Perfumes com cheiro de legumes? Entenda o novo gourmand!

Os vegetais aparecem como uma tendência olfativa em fragrâncias gourmand que prometem ampliar nossas ideias sobre as notas comestíveis.


Novo gourmand
Gabriel Cabral



Se o visual Y2K está por todos os lados na moda, não é surpresa que a tendência tenha dado as caras também na perfumaria. Conhecidas como gourmand, as fragrâncias que faziam sucesso nos anos 2000 exalavam um aroma adocicado, característico do Baccarat Rouge 540, da Maison Francis Kurkdjian — um produto que, muito por causa do TikTok, virou um hit absoluto de vendas (e cópias) nos últimos anos.

Apresentado em 1992, o Angel, de Thierry Mugler, foi quem estreou a categoria. Durante a elaboração, o estilista francês usou como referência a sua própria infância, repleta de pães mergulhados em chocolates quentes e algodões-doces. Talvez por isso a subfamília que ele gerou tenha ganhado o nome de “gourmand”, que vem do francês “gourmandise”, relacionado à gula. “Essas fragrâncias evocam sensações de conforto, prazer e indulgência. São composições que criam uma atmosfera calorosa e aconchegante, muitas vezes despertando memórias de momentos agradáveis ligados à comida”, diz Renata Ashcar, autora da publicação bianual Guia de Perfumes.

Novo Gourmand

Angel, da Mugler Reprodução @muglerofficial

Até hoje, ao ouvirmos falar de “notas comestíveis” em fragrâncias, chocolate, baunilha, caramelo e mel são as primeiras a vir à mente. O que temos visto agora, porém, é uma nova leva de criadores que buscam explorar os alimentos na perfumaria de uma forma diferente e, digamos, mais saudável. São experimentos com notas vegetais, como alcachofra, pimentão, pepino e até cebola. Chamá-los de gourmand não é um consenso entre os especialistas. Afinal, os vegetais não costumam ser associados a palavras como conforto, prazer e indulgência, como teoricamente pede a categoria gourmand. Mas se os misturarmos com doces?

É o que propõem alguns lançamentos recentes, como o Tonka Blanc, da L’Artisan Parfumeur. Para desenvolvê-lo, a perfumista Alexandra Carlin se inspirou em uma sobremesa da chef de cozinha Jennifer Hart-Smith, um cheesecake de couve-flor, baunilha, coco e cumaru. A fragrância faz parte de uma coleção maior da marca chamada Le Potager (A Horta) e foi a primeira do mercado a usar um extrato vegetal natural da linha Garden Lab, da empresa produtora de aromas Symrise. Para desenvolvê-la, a gigante alemã usou uma tecnologia inovadora, capaz de capturar os óleos naturais de vegetais, como os do alho-poró e do aspargo.

Novo gourmand

Tonka Blanc, da L’Artisan Parfumeur Divulgação

Apesar de parecer um movimento inédito, perfumistas usam moléculas vegetais há anos para dar complexidade a suas invenções. O que muda agora é que eles estão virando o centro das atenções, servindo de chamariz para uma geração que, pós-pandemia, parece buscar o natural e estar cada vez mais ligada ao que come – tanto na preocupação com a saúde quanto na busca por experiências gastronômicas únicas.

“Estamos falando mais de conexão com a natureza, então a faceta verde, limpa, terrosa, que não é tão explorada na perfumaria, tem aparecido e ela traz junto um quê de exclusividade”, aponta Fábio Navarro, consultor da multimarcas de perfumes de nicho paulistana Neeche. O especialista cita, por exemplo, o trabalho da Loewe. Não apenas nos perfumes, mas na sua linha casa, a marca tem apresentado uma verdadeira horta, com notas de pepino, beterraba, tomilho e orégano.

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Coriander Home Fragrance, da Loewe Divulgação

O novo gourmand também aparece no mercado de perfumaria nacional. Algumas das fragrâncias da Haji, marca conhecida por suas velas com frutas e especiarias, são inspiradas nas memórias de infância de seu fundador, como a Almond & Pistachio, que faz referência a um doce de marzipã de uma pequena e tradicional doceria no Líbano. Por trazerem ingredientes não tão comuns ao paladar e olfato brasileiros, algumas vezes elas podem ser consideradas excêntricas, como com o lançamento, no ano passado, da Tomato Leaf & Geranium, em que o tomate apareceu como o protagonista na comunicação.

“Essa essência foi sem dúvida arriscada”, diz Guilherme Haji sobre o desafio de fazer o consumidor enxergar o potencial de um mix de essências. “Na maioria das vezes, eles associam ao sabor. Tentam imaginar juntos e não conseguem assimilar.” Depois de sentir o cheiro, porém, se rendem – tanto que ela começou apenas na vela e recentemente virou um home spray a pedido dos clientes.

O Boticário, por sua vez, acaba de lançar a Privée La Collection aux Légumes, uma linha de edição limitada com quatro fragrâncias que tem vegetais como protagonista. Aqui, esses ingredientes também são equilibrados com outras notas olfativas. A ervilha, por exemplo, vem embalada por nuances amadeiradas de âmbar e musk, enquanto a beterraba é acompanhada pelo adocicado da baunilha.

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Mesmo entre os gourmands propriamente ditos, alguns andam aparecendo menos doces, um movimento que indica o desejo de sofisticação, de fugir de aromas perceptivelmente sintéticos, que lembram demais os doces industrializados. A baunilha, por exemplo, uma grande estrela da categoria, surge mais seca e apimentada. Já o praliné é mais queimado e menos adocicado, como explica Fábio Navarro.

Se você é fã do Angel e seus derivados, não se preocupe. Cheiros que remetem a sobremesas provavelmente nunca sairão de cena, mas há quem esteja começando a ampliar o espectro do que vale incluir em uma categoria que fala sobre atiçar o paladar, provocar o prazer e servir como um deleite. A ideia aqui é mostrar que cheirar a um vegetal (bem trabalhado por um perfumista, é claro) pode ser interessante, instigante e surpreender positivamente tanto você quanto quem está ao seu redor.

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