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O ano era 2006 e Drik Barbosa se lembra de passar horas vasculhando o MySpace e comunidades do Orkut à procura do som de artistas mulheres da cena nacional do rap. Levada por amigos do bairro, tinha acabado de conhecer a Batalha do Santa Cruz. Na calçada em frente ao metrô de mesmo nome, na zona sul de São Paulo, onde há 15 anos MCs fazem disputas de rima, Drik se encantou com o que viu. Começava ali a traçar sua história no rap. "Nunca tinha visto uma batalha de rima. Eu já tinha uma conexão com o hip hop, meus tios ouviam, mas não entendia tão bem porque ele existia, o movimento. E foi nesse período da adolescência que tudo aconteceu."

Descobriu Dina Di e Negra Li. "Fui conhecendo os nomes. A Cris, do SNJ. Depois, Stephanie, Lívia Cruz, Flora Matos e Karol de Souza mais para a frente. Poucas tocavam no Espaço Rap (tradicional programa de rádio da 105 FM no ar até hoje), que era como a gente ficava conhecendo muita coisa. Então, pesquisei muito as minas, eu já escutava bastante as da música internacional, tipo Lauryn Hill, Queen Latifah e Lil Mama, via os clipes na TV, mas tinha essa barreira para que a gente soubesse dessas mulheres no rap nacional."

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Se hoje seus looks são parte da sua maneira de se expressar, naquela época, relembra, deparou-se com um cenário bem diferente. "Foi pesado para eu entender como me vestir sem cair nessa violência contra nós. Quão feminina eu poderia ser naquele espaço masculinizado? Não só ali, na minha escola também, ainda mais sendo uma menina negra. Nessa época, eu ainda alisava meu cabelo. No espaço das batalhas, quando a gente se vestia de forma feminina, muitos caras diziam: 'Tá querendo chamar mais a atenção para o corpo do que para a rima'." Sem paciência para os "machistões", diz, acabava participando das rodas mais como observadora.


Drik e PsiricoFoto: Divulgação/Victor Balde/Andre Carvalho


Hoje, qualquer garota pesquisando o mesmo que a Adriana de 15 anos atrás certamente vai esbarrar no nome de Drik Barbosa como uma das referências do rap nacional. Quis o destino que ela se tornasse integrante do selo Laboratório Fantasma, capitaneado pelos irmãos Fióti e Emicida, de quem tornou-se fã ainda na época das batalhas. "Depois, eu ia em todos os shows e ficava ali espremida na grade, cantando as músicas. Quando mandei meu som pra eles ouvirem pela primeira vez, acho que o Fióti lembrou de mim de tanto me ver naquela época", relembra, aos risos.

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A cantora dá mais um passo em sua trajetória com o lançamento de "Seu abraço", ao lado do baiano Psirico e RDD, e disponível nas plataformas de streaming e no YouTube. Em tempos pandêmicos, em que abraçar virou lembrança distante, a nova canção, conta Drik, é sobre resistência, mas com uma mensagem de esperança. "É uma love song sobre como a nossa relação com o outro é um ato político. A gente está falando que ainda vai se abraçar. Vamos acreditar nisso. A música, de uma forma muito simples, fala sobre esse sentimento de você ter alguém com quem possa contar."

Os bailarinos Nyek Freitas e Félix Pimenta protagonizam o vídeo. "O clipe mostra o afeto entre dois homens negros, que se amam e estão felizes de compartilhar uma vida juntos", diz. "E tem a dança presente também, que eu sempre acreditei que é uma forma de resistência, de expressão. Estamos todos trancados em casa, é importante a gente fazer, sim, uma dancinha, ouvir uma música gostosa, trazer essa coisa leve. É esse convite para a gente tentar respirar, a gente sabe que tá difícil, infelizmente vai continuar por um tempo, mas eu acho que a música tem esse poder de tirar a gente um pouco desse cenário."

Esta é a segunda faixa lançada do projeto NÓS, iniciado no ano passado, com o single "Sobre nós", parceria com o rapper Rashid. Até o fim de 2021, saem mais duas músicas e uma audionovela, em que a ideia é contar histórias reais. "É trazer o cotidiano do nosso povo, e aí as músicas também vão estar atreladas à trilha. A gente ainda não amarrou exatamente como vai ser, quem vai interpretar, se vou ser eu, outros MCs, se vamos pedir histórias diretamente para o público. Mas é realmente como se a pessoa estivesse ouvindo uma série, vão ter os capítulos."


Drik Barbosa - Seu abraço part. Psirico & RDD www.youtube.com

Costurando tudo está a ideia de pensar novos futuros olhando para o passado e refletindo sobre a luta do povo preto. "É uma necessidade minha como artista, cidadã, mulher negra, parte de um povo, né? O que despertou isso em mim foi esse baque da pandemia, de tudo que está acontecendo no governo. Eu sempre falo dessas questões. Se faço uma love song falando de um amor preto, é um ato político, né? Se tô ali dançando (a música) 'Quem tem joga', tem um funk, tem também um lado político", diz. "Mas nesse projeto (NÓS) eu senti essa urgência de falar diretamente sobre afeto, sobre reumanização. A gente tá ouvindo falar muito sobre skincare, autocuidado, que é muito legal, necessário. Mas para nós, população afro-brasileira, esse autocuidado é muito profundo, vai muito além da imagem. É importante resgatar essa autoestima, mas a gente tem que olhar mais para dentro também, né? Então senti que era um chamado para mim."

Neste processo, revela, mergulhar na história do povo preto e toda a diáspora foi essencial. "Eu não sabia profundamente sobre esse assunto, não era algo discutido na minha casa, meus pais não tiveram acesso a essas informações, a gente não aprendeu na escola. A música me chamou para isso também. Antes da pandemia eu já estava lendo alguns livros, participando de conferências. E quando decidi fazer o projeto, vi que eu precisava ir mais fundo ainda, entender as questões psicológicas envolvidas aí, o que o racismo faz com a nossa saúde mental. A gente fala muito de ofensas, de olhar, de palavras, mas como isso fica na gente?"

Na sua pilha de livros estão Lázaro Ramos, Conceição Evaristo, Chimamanda Ngozi Adichie e bell hooks, entre outros. "Quanto mais vou me informando, mais vejo o quanto é violenta a estrutura racial. Mas, ao mesmo tempo, a resistência que eu vejo na ancestralidade por toda a história me mantém muito conectada com o que acredito, com meu rap. Então, saber que através da música muitos dos nossos resistiram, cantaram e celebraram a vida mesmo em momentos pesados e tortuosos me trouxe esperança, me deu um gás. Meu pai, minha mãe continuaram lutando por mim, então eu preciso continuar pela minha irmã, por todo mundo. Canto muito no projeto sobre a potência do sonho, do afeto, do cuidado nesse lugar de ter esperança. Isso é um cuidado também, né? Eu vejo as notícias, choro, fico triste, e aí eu lembro que eu preciso estar forte para resistir. Conhecer a minha história me ajudou muito."

Drik criou playlist para a ELLE com as mulheres a influenciaram na música. Aperte o play!

Mulheres que me inspiram (ELLE)





Dedicado a compreender a vida através do olhar das crianças, Emicida lança seu segundo livro infantil e fala sobre como calibrar o uso das redes sociais para que trabalhem a favor de sua carreira – e sem virar refém de likes.



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