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Depois de uma onda de conscientização de sacolas de supermercado e dos canudos de plástico, mudanças definitivas na forma como consumimos nossos produtos de beauté estão no horizonte. Assim como estamos nos acostumando a levar o kit completo de inox (ou de bambu) para acompanhar as bebidas em bares, restaurantes e praias, espera-se, para os próximos anos, um movimento ecológico mais forte voltado para o nécessaire — por dentro e por fora das embalagens.

Por trás do movimento Blue Beauty (beleza azul, na tradução literal), existe uma urgência ambiental: de acordo com dados divulgados pela ONU (Organização das Nações Unidas) até 2050, poderemos ter mais plásticos do que peixes no mar. Todos os anos, 8 milhões de toneladas desse material entram nos oceanos, passando a fazer parte da cadeia alimentar dos animais. Dados como esses levaram a americana Jeannie Jarnot a criar o movimento que foca, principalmente, na conservação do oceano por meio da redução de geração de plásticos, na atenção ao descarte e no corte de desperdícios (de água ou de consumo). O que isso tem a ver com a nossa rotina de beauté? Tudo. "A produção de cosméticos é pensada atualmente de forma linear: você extrai um recurso, produz e descarta. Raramente o desenvolvimento de um produto leva em consideração o que acontece quando ele é descartado — seja a embalagem ou o próprio conteúdo dos potinhos", explica Vitor Pinheiro, responsável pela campanha Mares Limpos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) no Brasil.

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"Enquanto a Green Beauty, outro forte movimento, está voltado a todos os processos que envolvem a cadeia produtiva de cosméticos, desde a transparência da origem das matérias e seus critérios de obtenção de fontes renováveis, às condições de descarte sob o olhar de responsabilidade social, a Blue Beauty surge para conscientizar os cuidados após o uso dos cosméticos e suas condições de descarte minimizando os impactos à rede hídrica e, particularmente, aos oceanos", explica a engenheira química Enilce Maurano Oetterer, Vice-Presidente da Associação Brasileira de Cosmetologia. Isso diz respeito não somente ao plástico gerado, mas aos ingredientes utilizados, seja em compostos químicos da formulação, seja na extração de derivados do mar como esqualeno e algas marinhas.

"Precisamos de mais senso crítico e autorresponsabilidade por parte de consumidores. Por parte das marcas, comprometimento com um pilar essencial quando pensamos em sustentabilidade: menos é mais", Marcela Rodrigues

O termo Blue Beauty ainda aparece de maneira tímida por aqui, mas algumas marcas de beleza têm agido rapidamente quando o assunto é redução de impacto à vida marinha. Não basta, porém, pensar somente em embalagens recicláveis. "Muitas marcas já trabalham com iniciativas de logística reversa, mas é preciso ir além", afirma Marcela Rodrigues, ativista pelo consumo consciente em beleza e fundadora da plataforma "a Naturalíssima". O movimento prega que os produtos sejam livres de ingredientes tóxicos, não produzam resíduos e não degradem o ambiente marinho (incluindo o processo de obtenção de matéria-prima, como determinadas algas e minerais cobiçadas no universo de skincare).

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Bons exemplos

Embora a categoria de proteção solar seja vista como a grande vilã — estima-se que, a cada ano, até 14 mil toneladas de filtro sejam levadas para os recifes de coral em todo o mundo, de acordo com estudo publicado no Journal Archives of Environmental Contamination and Toxicology – está longe de ser o único problema. "Protetores solares químicos contêm ingredientes como oxibenzona, que são tóxicos para recifes de corais, mas também temos esfoliantes e até pastas de dente que podem conter esferas microplásticas que acabam no mar", diz Vitor. Não à toa, esse foi um dos motivos de maior orgulho de Rihanna ao falar sobre a sua marca de cosméticos Fenty Skin. "Devo mencionar que o hidratante com FPS é, ainda, "coral reef friendly"?, disse a cantora animada em vídeo de apresentação da linha. "Isso é muito importante!", concluiu.

Para Enilce, o principal desafio atualmente é minimizar o uso de plásticos não-recicláveis. "Um dos caminhos da indústria é apostar na redução ou substituição de embalagens por plásticos biodegradáveis, na inovação em pesquisa e desenvolvimento, como a opção do uso de líquidos concentrados e na logística de refil", afirma a especialista.

Ingrediente cobiçado pela indústria cosmética graças aos poderes antioxidantes, o esqualeno tem como fonte principal uma raça particular de tubarão que vive em águas profundas de Okinawa, no Japão. A Biossance, marca de beleza sustentável, encontrou na biotecnologia uma alternativa 100% vegetal ao ativo — os mesmos benefícios para a pele são conseguidos biossinteticamente a partir da cana-de-açúcar renovável.

"A Blue Beauty surge para conscientizar os cuidados após o uso dos cosméticos e suas condições de descarte minimizando os impactos à rede hídrica e, particularmente, aos oceanos", Enilce Maurano Oetterer

Pioneira no modelo de refil, a Natura afirma evitar, com essas embalagens, o descarte de 1,6 mil toneladas de resíduos no planeta por ano. Outro bom exemplo é o projeto Skin Protect Ocean Respect, da francesa Avène. Com foco em redução de danos à vida marinha, eles garantem filtros solares com zero impacto em fictoplânctons, zooplânctos e corais, ingredientes não eco-tóxicos ou hidrossolúveis e parcerias com projetos de restaurações de corais. A recém-lançada linha de proteção solar da Australian Gold (Grupo Boticário), por exemplo, foi a primeira marca do Brasil a conquistar o selo Reef Safe, uma fórmula que não agride os corais marinhos.

O que esperar para o futuro da beleza? "Precisamos de mais senso crítico e autorresponsabilidade por parte de consumidores. Por parte das marcas, comprometimento com um pilar essencial quando pensamos em sustentabilidade: menos é mais. É preciso ter responsabilidade em todo o processo da cadeia", desabafa Marcela.

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