A história da emancipação sexual feminina costuma ser contada como uma passagem entre a repressão e a liberdade conquistada com o advento do anticoncepcional. Lançada no mercado brasileiro em 1962, dois anos depois de ser aprovada nos Estados Unidos, a pílula desatrelou o sexo da reprodução e colocou em evidência a possibilidade de se transar apenas por prazer. “Ela tira de cena o risco constante da gravidez, o que é sem precedentes, e isso abre um horizonte novo. O que ainda não tinha mudado era o entendimento da sexualidade feminina, porque uma coisa é não engravidar, outra coisa é ter direito ao prazer e vê-lo reconhecido. A fisiologia do orgasmo feminino chega com tudo em 1966, pelas mãos de Masters e Johnson, com o clitóris no centro e a capacidade de orgasmos múltiplos. Dez anos depois, Shere Hite publica os relatos de milhares de mulheres contando, com as próprias palavras, como sentem prazer”, relembra a escritora e sexóloga Ilana Eleá. “A partir daí, o prazer feminino ganha legitimidade científica e política.”
Não precisou de muito tempo, porém, para a falta de desejo vira diagnóstico nos EUA, nos anos 1980, e a conquista ir se transformando quase num imperativo: a mulher saudável é a que deseja, quer sexo e tem orgasmo. Ou seja: nos últimos 70 anos, saímos do lugar de quem não devia desejar, passamos pelo de quem podia e chegamos ao de quem precisava querer. “Só agora começamos a aceitar vários jeitos de desejar, inclusive o de não querer sexo”, afirma Ilana.
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