Marília Mendonça ganha mostra e documentário

Exposição em São Paulo e série que chega ao streaming decifram a solidariedade feminina que catapultou a cantora e compositora.


Imagem de Marília Mendonça na expoisção do MIS
Imagem da exposição sobre a cantora, em exibição em São Paulo. Foto: Lucas Mello/MIS



O fenômeno Marília Mendonça passará por uma profunda revisão cinco anos depois de sua morte, a partir da inauguração nesta sexta-feira (9.10) da exposição Sentimento louco, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Uma semana depois, no dia 16, o Prime Video estreia Sentimento louco, série documental em quatro episódios. A plataforma de streaming ainda prepara uma cinebiografia ficcionalizada, que está em fase de produção e deve estrear no segundo semestre de 2027.

Reunindo cerca de 500 objetos relacionados à vida e à carreira da cantora e compositora goiana, além de farto material fotográfico, a exposição audiovisual no MIS é a primeira dedicada a um artista originada no universo ultrapopular da música sertaneja. Antes de Marília, o museu abrigou, nesta sequência, mostras sobre Renato Russo, Björk, Rita Lee, Tina Turner, B.B. King, Ney Matogrosso, Raul Seixas e Janis Joplin. Sentimento louco foi organizado em ambientes que remetem principalmente à intimidade e à vida privada de Marília.

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“Uma mostra sobre Marília no MIS é um presente para o público, pois coloca a rainha do sertanejo em um dos locais mais nobres da cidade de São Paulo”, celebra a editora de livros Isa Pessoa, contratada para a curadoria da mostra. “A exposição buscou traçar um caminho biográfico sobre a artista, com a criação de ambientes que recriassem suas origens e lugares que definiram sua criação. Assim, por exemplo, a árvore em que ela se refugiava para cantar no quintal de casa, desde os 12 anos, foi recriada cenograficamente na exposição. O quarto de Marília, guardado como ela deixou pela mãe, também foi reconstituído”, explica a curadora. 

Nomeados a partir de canções da artista, as salas incluem Eu sei de cor – Ouro de mina, dedicado às origens de Marília desde o nascimento, em 1995, em Cristianópolis, Goiás; A flor e o beija-flor – Quintal da criação, que explora o processo criativo da compositora; Esqueça-me se for capaz – Quarto, de memórias pessoais; Infiel – Closet, centrado na identidade visual de Marília; Camarim, expondo bastidores da carreira musical; Minha herança – Universo das palavras, que mergulha no conteúdo das canções; e Fã-clube, que foca no relacionamento entre artista e público. A atuação de Marília nos palcos ocupa os espaços Show, alô Porteiro – primeiro DVD, sobre o álbum inaugural de 2016, Marília Mendonça; e Todos os cantos, em torno do disco homônimo que percorreu o país com shows em praça pública, de 2019 até a interrupção pela pandemia.

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Looks de shows de Marília Mendonça, em exibição na mostra do MIS. Foto: Lucas Mello/MIS

“O espectador vai entender quão simples Marília nasceu, como era o último quarto dela, como ela fazia suas composições. Nós transformamos o universo dela num ambiente lúdico, junto com suas músicas e memórias”, descreve Nelson Foerster, diretor da Axon Content, produtora associada ao MIS para a exposição. “Temos na exposição os prêmios que ela ganhou, os livros que gostava de ler, os diários que escrevia, roupas, sapatos, óculos, bolsas, vestidos, até os primeiros sapatinhos da Marília bebê”, ele enumera.

Isa Pessoa prossegue: “Trouxemos um acervo riquíssimo de Goiânia, e a partir dele montamos o Closet, com peças que ficaram gravadas na memória do público, assim como a Sala das palavras, onde reunimos diários, cadernos de anotações e agendas onde Marilia escrevia quase diariamente.”

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Esboços de letras da compositora na mostra. Foto: Lucas Mello/MIS

Marília Mendonça, a série documental

O olhar sobre a intimidade da compositora norteia igualmente a série Sentimento louco, dirigida pela cineasta Susanna Lira, autora também de documentários sobre Fernanda Young, Clara Nunes e Mussum, entre outros, e de produções fortemente ligada às causas femininas, como Positivas (2009), sobre mulheres que vivem com HIV, e Torre das donzelas (2018), sobre mulheres que foram presas políticas da ditadura no Presídio Tiradentes, entre elas Dilma Rousseff.

Nos quatro episódios da série, Susanna dá ênfase a aspectos sentimentais da vida, da carreira e da morte trágica (aos 26 anos, num acidente aéreo) de Marília, apresentando grande quantidade de vídeos caseiros, muitos deles registrados por ela própria.

Para além da reconstrução sentimental e romântica da trajetória da artista, a série foca também nos significados do advento de Marília Mendonça à frente de uma inédita geração de mulheres cantoras-compositoras de música sertaneja, que se impuseram mais identificadas com os anseios populares que com as ideologias do agrobusiness nacional. A série expõe, com sutileza, diversas manifestações de resistência masculina à ascensão de um novo tipo de artista sertaneja, mesmo por parte de seus produtores e parceiros profissionais, expressa em frases como “ninguém acreditava, ninguém queria porque ela era gordinha”, dita pelo primeiro empresário, ou “bem no início, teve, sim, uma rejeição”, pelo diretor da produtora que capitaneou a ascensão da artista.

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A diretora Susanna Lira nas filmagens de Sentimento louco. Foto: Divulgação

Do lado feminino, em depoimentos reunidos para a série, só se ouvem palavras de incentivo e solidariedade, seja de amigas, funcionárias da equipe da cantora, parceiras compositoras-cantoras como as irmãs Maiara & Maraísa, e Paula Fernandes, de uma outra geração sertaneja. “Ela não sabia que o nome disso era feminismo”, diz a certa altura a cantora e compositora Luíza Martins, referindo-se à postura de Marília, tanto em cima do palco como nos bastidores do pop sertanejo.

Nas cenas da série que foram colhidas nos shows, ouve-se sempre o coral predominantemente feminino formado pelas plateias de Marília, num fenômeno de cumplicidade entre mulheres que a levou ao topo e que ainda não foi plenamente compreendido. “Marília redefiniu um gênero musical e o papel das mulheres na história do sertanejo. Consolidou um legado através do tempo e transcendeu em muito a morte precoce. Sua importância para a música e a cultura brasileira é enorme e inquestionável”, argumenta Isa Pessoa.

“Marília redefiniu um gênero musical e o papel das mulheres na história do sertanejo” Isa Pessoa, curadora

“Ela nem gostava do termo ‘feminista’, porque achava supermachista a maneira como a mídia conseguiu colocá-la dentro de uma caixinha. Marília não era chamada de rainha do sertanejo, era a rainha do ‘feminejo’”, critica Susanna Lira. “Eu, como diretora mulher, não poderia não aprofundar isso na série, principalmente por todas as dificuldades que ela teve para conseguir chegar onde chegou, como mulher, fora do padrão, de origens muito pobres e que não estava dentro de um séquito de pessoas bem-relacionadas. Ela teve que vencer muitos obstáculos para chegar onde chegou. Isso é muito importante e está muito presente na série.”

A cineasta explica sua aproximação com a personagem: “Nunca fui muito ligada em música sertaneja, mas era fã de Marília desde 2017, quando a conheci num set de filmagem. Me apaixonei desde então e, ao longo desses anos, fiquei cada vez mais impressionada com ela e com a obra dela num ambiente sertanejo supermachista. Era uma pessoa totalmente disruptiva dentro daquele universo, rompendo barreiras, totalmente fora de padrão”. Na visão de Susanna, “as mulheres sertanejas eram confinadas a um rótulo e a um determinado tipo de público, e Marília rompeu com tudo isso, não se deixou aprisionar, foi muito rebelde nesse sentido”.

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Paula Fernandes gravando seu depoimento para o documentário. Foto: Divulgação

Susana fala da pertinência de uma revisão, em 2026, dos significados por trás da presença de Marília nos breves seis anos em que esteve exposta ao olhar do grande público: “Que bom que estamos celebrando Marília agora, num momento como este, de muitos feminicídios, em que as mulheres estão precisando de exemplos de empoderamento. Em um de seus últimos videoclipes (“Esqueça-me se for capaz”, 2021, em trio com Maiara & Maraisa), ela fala de mulheres em situação de violência, se libertando. Ela foi amadurecendo em relação a como é importante ser solidária com as outras mulheres. Não à toa o projeto Patroas (de 2020, também com Maiara & Maraisa) foi um grande sucesso. As mulheres, quando se juntam, são muito poderosas. Marília é farol para nós, como mulheres”.

“Que bom que estamos celebrando Marília agora, num momento como este, de muitos feminicídios, em que as mulheres estão precisando de exemplos de empoderamento” Susana Lira

Os indícios para uma compreensão mais precisa sobre o papel exercido por Marília entre 2015 e 2021 (e além) estão espalhados pela exposição do MIS, pela série documental e, principalmente, pelas letras da compositora. Dentro da estratégia de encarnar em primeira pessoa diversos perfis femininos, quase sempre marginalizados e colocados em segundo plano pela sociedade, ela se alternou em compreender figuras como a prostituta (“Troca de calçada”, 2021), a mulher traída (“Como faz com ela”, 2016), a traidora (“Infiel”, 2016), a amante relegada a segundo plano (“Amante não tem lar”, 2017), a amorosamente mal-sucedida (“Meu cupido é gari”, 2016; “Todo mundo vai sofrer”, 2019; “Supera”, 2019), a mulher solidária a outras mulheres, e não aos homens (“A culpa é dele”, 2018), a mulher autônoma (“Festa das patroas”, 2017, com Maiara & Maraisa;)…

No segundo episódio de Sentimento louco, Marília dá a senha para decifrar o sentido por trás de suas personagens aparentemente mal-sucedidas, tão diferentes e tão semelhantes umas às outras: “Termino sempre com um final feliz pro lado da mulher, não sei se vocês perceberam”. Essa mensagem foi imediatamente compreendida, em especial pelo público feminino, que a descobriu via internet e já cantava todas as músicas de cor e em coro, desde o primeiro show da jovem Marília Mendonça, em Itaituba, no interior do Pará, em agosto de 2015. São recorrentes na série imagens em que Marília chora em cima do palco, talvez incrédula pela própria habilidade em comandar as massas femininas na luta por autonomia, independência e liberdade.

Sentimento louco: em cartaz até 29 de novembro, no MIS (avenida Europa, 158), em São Paulo. De terça a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 20h. Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada).

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