Era 1977 e Celso Kamura trabalhava em um escritório de contabilidade na Zona Sul de São Paulo. “A bichinha era pobre”, brinca hoje. Um amigo e vizinho, que tinha um salão no Ipiranga, precisou substituir um profissional e lembrou que Celso maquiava as irmãs e amigas. “Vai lá, faz um teste”, sugeriu. O adolescente nunca tinha entrado num salão grande de verdade. Não sabia o que estava fazendo ali. Mas, quando abriu a porta, soube imediatamente que, daquele ambiente, não sairia mais.

“Quando eu vi aquela bicharada, todas felizes sendo quem eram, eu logo falei ‘quero uma jaula nesse zoológico!’”, relembra. O patrão anterior chegou a lhe oferecer o dobro do salário para ele ficar mais um ano no escritório. Celso recusou e foi, como bem definiu, ser feliz – hoje chega aos 50 anos de carreira como um dos nomes mais respeitados da beleza brasileira.

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Celso Kamura para o volume 24 da ELLE Brasil. Foto: Pablo Saborido

A escolha da palavra zoológico não é à toa. Ela carrega a memória de um tempo em que determinados corpos só podiam existir em cercados específicos, tolerados enquanto contidos; muito mais do que são hoje. O salão de beleza foi, durante décadas, um desses cercados. Mas foi também, paradoxalmente, o espaço onde muitas dessas pessoas encontraram proteção, comunidade e um senso de identidade. Um território que o mundo entregou às margens – e que elas transformaram em lar.

Brunno Almeida Maia, pesquisador pela USP, explica que a origem do salão como espaço feminino – e, por extensão, espaço para corpos dissidentes – não é coincidência, mas consequência direta da organização patriarcal. “A sociedade burguesa consolidou essa ideia de que o homem era aquele que ocupava o espaço público, o mundo dos negócios e da política. Ao passo que a mulher é aquela que fica confinada à esfera privada, à esfera doméstica”, explica. O marido ou o tutor permitiam que as mulheres frequentassem o salão de beleza e as lojas de moda porque acreditavam, com notório desprezo, que eram “espaços de mulherzinha”. 

O que não previram é que essa condescendência teria desdobramentos. “O salão é um espaço que não foi pensado com um caráter subversivo, mas que, dada a convivência, a proximidade entre as mulheres, acabou se consolidando como um lugar de troca afetiva, de memória e constituição de identidade – tudo o que elas não tinham nos ambientes fora dali”, continua o especialista.

A historiadora Michelle Perrot, citada por Brunno, trabalha com o conceito de “brechas” – espaços que, mesmo em uma sociedade que interditava a vida pública das mulheres, subvertiam essa ordem. O salão era um desses lugares. E, por ser marcado ao feminino, por carregar o imaginário do “passivo”, do sedentário, do sensível, atraiu também aqueles que a sociedade havia empurrado para longe: homossexuais, travestis, transexuais, todos os corpos que não se encaixavam na lógica dominante. No Brasil, esse movimento se misturou à história de perseguição e busca de pertencimento de uma geração que não tinha onde colocar o próprio corpo sem que ele fosse violado ou expulso.

Preconceito em números

Para entender o peso dessa história, é preciso olhar para o que o mercado de trabalho oferecia – e ainda oferece, apesar dos avanços – a quem desvia da norma. Os números são duros. Uma pesquisa da Fapesp, de 2020, indica que apenas 13,9% das mulheres trans e travestis entrevistadas tinham emprego formal. A taxa de desemprego entre pessoas LGBTQIA+ é de 20%, contra 12% da população em geral. E 72% das pessoas trans já foram demitidas após assumirem sua identidade de gênero, segundo levantamento da Rede Trans Brasil.

Enquanto isso, o Brasil possui hoje mais de 1,3 milhão de salões de beleza em atividade. Presente em 100% dos municípios do país, segundo o Sebrae, é o segundo setor com maior número de empresas ativas em todo o território nacional. Em 2025, mais de 236 mil novos negócios do setor se formalizaram – uma média de 646 estabelecimentos por dia. O Brasil é o terceiro maior consumidor de beleza do mundo, atrás apenas dos EUA e da China: um mercado que movimenta centenas de bilhões de reais ao ano.

“O salão é um espaço que não foi pensado com um caráter subversivo, mas que, dada a convivência, a proximidade entre as mulheres, acabou se consolidando como um lugar de troca afetiva, de memória e constituição de identidade”
Brunno Almeida Maia

A equação pode ser tão simples quanto brutal. De um lado, uma indústria que não para de crescer, distribuída por todo o país, acessível e capilarizada. Do outro, uma parcela da população com taxas de emprego formal que chegam a 14%. O salão de beleza, historicamente e ainda hoje, não é apenas acolhedor. É, para muita gente, a única porta aberta.

“Era o que sobrava para a bicha fazer”, relembra Ricardo dos Anjos, beauty artist com 45 anos de carreira. “É bicha? Quer ser bicha e não vai se podar, não vai ficar dentro do armário? Então vem trabalhar aqui no salão, vem trabalhar com beleza.” 

Ricardo lembra de nomes que fizeram história. Como Ruddy Pinho, também conhecida como “A Maravilhosa”, transexual mineira que chegou a ter um dos salões de beleza mais disputados de Ipanema e morreu aos 77 anos. Ou Camille K, travesti penteadista que fazia o cabelo da socialite Carmen Mayrink Veiga. “Eram meninas que já estavam num círculo de possibilidades muito diferente da grande maioria”, diz. “Eram exceção.”

A carreira de Ricardo decolou nos anos 2000, quando desembarcou em São Paulo e virou figura no universo dos desfiles da SPFW, mas sua trajetória começou aos 14 anos, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, onde foi criado pelas avós. E foi exatamente a avó do lado materno que deu o start na carreira. 

“Eu sempre quis trabalhar, carregava esse sonho de me virar desde cedo. Já tinha tentado padaria, oficina, tudo o que você pode imaginar. Até que ela me pegou pela mão e falou: ‘Você está procurando no lugar errado’”, conta. O primeiro emprego foi com um cabeleireiro que cuidava da família, cheia de mulheres. No começo, o garoto ganhou uma vassoura para varrer o salão. Na segunda semana, já estava com um pote de tintura na mão, bem metido, testando no cabelo da faxineira do espaço. O chefe matriculou-o no Senac – e descontou a mensalidade do salário.

Ricardo não era apenas jovem demais para o que fazia. Era extremamente feminino – “praticamente uma travesti”, como ele descreve – numa época e lugar em que isso tinha custo físico direto. “Tomei várias surras, porque o Rio de Janeiro era babado.” Dentro do salão, as gays mais velhas funcionavam como uma rede de proteção informal. “Uma ensinava a outra. Me atentavam que no salão é uma coisa, mas na rua é diferente. Falavam para que trouxesse casaco extra para não voltar para casa tão ‘pintosa.” 

A proteção tinha um perímetro bem definido, delimitando o poder simbólico desse refúgio da beleza. Da porta para dentro, havia acolhimento. Da porta para fora, risco. Fora do salão, para as travestis da sua geração, restava trabalhar na noite. Ele mesmo fez isso durante anos – shows em boates como drag queen na noite carioca. E por um tempo andou de roupa feminina 24 horas por dia. Até que um amigo, com quem dividia a casa, foi assassinado. No dia seguinte, Ricardo cortou o cabelo. Voltou a ser, publicamente, um garoto – e começou a procurar emprego fora da Baixada Fluminense.

“Passei a ter oportunidades que eu não tinha como travesti”, diz. Ele guarda essa história sem amargura, mas com a precisão de quem sabe exatamente o que ela significa. A rede informal que existia no salão – de cuidado prático, de transmissão de conhecimento e de sobrevivência – tinha limites que o mundo externo lembrava com violência.

Ambiente protegido

A curitibana Melissa Schlukebier foi a primeira mulher trans a ganhar um reality show no país – o The Cut Brasil, transmitido pela HBO em 2021. Hoje, é embaixadora da Truss. Mas sua carreira na beleza começou exatamente por causa da necessidade de proteção durante a sua transição de gênero. “Eu trabalhava no varejo e, aos 21 anos, estava no meio do processo de transição. Sentia que precisava encontrar um trabalho que me deixasse ser quem eu realmente era”, conta. Começou no salão em que era cliente, como assistente do seu cabeleireiro. E não saiu mais. “Foi onde eu pude usar o meu nome social pela primeira vez, quando deixei o cabelo crescer de verdade.”

“Uma ensinava a outra. Me atentavam que no salão é uma coisa, mas na rua é diferente. Falavam para que trouxesse casaco extra para não voltar para casa tão ‘pintosa.”
Ricardo dos Anjos

Melissa descreve o espaço com uma palavra específica: “É meu habitat natural. Ali é o meu refúgio, onde me sinto protegida.” A proteção, contudo, não é completa. “Trabalho em um salão frequentado pela alta sociedade de Curitiba. Elas me adoram, conversam, mas sempre tem um preconceito por trás. Jamais aceitariam uma pessoa trans na família, por exemplo. Pois somos muito legais enquanto estamos fora da sua casa. Debaixo do mesmo teto, a história muda.” 

Para ela, a trajetória que vai de assistente em transição a embaixadora de uma das maiores empresas de beleza do país representa um caminho que teria sido impossível em décadas anteriores. Ela carrega isso como responsabilidade. “Eu não queria que as pessoas me dessem oportunidades porque sou uma mulher trans. Queria que fosse pelo meu talento. Agora, como tenho esse lugar de fala, posso trazer junto essas mulheres, porque sei o que elas fazem, sei como é o mercado. Quando subo em um palco, quero de fato que as pessoas passem por menos espinhos do que eu passei.”

Fissuras no refúgio

Quanto mais nos aprofundamos nessa história, mais um dado se destaca: onde estão as pessoas pretas nesse panteão? Ou mesmo as mulheres homossexuais? “O cenário melhorou muito, mas o salão ainda se insere em um ambiente elitista”, diz Ricardo. Há fissuras nos muros do próprio refúgio – e elas reproduzem as estruturas de cor e de gênero que o cercam por fora, replicando as exclusões que o tornaram necessário. Se a porta do salão funciona como fronteira entre os mundos, ela nunca foi completamente impermeável. Os preconceitos podem entrar com as clientes — e ficar, quietinhos, esperando a vez.

Kamura conta com humor uma situação que define esse paradoxo: ele corta o cabelo da esposa do bispo Edir Macedo. “Então eu acho que ela gosta”, diz, rindo. Ao mesmo tempo, tem consciência de que ganhou e impõe respeito pela figura que representa. “O maior presente que a profissão me deu foi essa segurança de ser quem eu sou, até hoje”, reflete. Ele chegou na área quase por acidente — não sabia maquiar, não queria trabalhar com aquilo, não tinha esse objetivo. E descobriu que, sendo bom no que fazia, construiria uma proteção que o preconceito não seria capaz de furar com facilidade. 

Com as pessoas trans da sua equipe, Celso reconhece que essa tolerância tem limites práticos. E dá orientações, por exemplo, sobre como se vestir para o dia a dia no trabalho — sabendo que a passabilidade ainda é uma vantagem do mercado. “A profissional vai crescer mais se a cliente se identificar com ela”, pontua. Ele diz isso sem crueldade, mas com a lucidez de quem passou 50 anos se equilibrando nessa navalha. 

Contudo, assim como Melissa, Celso não pensa duas vezes em confrontar qualquer cliente em momentos de transfobia. Aí surge o momento maior no qual o salão mostra-se como um território onde a hierarquia da beleza inverte, por instantes, outras hierarquias.

O pesquisador Brunno chama esse mecanismo de “concessão temporária”. “É quase um contrato social, um contrato tácito: eu sou uma cliente, este é o espaço que lhe foi reservado para executar seu serviço.” E reconhece o que há de problemático nessa lógica: “Esses corpos não devem ocupar só esses espaços.”

Refúgio e confinamento

Neon Cunha, publicitária e ativista, não deixa que a conversa sobre o salão permaneça apenas no território do acolhimento. Ela o reconhece — e, ao mesmo tempo, puxa uma reflexão grave: “O salão de beleza permite a sombra”, reflete, recorrendo a Jung. “Por isso é um lugar fechado, preparado para receber. É um lugar onde você faz uma conexão do seu profundo com a superfície.” Assim, o salão funcionaria como um espaço em que a persona social pode ser suspensa — onde aquilo que o sujeito reprime para existir no mundo pode aparecer, ao menos por um momento. “É um lugar de remover a máscara. Eu chego nua, tiro tudo e entrego para essa pessoa que vai cuidar de mim.”

Mas Neon também lembra que esse lugar, por muito tempo, foi de confinamento tanto quanto de refúgio. “No ponto de vista do sujeito cis heteronormativo, durante muito tempo o salão de beleza era o único lugar onde as gays e as travestis poderiam estar.” E essa tolerância delimitada tinha uma função social precisa: manter esses corpos visíveis apenas onde eram úteis e invisíveis em tudo o mais.

“A gente não pode esquecer o ranço colonial”, diz. “Você tem ali uma utilidade, uma funcionalidade social.” A beleza como exceção que confirma a regra da exclusão. A travesti bem-sucedida no salão de luxo é, para Neon, a prova de que o sistema tolerou sua presença num lugar específico — não de que a aceitou em qualquer lugar.

Brunno concorda e sistematiza: “A sociedade espera que esses corpos que não se encaixam estejam nesses lugares que historicamente lhes foram reservados. Então arrisca-se virar outro tipo de segregação.”

Ou seja, o refúgio existe — mas tem muros internos que reproduzem as mesmas exclusões que o tornaram necessário. Ainda assim, Neon recusa o cinismo. “O salão de beleza também é sobre a celebração da vida. É muito raro quem se maquia para os piores momentos.” É um espaço celebrativo — e essa dimensão, ela insiste, não é trivial. Para quem vive sob ameaça constante, celebrar é também uma forma de resistência.