Beleza

Ellis Atlantis: "Ser drag é ser o que você quiser"

O ganhador da primeira temporada do reality show britânico Glow Up conta como sua vida mudou depois do programa e revela tudo o que aprendeu com a mestre Val Garland.

@ellis_atlantis
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Em março do ano passado, estreava na BBC britânica o reality show Glow Up: Britain's Next Make Up Star. Apresentada pela celebrada jornalista Stacey Doodley, a competição reunia dez competidores em busca de um prêmio: um contrato estelar com uma agência que garante ao ganhador a chance de trabalhar como assistente de alguns dos principais maquiadores do mundo. Dois deles são jurados do programa. Dominic Skinner é maquiador global-sênior da gigante MAC Cosmetics e, apesar de viver em Londres, roda o mundo pelos backstages dos principais desfiles apoiados pela marca durante as semanas de moda. Val Garland, por sua vez, é uma lenda do mundo da beleza, uma das artistas mais celebradas do mercado. Atualmente, atua como diretora global de maquiagem da L'Oréal Paris.

A cada semana, jovens maquiadores e maquiadoras participantes do programa precisam completar um desafio do qual um deles sairá como vencedor e dois deles terão que competir entre si para se manter na disputa do prêmio. Desde novembro do ano passado, os brasileiros podem acompanhar a briga via Netflix. O serviço de streaming globalizou o reality e catapultou ainda mais a fama de seu vencedor, Ellis Atlantis. Com um background de drag queen, o beauty artist passou 2019 trabalhando ao lado de Val Garland e investindo em seu canal no YouTube, que só cresce. Em entrevista à ELLE Brasil, ele conta como sua vida mudou depois do programa e repassa alguns dos valiosos ensinamentos transmitidos por sua icônica mentora.

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A segunda temporada de Glow Up está no ar na BBC no Reino Unido. Apesar de ainda não ter dado uma data de lançamento específica, a Netflix já anunciou que vai adicionar os novos episódios ao seu catálogo.

Quando o seu amor por maquiagem começou?

Meu amor por maquiagem começou quando eu tinha 16 anos. A minha tia pintou o meu rosto com uma estampa de oncinha e desenhou as minhas sobrancelhas para um dia especial na escola em que todo mundo foi fantasiado. Eu sempre tive as sobrancelhas bem loiras e quando eu vi que poderia escurecê-las com maquiagem fiquei de cara! Depois de um tempo, a maquiagem também me ajudou a entender a minha relação com o meu gênero. Ao me pintar como drag queen, pude explorar a minha identidade e compreender melhor quem eu sou.

Como foi esse processo especificamente?

A minha vida inteira, fui considerado "esquisito". Minha imagem nunca foi entendida como "normal" pela sociedade e eu sempre me senti um alienígena. Eu não tinha confiança alguma e isso me levou a pensar que talvez eu não estivesse feliz com quem sou. Assim, a maquiagem e toda a questão drag me levou a imaginar que eu poderia ser uma mulher trans, na verdade. Eu fui criado em um ambiente extremamente masculino, então tinha a percepção enganosa de que você só pode ser uma coisa ou outra, que não existe nada no espaço entre esses dois pólos de gênero. No fim das contas, a experiência como drag me fez entender que eu posso ser o que eu quiser. Há dias em que estou mais feminino, em outros mais masculinos, e tudo certo! O importante é se sentir bem na própria pele.

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Como você se especializou em maquiagem?

Eu confesso que não me considero um expert, sinto que ainda tenho muito que aprender. No entanto, no final do meu primeiro ano como drag queen, eu percebi que levava jeito para a coisa. E daí virou um desafio em que eu me propunha a recriar maquiagens que eu considera complexas na época. De alguma forma maluca isso me ajudou a transformar essa aptidão em uma carreira. No fundo, eu sou só um apaixonado por maquiagem.

Você se considera uma drag queen? Sente que existe uma divisão entre o que se entende por maquiagem convencional e maquiagem drag?

Então, eu 100% me considero um artista drag. Eu era drag antes mesmo de me tornar um maquiador e agora drag é o meu veículo para expressar o meu trabalho com beleza. Ellis é o meu nome nos meus documentos e é também o meu nome drag porque eu não sinto essa divisão entre uma coisa e outra. Eu não mudo de personalidade para me tornar drag, sou uma pessoa só. Acredito que a maquiagem drag vai muito além da imagem que nós temos no estereótipo da drag queen. A diferença, talvez, seja uma questão de transformação. Para além de saber fazer uma bela maquiagem, você precisa saber como transformar uma pessoa naquilo que ela deseja expressar.

Por que você decidiu se inscrever para o Glow Up?

Alguns amigos meus me contaram sobre o programa e, honestamente, quando eu me inscrevi, não levei o processo muito a sério. Eu sei que sou um maquiador legal, mas né... Muita gente também é. Eu estava na minha bolha, fazendo minhas coisas e nem um pouco preocupado com competir ou tentar ser o melhor, principalmente porque estava feliz. Quando me chamaram, foi surreal. Minha mãe vive uma situação de saúde muito comprometida e não queria deixá-la sozinha por um mês para gravar o programa, mas ela me forçou a ir. Ou seja, basicamente foi o meu amor pela maquiagem e o amor da minha mãe que me embarcaram nessa aventura.



Como foi a sua experiência lá?

Foi supercansativo. Física e mentalmente. Enquanto artistas, a gente não tem muito controle da nossa criatividade. Por isso, estar em um ambiente em que você tem que usar a sua criatividade a todo momento pode ser bem desgastante. Mas eu amei! Se pudesse, faria tudo de novo. Foi uma das experiências mais legais da minha vida.

Você continua amigo dos outros participantes do concurso?

Sim, continuo falando com uns 80% das pessoas que participaram do programa junto comigo. Sou muito amigo mesmo de Leigh, Tiff e Belinda. Conversamos diariamente. Aliás, eu fui de drag para o casamento da Belinda! E não há nenhum drama entre mim e os participantes com os quais perdi o contato. Naturalmente, fomos deixando a vida nos levar para caminhos diferentes. Tudo certo!

Ganhar o programa mudou a sua vida?

Vencer o Glow Up mudou a minha vida radicalmente. Eu, literalmente, faço maquiagem todos os dias no meu trabalho e, desde que o programa acabou, tenho feito toda sorte de maluquice que jamais imaginaria, devido à plataforma que ganhei. Antes do Glow Up, eu trabalhava em uma loja de maquiagem e odiava aquilo. Todo dia, sentia que a minha potência criativa estava diminuindo. No entanto, depois do reality, eu trabalhei loucamente com a Val [Garland]. Conheci a Angelina Jolie! Tantas celebridades... Perdi as contas! Mas estar ao lado da Val foi, definitivamente, o maior prêmio que eu poderia ganhar. O conhecimento e a educação que eu recebi ao trabalhar com ela foram imensuráveis. Por fim, assinei um contrato com uma agência que hoje me permite, ainda mais, viver a minha vida artística ao máximo e ao lado de marcas que me apoiam frente a uma audiência que gosta de mim por quem eu sou de verdade.

Conte mais sobre sua assistência com a Val Garland! Qual foi o trabalho mais inesquecível que vocês fizeram juntos?

Foi incrível... Eu aprendi tanto estando ali: sobre mim e sobre a maneira como eu me expresso. E ela é a pessoa mais engraçada que eu conheço, foi uma delícia trabalhar com ela. Acho que as minhas duas experiências mais absurdas foram o tapete vermelho do festival de cinema de Cannes e a semana de Alta-Costura de Paris. Foram semanas em que trabalhamos muito perto um do outro e eu pude aprender muito, diretamente com ela. Na Alta-Costura, fiz parte de uma equipe enorme e estar no backstage trabalhando com tantas modelos foi um desafio do qual me orgulho muito por ter conquistado o selo de aprovação da Val.

"Ao me pintar como drag queen, pude explorar a minha identidade e compreender quem eu sou."

Qual foi o melhor conselho que ela lhe deu?

Estar ao lado dela dá uma sensação de ser invencível. Ela faz você sentir que pode fazer o que quiser, que seu talento não acaba. É por isso que ela inspira tanta gente. É muito honesta e direta também quando precisa. Acho que essa sensação de acreditar piamente em seu próprio potencial foi a melhor lição que tirei desse convívio.

E o que você diria para alguém que está entrando agora na indústria da beleza?

Não se leve tão a sério e não leve o mercado tão a sério também. Certifique-se de que você está iniciando essa jornada pelas razões certas. Divirta-se e seja sempre educado: ninguém gosta de um maquiador grosseiro.

Qual o papel do YouTube e das redes sociais na sua vida atualmente?

As redes sociais são muito importantes para mim. Elas me conectam com muitas marcas e me permitem mostrar minha arte para uma audiência mundial. Meus seguidores, em alguma medida, se tornaram uma segunda família para mim. Eu faço conteúdo para pessoas "estranhas" como eu, então é muito legal ver que meu trabalho pode inspirar as pessoas a serem quem elas são e a seguirem os seus sonhos.



Qual o lado bom e o lado ruim de ter uma audiência tão grande na internet?

O lado bom são as oportunidades que aparecem para você por causa disso. Realmente, não há limite para o que você possa alcançar: viajar pelo mundo para conhecer quem me apoia, trabalhar com campanhas globais, etc. O lado ruim é a pressão constante sob a qual estou para ser sempre um modelo para os outros. Existe uma crença de que você deve estar atualizado o tempo todo em cima de todas as tendências. Eu, simplesmente, parei de me importar com isso. Faço o que quero, quando quero e se as pessoas gostam, ótimo, se não, ótimo também. Estou nessas plataformas para fazer o que parece bom para mim, mostrar a minha arte, e só.

Como você descreve o seu estilo em maquiagem?

Acho que varia bastante. No Instagram, acho que é uma coisa mais voltada para drag, porque é o que eu amo e acho importante usar minha plataforma para mostrar isso e educar as pessoas sobre drag ser qualquer coisa que você quiser que seja. Já o meu estilo como maquiador é bem simples, muito focado na pele, minimalista e editorial.

E agora? Qual é o seu sonho? Onde quer estar no futuro?

Meu sonho sempre foi ser feliz e maquiar. Eu aceito os dias como eles vêm e isso é tudo que posso pedir. Um dia, eu adoraria ter a minha própria marca de maquiagem, adoraria também levar a cultura drag ainda mais para o mainstream do mercado de beleza e realmente quebrar o estigma por trás das drags.




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