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Parte 3 - Sobre o aborto

O terror que veio da "América": a queda de Roe x Wade, hipocrisia à brasileira e novas formas de sujeição social

Parte 3 - Sobre o aborto
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Depois de uma campanha que misturou o pior da supremacia branca com imposição religiosa e jogo político baixo, a Suprema Corte dos EUA derrubou Roe x Wade, caso que gerou entendimento jurídico de que o direito de mulheres grávidas ao aborto deveria ser defendido pela Constituição. Foram mais de 50 anos até que, semana passada, o que era uma decisão nacional assegurada constitucionalmente voltou para cada estado. Evidentemente, tudo foi feito por conta da certeza de que vários deles e seus representantes correriam para garantir a proibição. Artistas como Alicia Keys, Viola Davis, Harry Styles, Kendrick Lamar, Patti Smith, Cat Power, Taylor Swift, Cher, Billie Eilish, Olivia Rodrigo, Shonda Rhimes, John Legend, Madonna, Lizzo, Jack White, Pearl Jam, Samuel L. Jackson, Pink, Eminem, Lorde, Megan Thee Stallion, Mariah Carey e modelos como Bella Hadid e Karen Elson estão entre as centenas de celebridades que se manifestaram contra a decisão e declararam apoio aos protestos que já começaram a acontecer em todo o país.

Enquanto isso no Brasil corre na Internet o caso da apresentadora bolsonarista e do canal sensacionalista que expuseram e atacaram baixa e covardemente uma jovem atriz por ter entregue um bebê à adoção. A moça foi estuprada, ficou grávida e, como descobriu tarde a gravidez, decidiu levá-la a termo e optou pela adoção, tudo dentro da lei. O nível baixíssimo das pessoas que a expuseram e sua tentativa lamentável de persegui-la e julgá-la é uma constante entre os grupos que militam contra o aborto, mas que, na verdade, militam mesmo pela tortura e contra as mulheres. Prova é que quando uma vítima de estupro faz o que eles teoricamente defendem, ter o bebê e entregá-lo para ser adotado, as fogueiras seguem acesas. Aliás, depois que estão na adoção, os caçadores de bruxas não querem que gays, lésbicas ou pessoas trans adotem. E o casal padrãozinho geralmente não adota crianças maiores, só bebês, e prefere os bebês brancos. É horror atrás de horror.

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Os extremistas que fingem se importar com as crianças trabalham com gestão do ódio.

O presidente do Brasil definiu como absurdo o fato de uma menina de 11 anos ter finalmente conseguido assegurar seu direito ao aborto. Além de estuprada, ela sofreu violência em todas as instâncias oficiais do processo, fechando com esse pronunciamento catastrófico. Mas ele é contra, queria que ela seguisse arriscando sua vida mesmo depois de tudo o que passou.

Esse é o mesmo valente que, quando o país sofreu a perda de mais de 1.500 crianças no auge da epidemia de Covid-19, disse que o número era insignificante. Como devem ter ficado as famílias? Quando uma menina morreu e, baseada em fake news, a ministra favorita do governo voou feito ave de rapina para tentar atribuir a morte à vacina, vocês se lembram? E quando ela foi acusada de expor ilegalmente uma criança vítima de estupro? Mas quando foi comunicada do assassinato de crianças indígenas, ela disse apenas "lamento, mas acontece", emendando com delírios sobre rituais e outras mentiras.

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Em algum momento vocês ouviram essa senhora cobrar providências para o aumento de 14% das mortes intencionais e violentas de crianças de 0 a 4 anos entre 2019 e 2020 no Brasil? Alguma palavra sobre o aumento de 11% nas mortes violentas de crianças de 10 a 14 anos no mesmo período? Decerto pensam em ensinar as crianças e bebês a fazerem arminhas de dedo para que se defendam sozinhos. Os dados são do Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, divulgado pela Unicef em 2021, e que pode ser consultado online.

O Superior Tribunal de Justiça, em uma decisão digna da pior covardia capitalista, aprovou o rol taxativo para os planos de saúde, o que quer dizer que os planos só devem cobrir o que é listado como obrigatório pela Agência Nacional de Saúde Suplementar. Embora ainda não seja definitiva, se a decisão não cair no STF, milhões de pessoas perderão acesso a tratamentos de saúde que não podem pagar sozinhas. Isso inclui milhões de crianças com deficiência, cujas mães desesperadas têm sido a maior força de mobilização contra mais esse absurdo feito tão somente para aumentar os lucros já estratosféricos dos planos. Pergunta, você ouviu alguém desse governo ou seus pares e apoiadores preocupados com essas crianças? Óbvio que não.

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E sobre os alertas das ONGs, universidades e associações comunitárias a respeito do aumento de mortes por fome, aumento da desnutrição? Uma nota de pesar ou investigação sequer sobre o vídeo em que crianças indígenas gritam ao serem queimadas com agrotóxico lançado sobre elas de um avião? Uma única palavra sobre as crianças mortas nas favelas nessas caçadas horrendas que ainda são chamadas de operações? Sobre crianças em situação de trabalho escravo? Alguma defesa prática das crianças vítimas de estupro, que são maioria entre os casos?

Onde estão os defensores das crianças para lutar por Mirtes Renata de Souza, mãe de Miguel. O menino, de 5 anos, foi colocado sozinho dentro de um elevador de um desses prédios gigantescos de gente rica, porque a patroa de sua mãe estava lixando as unhas e não queria ser incomodada. Caiu do terraço e morreu. Sari Cortes Real, condenada por homicídio, responde em liberdade. Mirtes tinha ido andar com os cachorros da patroa e voltou para encontrar seu filho morto. Vimos a ministra convocar cordões humanos para a frente do prédio dela? Miguel não importa? Por quê?

Devemos exigir essa resposta. Por que afinal não há nada que esse governo possa fazer pelas crianças a não ser exigir que elas venham ao mundo contra a vontade das mulheres?

Parece que eles e seus apoiadores só se importam com fetos em estágios iniciais de formação e em gestações que as mulheres querem interromper.

Sim, porque você grávida que desejou e escolheu ter seu filho, vá até um desses malfeitores para pedir ajuda. Experimente exigir seus direitos reprodutivos amplos, com auxílio para que sua família tenha ao menos como prover o básico e oferecer uma vida digna para quem vai nascer. Eles são do mesmo saco daqueles que ao se deparar com o pedido de ajuda de uma mãe dizem que ela deve vender seu celular para comprar comida. Vão mandá-la trabalhar, como se não houvesse um desemprego monstruoso.

Mães estão presas nas cadeias por tentarem roubar um pedaço de frango no mercado para dar de comer aos filhos, não se esqueçam. Estão na fila pra comprar ossos. Semana passada, correu a notícia de uma senhora que brigou com um cachorro por um saco de salsicha que estava no lixo. Por favor, acordem e não se deixem levar por esse discurso podre. Quem liga para a vida de crianças não está fiscalizando úteros, está nas ruas, nas escolas, nos postos, nos movimentos, ajudando as nascidas.

A “aborteira”

A figura da "aborteira" ou "abortista" sem coração é uma caricatura grotesca, um bicho-papão criado para desinformar e retirar do tema sua importância como questão de saúde pública e como discussão política sobre direitos reprodutivos, sobre autonomia igualitária, sobre sexualidade, sobre organização social da família, sobre cuidado social e coletivo, sobre condições de vida. Não deixa de ter relação com um jeito bizarro e deformado de enxergar qualquer prazer feminino.

Um aborto pode trazer alívio? Evidente que sim. Só em caso de estupro ou doença? Evidente que não. Qualquer pessoa pode fazer o exercício de se imaginar grávida em um período ruim da vida, em uma relação infeliz ou violenta, parceiro irresponsável, ausente, uma fase com muitas questões financeiras ou simplesmente em um momento em que ter um filho está totalmente fora dos planos, em que esse simples pensamento gera angústia, tristeza e desespero.

Uma gravidez pode ser gerada por um acidente, um descuido. Uma única pílula esquecida pode gerar uma gravidez que aquela pessoa não deseja. Uma única camisinha furada, uma única decisão ruim, uma mancada, um momento.

Mas, entendam de uma vez por todas: há mulheres que não querem ser mães, e têm esse direito. Não querem estar grávidas, não querem parir. Não querem e ponto final. Há também mulheres que não queriam ser mães no momento em que abortaram, mas depois quiseram. E são hoje mães por escolha, seguem sendo mulheres dignas de respeito como sempre foram, criando os filhos, podendo ter alguma alegria com a maternidade.

Quem transa está sujeito a falhas e deslizes na contracepção. E as pessoas transam, mulheres transam. Essa imagem da mulher que é promíscua e moralmente condenável porque transa é de doer, um encosto hipócrita, controlador e moralista extremamente prejudicial. Transar não pode ser imperativo consumista nem algo fiscalizado, só liberado por carimbo ou algo que o valha.

Aliás, ninguém gera uma gravidez sozinho, então chega de só cobrar as mulheres porque o que boa parte dos homens faz para evitar isso é jogar a responsabilidade nas costas das parceiras e encher o saco porque não quer usar camisinha. Ninguém mais aguenta esse papo.

Ser a favor do aborto é ser a favor de um direito.

Em todos, absolutamente todos os lugares onde foi proibido, o aborto jamais deixou de ser praticado. Mas não se trata disso exatamente. O que muda com a legalização não são só a estrutura e as condições dignas, é a própria percepção sobre o que o aborto é como prática não só individual, mas inserida na sociedade. O que muda é a percepção sobre a vida das mulheres, que também é valorizada e reconhecida em um lugar digno quando existe a legalização. Há lugares em que uma grávida com risco de vida só pode abortar se o coração do feto parar. E às vezes ela morre antes disso, e o feto em seguida. Longe de ser uma exceção esdrúxula, essa situação diz do que está enredado na ideia geral de proibir abortos.

Nenhuma mulher que eu conheça ou tenha notícia acha abortar uma coisa agradável. Como regra e estatística, mulheres não fazem do aborto método contraceptivo, isso é mentira. Um aborto pode sim trazer conforto, alívio, mas ninguém aborta por esporte, por diversão. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), realizada em 2016 pelo Anis Instituto de Bioética e pela Universidade de Brasília (UnB), uma a cada 5 mulheres terá feito ao menos um aborto até os 40 anos no Brasil. Isso significa que na sua festa de família deve ter uma mulher que já abortou. Na sua sala de aula. No seu trabalho. Você mandaria sua tia, sua melhor amiga, sua professora, a diretora da sua escola, sua médica, a atendente do supermercado, sua mãe, sua irmã, sua avó para a cadeia por isso? Vamos parar já com essa hipocrisia, vamos olhar para esse jogo persecutório, para esses delírios de incitar linchamento, chega. Como se diz: limite!

Há uma decisão sobre algo que acontece no e com o corpo dessa mulher. Um feto literalmente se alimenta dos tecidos da pessoa grávida, não tem como ser separado desse corpo até atingir certo desenvolvimento. A placenta para não ser expulsa e destruída pelo próprio organismo se comporta como um parasita que se camufla dos sistemas de defesa, faz isso para não ser atacada naturalmente como corpo estranho. E muitas vezes há aborto espontâneo. Uma mulher pode entregar seus tecidos e assumir alguns riscos com prazer se quiser que esse embrião seja um feto, que esse feto vire um bebê e que esse bebê seja um filho, mesmo um bebê ou um filho que ela levará para a adoção. Se não quiser levar isso à frente, há métodos cada vez mais seguros e cada vez mais precoces para impedir e interromper o processo nas primeiras fases.

Tentar impor crime aqui é algo completamente absurdo, sádico e sem fundamento. Até porque se houvesse mais planejamento e informação, se fôssemos livres para falar disso como é necessário, haveria um cenário melhor e mesmo os abortos aconteceriam nas primeiras semanas, o quanto antes. E junto a isso, como fazem países que legalizaram o aborto, haveria programas de educação, orientação sobre contracepção comum e de emergência e detecção precoce. Ou seja, também se ensinaria coisas que ajudam a detectar a gravidez logo no começo. Com 15 dias após a ovulação e uma transa é possível fazer um teste de farmácia com boa eficácia, e com maior precisão ainda após notar atraso menstrual. É um pensamento político contra a crueldade, que considera o desejo da mulher e também o que a ciência pode oferecer.

Evidente que não se aplica a todos os casos e que para isso funcionar deve haver em toda parte um esforço contínuo de conscientização, ação junto às famílias e equipamentos de saúde, educação sexual. Muitas pessoas iniciam a vida sexual sem informação, sem acesso a nenhum método contraceptivo. Não é só dar um folheto ou dizer leia aí, ligue aí nesse número, veja um site. Isso é um escárnio. Para tarefas complexas existem programas desenvolvidos não por amiguinhos e curiosos, mas criados com seriedade e pesquisa, com método, com fundamentos. Mas o governo do Brasil não investe, proíbe mesmo a informação básica. Seus apoiadores querem dificultar até o acesso à pílula do dia seguinte, que evitaria muitos abortos. É uma campanha sinistra que desemboca em coisas absurdas como propor que os jovens não transem. Uma ministra culpando o TikTok por gravidez adolescente. Sem investimento, sem nada. Talvez se não tivessem de pagar quase R $2 bilhões em emendas parlamentares cada vez que um escândalo precisasse ser abafado, talvez aí sobrasse dinheiro para coisas importantes. Mas não há nenhuma intenção disso.

A educação sexual pública, escolar e familiar não é pornografia nem mamadeira de piroca, é fazer com que jovens tenham autonomia sobre seus corpos e evitem doenças e compromissos que não terão condições de assumir. É tirar do sexo esse peso horrível de coisa errada e suja, mas também o peso talvez pior de que ele tenha de ser algo limpinho, mecânico ou santificado, encaixado em modelos. É ouvir o que se passa com a vida sexual de jovens e adultos, saber de seus prazeres e problemas. É dar informação para que mulheres antes de tudo entendam suas anatomias, seus ciclos menstruais. É falar sobre o machismo dos caras que insistem em não usar preservativo, que fazem disso uma prática. É perguntar ao mercado onde estão as pílulas para homens, cadê a responsabilidade masculina na contracepção? É pensar no conceito e nas condições de formação de uma família. É ensinar as crianças sobre limites no contato com outros, sobre sua autonomia. É poder falar sobre violência sexual e abuso para evitar e identificar casos de violência sexual e abuso. É oferecer escuta e acolhimento. É cuidado, como aprendi, é cuidar com. Na prática, a política do governo é não educar, deseducar, reprimir, silenciar, bloquear qualquer tentativa de cuidado e abandonar sem recursos para depois criminalizar. Ninguém que se importe um milésimo de segundo com crianças, com gente, pode defender uma coisa dessas.

Em artigo recente, Keeanga-Yamatta Taylor, escritora e professora de Estudos Afro-americanos na Universidade de Princeton, fez uma consideração importante sobre as feministas negras nesse sentido. Disse que desde os anos 60 e 70 elas pautaram os direitos reprodutivos para muito além do aborto. Contra a esterilização forçada das mais pobres, pelo direito sim de interromper uma gravidez sim mas também de ter condições econômicas e sociais de formar uma família e poder criá-la longe da violência e do extermínio racista, algo que foi negado a milhões.

Ou seja, há muito para se preocupar a respeito da vida de mulheres e crianças, não? Começando por assuntos fundamentais como direito à moradia, à alimentação, vagas em creches e escolas. Planejamento familiar sequer foi mencionado a sério nesse país nos últimos quatro anos, benefícios foram cortados, a miséria está nas ruas. A lista é longa e está todinha abandonada.

E o estuprador, cadê?

Quem lê as notícias pode ter a impressão que, no país onde o presidente disse que só não estupraria uma mulher porque ela não merecia, há no ar uma certa defesa de estupradores, uma coisa sinistra. Certa ministra disse mesmo em entrevista de TV disponível na internet que estupro e sexo não-consentido eram coisas diferentes. Mas não são. Se houve atividade sexual não consentida por uma das partes houve estupro. É simples assim, não precisamos recorrer a nenhum gênio.

Mas a ministra falava também de provas criminais, boletins de ocorrência. Parece fantástico que, por exemplo, uma criança de dez anos estuprada deva ir à delegacia. Será que nesse governo alguém estudou o suficiente para saber coisas mínimas, como por exemplo os níveis altíssimos de estupros de vulneráveis no Brasil? Será que alguém tem a mais vaga noção das condições mais comuns desses estupros, das tramas familiares envolvidas? Será que não sabem que muitas crianças, talvez a maioria, não têm a chance de dizer ou elaborar o que ocorreu com elas?

Bom. Em 2019, saiu um levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O que diziam os números? Em 2018, houve recorde de estupros no Brasil, maior número desde 2007, quando o levantamento começou a ser feito.

De qualquer forma, nesse levantamento está que 53,4% das vítimas de estupro no Brasil tinham MENOS DE 13 ANOS. Ou seja, mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são crianças. E entre a outra metade tem muitos adolescentes. Em 2021, segundo levantamento do próprio governo, 60% do total de estupros no país foram de meninas de 10 até 17 anos.

Qualquer gravidez na faixa descrita como vulnerável, até 14 anos, é estupro. Se houvesse acesso às leis, todas as que engravidaram aí fariam aborto, até porque além de todas as muitas questões, é risco de vida para a menina. Mas nem isso é suficiente para certas pessoas cujo processo de bestialização parece imune a qualquer lógica, a qualquer fato.

E qual o perfil do estuprador nessa faixa? Alguém da família ou muito próximo da família A maioria são pais, tios, irmãos, avôs e amigos. Engraçado, ninguém fala disso quando tanto se comenta sobre a família. É na família, dentro casa, que ocorrem mais da metade dos estupros registrados no Brasil. E as relações de laços familiares, poder e submissão nesse contexto dificultam muita coisa. E aí? Vocês estão querendo obrigar crianças a terem filhos de seus pais, padrastos, irmãos, tios, primos e avôs, é isso? Porque a realidade desses dados aqui é essa. E, sim, estupro de vulnerável acontece tanto nas famílias pobres como em famílias de classe média e famílias ricas. É algo que exige ser analisado com muita seriedade e trabalho, não com aproveitadores que jogam com as vidas das pessoas e que jamais se importaram com crianças ou com qualquer um.

Em 2021, mais de 17 mil meninas de até 14 anos tiveram bebês no Brasil. Esse número é inaceitável. Essas meninas tiveram suas vidas colocadas em risco, e agora, quem vai ajudá-las no que precisarem? O plano é de controle e submissão, apenas.

Isso porque ainda não detalhamos o número enorme de mulheres com deficiências que são estupradas, isso porque não falamos do quanto o número real de estupros é muito maior do que o registrado, dos bebês e crianças de 0 a 4 anos à idade adulta. Isso porque não falamos do esforço zero para investigar e prender estupradores e dos casos de estupradores ricos que, mesmo diante de provas, gravações e vídeos de segurança, seguem sendo inocentados a toque de caixa.

Recentemente, gerou indignação o caso do empresário Saul Klein, herdeiro das Casas Bahia. Ele foi acusado e indiciado por supostos crimes sexuais incluindo estupros, estupros de vulnerável, cárcere privado e tráfico de pessoas, entre outras atrocidades. Em maio deste ano, a Justiça negou um pedido de prisão preventiva, e ele segue em liberdade sentado sobre mais de duas mil folhas de inquérito e depoimentos de dezenas de mulheres. Sequer foi proibido de deixar o país.

E nos EUA?

Dado o tipo de organização dos EUA, o poder de decisão agora dependerá dos estados. A Califórnia, por exemplo, já adiantou que manterá todas as permissões para que o aborto seguro e feito por escolha autônoma de cada mulher seja respeitado em todo e qualquer caso. Já o Alabama anunciou nada menos que pena de prisão perpétua para as mulheres que abortarem. Em alguns estados, a pena para quem abortar pode ser mais severa do que para o crime de estupro. Segundo o que tem sido divulgado, algo absurdamente próximo de uma relativização prática e legal do estupro. Não à toa as estadunidenses estão nas ruas.

Quando dizem que notícia ruim não vem só, isso é menos sobre alguma magia do mal e mais sobre a consideração de um contexto. Contextos ruins multifatoriais. Ou seja, se deu ruim é porque há um conjunto de operações em curso. E, como eu disse logo no início, a campanha para derrubar Roe x Wade partiu da ala mais reacionária e racista do governo sob as asas de Donald Trump e nas barbas boazinhas e omissas dos democratas.

Não é isso, aliás, que acontece, quando proíbem o aborto, uma reorganização supremacista? Quer dizer, mulheres ricas seguem abortando, mas obrigadas a se esconder, enquanto as pobres arriscam ou perdem a vida? Algumas mulheres influentes se dão inclusive o direito de condenar outras pelo que elas mesmas já fizeram. Elas não são más, nem aborteiras, mas as outras são? E os senhores muito ricos e respeitáveis que pagaram, quando muito, abortos para esposas, amantes, funcionárias com quem tiveram casos, transas casuais? Eles também são aborteiros, também devem ir para a cadeia?

A congressista Mary Miller, uma fazendeira republicana & reacionária de Illinois, cometeu um ato falho que resume bem certas coisas. Ao lado do hipócrita Trump, ela comemorava a nova decisão, essa que pode causar milhares de mortes de mulheres e outros problemas muito sérios, como uma vitória do grupo “pro-life”. Só que em vez de dizer right to life (direito à vida) ela disse vitória da white life (vida branca). Supremacia e privilégio branco estão sempre nesse jogo de controle social moralista.

Sempre que negros e mulheres ascendem, as mulheres brancas são convocadas a refazer o pacto da branquitude. Perdem direitos, para aprenderem a lição, voltam para as sombras e levam junto as mulheres negras e não-brancas sem os mesmos benefícios. É por isso e por outras tantas coisas que tenho e seguirei insistindo no tema do feminismo branco, da necessidade de um novo rumo crítico e prático para que ele possa se transformar, para que seja capaz de se engajar na luta de recusar e superar “a mulher” como um dos nomes da exploração e do ideal branco. Isso, acredito eu, é simplesmente fundamental.

A psicanalista Maria Rita Kehl tem um livro muito bom chamado A Mínima Diferença. Nele, destaco a seguinte passagem: “é quando os territórios que deveriam estar bem apartados tornam-se próximos demais, quando as insígnias da diferença começam a se desfocar, que a intolerância é convocada a restabelecer uma discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam muito ameaçadas”. Nesse sentido, podemos pensar que as últimas ondas feministas trabalharam no sentido de desfocar as insígnias da diferença repensando desigualdades. E que isso não seria possível sem o movimento negro. Não só em seus esforços específicos no feminismo, mas com o melhor de suas teorias e ativismos.

Nesse sentido de aproximar territórios, a ciência também contribuiu para, por exemplo, desfazer as lorotas sobre ancestrais fêmeas dos humanos de boa na casinha da caverna enquanto o macho caçava, desmontar teses moralistas sobre atividade sexual, detonar absurdos patéticos sobe inteligência inferior. A maior participação social das mulheres em termos de invenções, criação artística, capacidade liderar etc fala por si só. Não é obviamente suficiente nem de longe resolve assimetrias e desigualdades, mas ainda assim é um movimento que derruba alguns muros importantes.

Não à toa, as formas de discriminação mais convocadas diretamente à ação têm sido as mais resistentes, o racismo, o binarismo de gênero e a religião em seus extremos moralistas, sempre em conexão, por vezes não-dita, com a questão de classe. Acredito que um olhar crítico sobre as religiões seja mais do que urgente e, embora não tenha condições nem pesquisa suficiente para fazê-lo aqui, não posso deixar de fazer essa pontuação. As ligações mais recentes, abertas, fortes e inegáveis de setores cristãos\evangélicos e grupos supremacistas brancos e milícias são escandalosas e não param de ser denunciadas.

Em artigo sobre a questão do aborto no site Nós, a escritora e ativista Joice Berth cita a jornalista Susan Faludi no livro Backlash, o contra-ataque na guerra não-declarada contra as mulheres. “Em 1800, o aborto era legalizado em todos os estados [nos EUA], e a opinião era em geral neutra. Só em meados do século 19, com o surgimento dos grupos de defesa dos direitos da mulher, foi que o aborto se transformou num campo de batalha. Quando as mulheres pressionaram exigindo medidas de planejamento familiar tão simples quanto “maternidade voluntária _ que propunha a liberdade das mulheres para recusar sexo ocasionalmente por motivos de saúde_, os médicos, os legisladores, os jornalistas, e os clérigos responderam com uma campanha muito mais radical contra qualquer tipo de controle de natalidade” . E, com eles, é claro, a classe proprietária.

Já estão circulando nos EUA, neste momento, campanhas dos mesmos grupos para rever o direito à contracepção. Sim, rever o direito de tomar anticoncepcional. O direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo também entrou na roda. Mas não só, também o direito a sexo consensual entre pessoas do mesmo sexo, dentro de suas casas, em suas privacidades. Bem-vindos ao deserto da “terra da liberdade”, com estátua e tudo.

No Texas, o senador John Cornyn comemorou a decisão da Suprema Corte e tuitou a seguinte coisa: que deveriam rever também Plessy x Fergunson em relação a Brown x Board of Education. A disputa de entendimento entre esses casos determinou o fim da segregação racial nas escolas públicas dos EUA, um marco que pautou a luta dos direitos civis. Ou seja, Cornyn, cujo tweet era uma resposta a Barack Obama, está pregando abertamente a volta da segregação racial estilo Jim Crow e Ku Klux Klan. Como disse a roteirista e diretora Ava Duvernay em seu perfil no instagram, "é isso que eles farão se não agirmos [para além das redes]. Não deixa de ser sintomática e reveladora a liberdade que os racistas sentem instantaneamente toda vez que as mulheres são atacadas e como as duas coisas estão intimamente conectadas nas estratégias de dominação, tanto as mais abertamente fascistas como suas primas neoliberais.

No Alabama e na Georgia, segundo leis já aprovadas e que não são mais inconstitucionais com o novo cenário, uma mulher pode ser detida se estiver grávida e os oficiais acharem ou receberem denúncias de que ela faz algo que possa prejudicar o feto. Tipo tomar uma taça de vinho. Certamente não vão invadir casas nos bairros ricos para verificar a adega. Só que segundo a associação de advogados National Advocates for Pregnant Women isso já vinha sendo testado com mulheres pobres. Elas podiam ser detidas ou até mesmo sofrer intervenção, com bases de acusação nada sólidas, em termos de provas, o que tem peso sob uma eventual perda de guarda. O país não pode controlar armas pesadas usadas nos inúmeros massacres e chacinas dentro de escolas de crianças, não é capaz de assegurar alimento nem saúde para elas, mas estará de olho nas grávidas. Qualquer semelhança com discursos que circulam no Brasil não é mera coincidência.

No Arkansas, um dos casos mais vis e desprezíveis, estupros também não são aceitos como razão para o aborto legal. Somente risco de vida da mulher é a exceção, mas lideranças como o senador Jason Rupert, presidente de uma associação de advogados cristãos, acha que mesmo isso deve acabar. Seria um direito muito amplo, segundo sua visão. Algumas intercorrências de gravidez exigem interrupção imediata, outras matam no parto ou logo depois dele. Mas o senador Jason Rupert não vai parir, e, ao que tudo indica, mal pode esperar para ver mulheres morrendo.

Sabem outros estados em que não há excludente para casos de estupro? Segundo reportagem do The New York Times, Flórida, Alabama, Kentucky, Louisiana, Ohio, Dakota do Sul, Tennessee, Texas, Missouri e Oklahoma. Barbárie na terra da Disneylândia, onde crianças e mulheres são obrigadas a parir.

Mas e a democracia? Cerca de 57% dos estadunidenses são a favor de que a mulher possa abortar uma gravidez não só em casos de estupro ou saúde, mas por qualquer que seja o motivo de sua decisão. A maioria do país, portanto. Outros tantos não sabem opinar e não têm opinião formada Ou seja, a decisão não tem nada a ver com o que quer o povo. Nem com crianças, nem com saúde. É sobre, de novo, gestão do medo, da morte, exploração inescrupulosa da fé pela religião e controle econômico.

Enquanto isso, empresas anunciam que pagarão passagens para que suas funcionárias abortem em outros lugares em caso de proibição. É surreal como absolutamente tudo pode virar marketing bizarro quando um país inteiro vive um retrocesso de mais de dois séculos, sabendo que, como disse a jornalista Jia Tolentino na revista New Yorker, o retrocesso é sempre pior do que o passado. Entre outras coisas, porque envolve uma escolha planejada de retomar algo pior, com o conhecimento de que será pior, com a intenção de que seja pior e humilhante para grupos específicos.

Capitalistas e neo senhores feudais como Elon Musk andam preocupados com a queda recente da taxa de natalidade nos EUA. Ele até fixou um post sobre isso em seu Twitter. Por aqui, grupos bolsonaristas levantaram a mesma questão. Alguém que juntasse os pontos pensaria talvez que os doninhos do mundo e seus subalternos queiram ajudar a resolver o problema obrigando mulheres a parir uma nova força de trabalho. Depois disso, quanto piores as condições sociais, menores os salários, mais escassos os benefícios, maiores os lucros, mais descartáveis os trabalhadores. Não é exatamente inédito.

Em seu livro Só Mais um Esforço, o filósofo Vladimir Safatle diz o seguinte sobre o neoliberalismo: “A verdade é que essa política de choque e fim de padrões mínimos de solidariedade social só poderia ser sustentada pela doutrinação estatal de uma nova moral. No fundo, é isto que o neoliberalismo sempre foi: mais do que uma doutrina econômica de resultados miseráveis, um discurso moral capaz de fundamentar novas formas de sujeição social”. Não podemos aguentar nem mais um pouquinho. Está na hora de sonhar e elaborar uma grande queda, uma grande quebra.

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