradição entre as críticas que eu faço às redes sociais e o fato de eu também ser uma influenciadora. Eu falo bastante sobre isso na primeira parte do livro. Foi engraçado porque, quando algumas pessoas leram, elas falaram: “Nossa, agora eu entendi”. Porque essa sempre foi uma dúvida recorrente: “Por que você fala tanto sobre ficar offline, mas continua sendo influenciadora?”. No livro eu senti que tinha espaço para desenvolver essa questão com mais profundidade.
Um dos temas mais presentes no livro é o corpo. Como essa ideia foi construída?
Eu não sabia que terminaria o livro naquele lugar. Os assuntos foram me puxando, um levando ao outro, até que chegou um momento em que eu escrevia sobre como o corpo não participa das redes sociais e desses mundos sobrepostos que a gente criou. E foi a Ana Holanda quem me disse: “Acho que você tocou num ponto muito importante”. Na hora, acendeu uma lâmpada na minha cabeça: “Meu Deus, é o corpo!” E aí eu mergulhei completamente nesse tema. Revisitei esse lugar que é tão dolorido para todas as mulheres, cada uma à sua maneira. Fui buscar referências na literatura, especialmente a Roxane Gay e a Melissa Febos, que falam dos próprios processos de uma forma tão individual e, ao mesmo tempo, tão coletiva. Eu me inspirei muito nelas para escrever essa parte. Hoje eu não consigo ler o último trecho do livro sem chorar. Eu leio e penso: “Nossa, mas foi exatamente isso que eu vivi”. E aí lembro: “Ah, é, fui eu que escrevi”. (risos) Tem alguma coisa muito bonita em tirar uma experiência dolorosa de dentro de si e transformá-la em texto. É uma forma de expurgar. De olhar para aquilo que aconteceu e dar outro significado para a experiência.
Você também fala sobre descanso e sobre essa sensação de que, enquanto houver tempo, haverá trabalho. Mas hoje você acumula muitos papéis: marca, redes sociais, podcast, eventos e, agora, o livro. Como você constrói limites na prática?
Estudei bastante sobre descanso. E uma das coisas que eu entendi é que eu não posso deixar o descanso para apenas um momento específico do ano. Não pode ser uma coisa do tipo: “Vou descansar só no recesso” ou “Vou descansar só nas férias”. Eu percebi que precisava estruturar a minha rotina de um jeito em que o descanso coubesse no cotidiano. Hoje a minha rotina é organizada para que isso aconteça. E isso é um privilégio enorme! Mas, já que eu tenho esse privilégio, escolho usar ele justamente para estabelecer limites muito claros. Eu não sou aquela empresária que fica trabalhando até onze e meia da noite e depois fala “no pain, no gain”. Eu preciso fazer as minhas coisas. Preciso treinar três vezes por semana, fazer terapia, fisioterapia. Eu tenho fibromialgia, que é uma condição que me avisa quando estou passando dos meus limites. Hoje eu consigo perceber mais cedo quando preciso parar, quando estou ultrapassando os meus limites e quando preciso recalcular a rota. Às vezes vou pesar a mão, porque tenho muitos projetos. Mas isso significa que depois eu vou compensar com descanso. É um equilíbrio constante.
Qual é o seu dia offline perfeito?
Fico offline todo sábado e todo sábado para mim é perfeito. (risos) Eu acordo e nem pego o celular, deixo ele carregando no quarto. Faço café na minha máquina – que é uma obsessão minha –, assisto um pouco de televisão, saio com os cachorros. Almoço com calma. Não faço nada extraordinário. Leio um livro, arrumo uma gaveta, ligo para a minha avó. Aliás, os dias offline costumam ser os dias em que eu mais consigo falar com ela. Ou então vou encontrá-la para tomar um café. São coisas muito simples. Mas são exatamente essas coisas que restauram a minha alma.
O que você anda lendo que te inspira?
Estou lendo Socorro Acioli, minha nova obsessão. Eu li Cabeça do santo e fiquei apaixonada. Eu nunca tinha lido nada de realismo mágico. Na verdade, acho que já tinha lido coisas que poderiam entrar nessa categoria, mas nunca tinha pensado nelas dessa forma. Depois, ouvi um podcast com ela e fiquei apaixonada pela história dela, que é maravilhosa. Agora estou lendo Oração para desaparecer.
Se a Lela que começou a escrever Vertigem pudesse ler o livro hoje, o que mais a surpreenderia?
Primeiro ela ia ficar puta que eu mudei todo o começo. Ela ia falar: “Todo esse trabalho jogado no chão?”. (risos) Mas, depois, acho que ela ia falar: “Caramba, amor, deu conta, hein?”. Porque a página em branco assusta pra caramba. E escrever um livro é uma coisa muito maluca. Eu falava: “Gente, eu faço, faço, faço. Escrevo, escrevo, escrevo. E nunca chego lá”. Parecia uma linha de chegada que ficava se movimentando. Existia essa sensação constante de estar trabalhando muito e nunca conseguir enxergar o fim. Então, ver ele pronto, com começo, meio e fim, acho que daria para ela um sossego. Ela daria um grande suspiro de alívio: “Ufa! Uma hora você vai achar o caminho”.
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