PUBLICIDADE

O ano de 2021 é o primeiro da Década do Oceano, formalmente conhecida como Década da Ciência Oceânica – e a celebração pelo Dia Mundial dos Oceanos foi semanas atrás, no dia 8 de junho. A agenda de ações para a proteção da vida marinha proposta pela Organização das Nações Unidas (ONU) se estende até 2030 e tem como objetivo conscientizar a população global sobre a importância dos oceanos e mobilizar atores públicos, privados e da sociedade civil organizada em ações que favoreçam a saúde dos mares.

Nós temos uma tarefa enorme enquanto humanidade que deverá ser debatida de forma exaustiva nesta década: a questão climática, que está afetando a saúde oceânica de diversas formas. A absorção do dióxido de carbono emitido de forma exponencial desde o início da Revolução Industrial, com um ponto de inflexão importante no início da era neoliberal, tem acarretado aumento da temperatura e processos de acidificação das águas.

O oceano absorveu 93% do calor adicionado pela atividade humana desde o início da Revolução Industrial, sugando da atmosfera cerca de 30% a 40% de CO2. Em 2020, os oceanos atingiram a temperatura mais quente já registrada na história, recorde que tem sido batido anualmente desde 2015. Águas mais quentes implicam numa série de alterações no ecossistema que chegam influenciar a vida terrestre, mesmo quando não moramos perto da costa.

PUBLICIDADE

A absorção do CO2 também tem causado a acidificação das águas. Um outro estudo mostrou que o nível de acidificação atual é o maior observado nos últimos 65 milhões de anos e vai ficar pior, pois as massas de águas profundas podem levar de centenas a milhares de anos para se misturar e se renovar. Ou seja, o problema persistirá mesmo quando atingirmos emissões zero. E é por isso que precisamos chegar a emissões zero desde, bem, a década passada.

As consequências dessas alterações são sentidas de diversas formas, mas gosto de destacar especificamente o impacto no fluxo de chuvas, que prejudica fortemente agricultura, ocasionando perda de safras e aumento dos preços, além de, especificamente no Brasil, criar cenários como o que estamos passando agora no Sudeste, com uma crise hídrica que pode nos levar a um apagão. Para evitar o apagão, as termelétricas – um dos modelos mais nocivos por sua alta emissão de CO2 – precisaram ser reativadas. E se você nota o efeito bola de neve – e o contrassenso–, você não nota errado.

PUBLICIDADE

O oceano e a moda

Talvez o que você esteja se perguntando é: o que a moda tem a ver com isso? Bem, é possível que você já saiba que a moda é responsável por cerca de 4% dos gases de efeito estufa totais mundiais emitidos anualmente – o que corresponde às emissões da França, Alemanha e do Reino Unido combinadas. Mas fica pior quando a gente descobre que apenas 28% das 40 maiores marcas brasileiras analisadas pelo Índice de Transparência Brasil, feito pela organização Fashion Revolution, publicam suas políticas sobre uso de energia e emissões de carbono em suas cadeias de abastecimento.

O número cai quando falamos de rastreabilidade: apenas 25% das empresas publicam suas emissões de gases de efeito estufa para as próprias operações e só 5% publicam estas informações quando se trata das emissões das operações dos seus fornecedores diretos. A principal pergunta a ser feita, então, só pode ser: como tomar ações assertivas para a diminuição das emissões do setor têxtil, de confecção e de varejo de moda quando essas emissões nem estão sendo mensuradas, em primeiro lugar? E se estão, por que essas informações de interesse público não estão sendo compartilhadas?

Outro ponto não levantado até o momento, mas que também é da conta da moda quando falamos de Década do Oceano, tem a ver com a liberação de microfibras, especialmente microplásticos e microfibras de viscose no oceano. O fenômeno é recente e um campo emergente de pesquisa na ciência ambiental, por isso ainda sabemos muito pouco sobre os impactos dessa quantidade enorme de microfibras – mais especificamente meio milhão de toneladas, ou o equivalente a 50 bilhões de garrafas pet – sendo lançadas diariamente nos mares.

Além do problema da ingestão desses microplásticos por seres marinhos, outra questão é a extensa lista de químicos utilizados nos processos de manufatura de têxteis, entre eles, pesticidas, monômeros (como hidrocarbonetos, que são derivados do petróleo), aditivos, solventes e corantes. O contato desses produtos com seres marinhos tem se mostrado prejudicial – e os danos da exposição cumulativa ainda são desconhecidos. Para os seres humanos, o maior perigo está relacionado à ingestão desses microplásticos pela água e pelos alimentos. Estima-se que ingerimos cerca de 5 gramas de microplásticos por semana, o equivalente a um cartão de crédito em plástico.

O lado bom é que o interesse pelo tema está crescendo cada vez mais, e um número maior de pessoas, principalmente jovens, têm se envolvido com a questão climática e ambiental e estão demandando responsabilidade das autoridades públicas e privadas. Mesmo que o momento pareça não ser propício para ter qualquer tipo de esperança política, a verdade é que os dados devem servir como combustível para maior envolvimento da sociedade com as pautas socioambientais e fomentar maior cobrança das pessoas em cima de marcas e empresas para fazerem a sua parte.

Finalizo deixando duas dicas de perfis para se informar sobre isso. O primeiro deles é a Liga das Mulheres Pelo Oceano, puxado pela jornalista Paulina Chamorro, e o Fashion Act Now, movimento nascido do grupo organizado mundialmente Extinction Rebellion, que tem incomodado a indústria da moda quando o assunto é crise climática e poluição global.


Marina Colerato é jornalista, Diretora Executiva do Modefica, organização de mídia e pesquisa que atua por justiça socioambiental e climática por meio de uma perspectiva ecofeminista. É co-fundadora da Futuramoda, agência de comunicação e design, além de mestranda em Ciências Sociais pela PUC/SP.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE