Presente em garagens, clubes, escolas e salas de jogos, o tênis de mesa carregou durante décadas uma aura de atividade recreativa, distante do glamour reservado a outras modalidades com raquete, como o tênis. Nos últimos anos, no entanto, essa história está mudando: entre crescimento de mercado, virais nas redes sociais e resultados históricos de brasileiros em competições, o esporte criado na Inglaterra durante a segunda metade do século 19 vive sua ascensão dentro e fora das quadras.
Surgido como uma versão doméstica do tênis tradicional, o tênis de mesa, popularmente conhecido como pingue-pongue (uma onomatopeia cunhada pelo inglês James Gibb, inspirada no som produzido pela bola na raquete e que depois foi registrada como marca pela empresa estadunidense Parker Brothers), passou por uma transformação radical e hoje é uma das modalidades mais praticadas do planeta, especialmente na Ásia. Em países como China, Japão e Coreia do Sul, os principais atletas são tratados como celebridades nacionais.
O crescimento também se reflete em números. Estudos recentes do mercado apontam um aumento constante na indústria ligada ao esporte, incluindo equipamentos, academias especializadas e eventos profissionais. A popularização de espaços recreativos voltados para adultos, a busca por atividades físicas de baixo impacto e a forte presença do esporte em plataformas digitais ajudaram a ampliar seu alcance para novos públicos.
Parte desse fenômeno está ligada ainda a uma característica cada vez mais valorizada pelas novas gerações: o tênis de mesa é acessível, dinâmico e altamente compartilhável nas redes sociais. Ralis rápidos, jogadas impressionantes e reações instantâneas transformam partidas em conteúdos perfeitos para o Instagram, onde a hashtag #tabletennis tem quase 2 milhões de vídeos publicados.
A presença crescente do tênis de mesa na cultura pop também se manifesta em documentários, séries e games. E vai além das plataformas digitais: o pingue-pongue encontrou seu nicho entre os jovens que buscam mais desconexão com o celular.
Muito antes dessa explosão na vida real, o cinema já havia percebido seu potencial narrativo. Um dos exemplos mais famosos aparece em Forrest Gump, de 1994. No clássico estrelado por Tom Hanks, o protagonista se torna um fenômeno do tênis de mesa durante o período em que serve ao exército estadunidense. O longa ajudou a apresentar a modalidade para milhões de espectadores ao redor do planeta e até faz referência à chamada diplomacia do pingue-pongue, um evento histórico que aproximou Estados Unidos e China nos anos 1970.
Mais de 30 anos depois, Marty Supreme, filme com nove indicações no Oscar de 2026, estrelado por Timothée Chalamet, utiliza o universo do tênis de mesa como pano de fundo, mas apresenta uma mudança importante. Agora o esporte deixou de ser tratado apenas como elemento cômico ou exótico para se tornar protagonista de uma trama de superação, ambição e fama.
Efeito Calderashi
Por aqui, o cenário acompanha essa tendência. Segundo dados da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM), a modalidade registrou um aumento significativo no número de praticantes. No ano passado, foram mais de 13 mil novos atletas. No Google Trends, o termo também sofreu um crescimento nas buscas entre 2014 e 2025.
Além de todos os motivos apontados anteriormente, esse boom no Brasil também tem nomes e sobrenomes: Hugo Calderano e Bruna Takahashi, os aclamados Calderashi. Além de figurar entre os principais atletas do esporte no mundo, a dupla protagoniza uma narrativa rara. São parceiros em competições, campeões de títulos inéditos para o país e também um casal fora das mesas.
Nascido no Rio de Janeiro, Hugo construiu uma carreira que parecia impossível para um jogador de um país sem tradição histórica na modalidade. Ao longo dos últimos anos, ele se tornou presença constante entre os melhores do ranking mundial e passou a desafiar a hegemonia asiática nos principais torneios.
Suas conquistas abriram portas para uma geração inteira de novos praticantes. Pela primeira vez, crianças brasileiras passaram a enxergar o tênis de mesa como um caminho viável para o alto rendimento. Hugo se transformou também em uma referência esportiva capaz de atrair patrocinadores, investimentos e atenção da mídia para uma modalidade que raramente ocupava espaço nos noticiários.
Ao lado dele, Bruna também desempenha um papel fundamental nesse processo. Descendente de imigrantes japoneses, a atleta se consolidou como a principal representante feminina do Brasil no circuito. Sua fama inspira outras meninas e acompanha um movimento mais amplo de fortalecimento do esporte entre mulheres e da visibilidade de atletas em modalidades tradicionalmente mais exploradas por homens.
Bruna e Hugo vêm acumulando medalhas para o Brasil, principalmente em torneios internacionais de duplas mistas – modalidade que ganhou ainda mais relevância após sua inclusão no programa olímpico. Entre os feitos mais marcantes está a conquista do primeiro lugar no Singapore Smash de 2026, considerado um dos torneios mais prestigiados do circuito mundial. O título colocou os brasileiros em um patamar inédito e consolidou a dupla entre as principais do planeta.
“É definitivamente um grande título ganhar um Grand Smash. A maioria das melhores duplas do mundo estava jogando, incluindo os líderes do ranking. Estou muito feliz pela forma como jogamos. A Bruna fez uma partida especialmente incrível na final”, contou Hugo em entrevista ao World Table Tennis (WTT). “Temos jogado cada vez melhor, a cada torneio”, completou.