Olivia Wilde fala sobre O convite, seu terceiro filme como diretora
"O longa é, sem dúvida, a coisa mais pessoal e vulnerável que já fiz", diz a atriz que protagoniza a comédia sobre relacionamentos ao lado de Penélope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton.
Conhecida por sua carreira como atriz, Olivia Wilde vem se consolidando como diretora. Depois do ótimo Fora de série (2019) e do controverso Não se preocupe, querida (2022), ela volta para trás das câmeras com O convite, que estreia nesta quinta-feira (09.07) nos cinemas brasileiros.
O longa, que ela também protagoniza, é uma adaptação estadunidense da peça Los vecinos de arriba, do catalão Cesc Gay, transformada no filme Sentimental por ele mesmo em 2020. Com roteiro da atriz Rashida Jones e de Will McCormack, O convite transporta a história para São Francisco, na Califórnia.
Nela, Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia) estão casados há muito tempo, e o relacionamento caiu no marasmo. Ela convida o casal que se mudou para o apartamento acima ao deles, formado por Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), para um jantar. Seu objetivo é fazer amigos. Já Joe quer reclamar do sexo barulhento dos vizinhos. O encontro acaba tomando rumos inesperados, tão engraçados quanto provocadores.
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É um filme sobre relacionamento adulto que usa a comédia para baixar a guarda dos espectadores – e funciona. A produção e o lançamento do longa anterior de Olivia, Não se preocupe, querida, foram conturbados, devido à separação da atriz do pai dos seus filhos (Jason Sudeikis), ao namoro com o astro da produção (Harry Styles), além de boatos de conflitos com a atriz principal (Florence Pugh), o que atrapalhou a recepção da obra e colocou em dúvida sua carreira como diretora. Aqui ela mostra que seu talento é real, extraindo excelentes atuações de seu elenco e criando soluções visuais interessantes para mostrar esse casal em crise.
Em entrevista à imprensa, com a participação da ELLE, ela falou sobre relacionamentos, mudança de perspectiva, Penélope e Diane Keaton.
Relacionamentos e sexo
“O filme é mais sobre relacionamentos do que sobre sexo. Ele influencia, claro, as relações de uma forma significativa, e, pelo menos na cultura estadunidense, muitas vezes é subestimado como uma forma de comunicação não-verbal, uma exploração que as pessoas não valorizam tanto e sobre a qual elas não falam. A coragem de dizer ao seu parceiro sobre como você está evoluindo e como pode querer continuar explorando seu próprio erotismo foi algo que impulsionou muito O convite. Queríamos investigar o que acontece quando duas pessoas confundem intimidade com fusão. A ideia de: ‘Ah, ainda somos casados, nossas vidas se fundiram, portanto, somos íntimos’. Quando, na verdade, eles não poderiam estar mais distantes. Sou fascinada por esse conceito de pessoas que tecnicamente estão juntas, mas na verdade são completos estranhos porque não continuaram a reconhecer sua individualidade, sua autonomia e sua responsabilidade pela própria felicidade. A Pina diz a frase ‘As pessoas se esquecem de que merecem mais’, algo que sinto muito profundamente. E acho que agora, aos 42 anos, tendo me relacionado várias vezes, é algo com que realmente me importo, especialmente sobre as mulheres.”
“A Pina diz a frase ‘As pessoas se esquecem de que merecem mais’, algo que sinto muito profundamente”
Questionamentos
“O foco nos relacionamentos é algo proposital, porque é o que mais me interessa. Essa é uma das razões pelas quais me inspiro tanto em Mike Nichols (Quem tem medo de Virginia Woolf?, de 1966, A primeira noite de um homem, de 1967), porque sinto que, entre outras coisas, um de seus pontos fortes era realmente investigar a maneira como os seres humanos se envolvem uns com os outros e a complexidade das relações de diferentes tipos. Mas concordo que meus três trabalhos como diretora tratam de pessoas que estão se perguntando se a vida que estão levando é a que querem continuar vivendo. Então, talvez essa seja a minha especialidade.”
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Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz e Edward Norton, os casais de O convite
Foto: Divulgação
Identificação com a personagem
“Embora Angela seja uma pessoa muito diferente de mim, me identifiquei com essa vontade de nunca parar de evoluir e explorar. E acho que ela sente que seria trágico se desistisse completamente disso. Joe meio que está disposto a sacrificar essa exploração. Ele decidiu que não é digno disso. Ela ainda sente que é digna.”
As perguntas do filme
“Fico intrigada pela maneira como sacrificamos nossa própria autonomia em nossas vidas. Essa ideia de não apenas termos direito à atenção, atração e devoção de nossos parceiros, mas também à nossa própria atração por nós mesmos e ao nosso desenvolvimento pessoal. Esquecemos que podemos escolher. O convite tenta incentivar as pessoas a se perguntarem: ‘Quais são as escolhas que fiz? Estou satisfeita com elas?’. E, se não estiver, não posso culpar meu parceiro, porque tenho que assumir o ônus pelas minhas decisões e pela minha felicidade. O ressentimento pode se transformar em desprezo quando não assumimos nenhum tipo de responsabilidade. Espero que essas sejam algumas das conversas que as pessoas terão depois de assistir, junto com a ideia de perguntar aos nossos parceiros, se os tivermos, quem eles são neste momento. Eles são pessoas diferentes de quando os conhecemos. Ainda temos a curiosidade necessária para amar esse alguém agora? Superficialmente, O convite é uma comédia. Queremos que as pessoas riam, se reconheçam e se perdoem. O riso remove a vergonha, principalmente quando é uma catarse coletiva em um cinema. Mas espero que, por trás das risadas, haja uma pequena provocação: ‘Você já considerou sua responsabilidade em relação à sua própria felicidade?’. Você só tem uma vida. É assim que você escolhe vivê-la?”
“O riso remove a vergonha, principalmente quando é uma catarse coletiva em um cinema”
Menos cínica
“Enquanto trabalhávamos juntos no roteiro e envolvíamos nossa consultora Esther Perel (psicoterapeuta e autora best seller) nesse workshop, estávamos tentando abraçar as ideias de que um relacionamento pode conter vários e que talvez toda relação esteja realmente destinada a terminar em algum momento, mas você pode começar uma nova com a mesma pessoa. Esse conceito de reinvenção foi algo que me impactou muitos anos atrás, quando ouvi em uma palestra dela do TED. Isso realmente mudou minha perspectiva. Absorver esse conceito enquanto filmávamos me tornou muito menos cínica quanto a uniões de longo prazo, porque amo esse conceito de liberdade para se recriar e evoluir tanto individualmente quanto como casal. É um objetivo ambicioso, mas este filme poderia acabar tornando mais pessoas menos cínicas e até reparar alguns relacionamentos que estão à beira do colapso.”

Seth Rogen e Olivia Wilde, o casal que caiu no marasmo em O convite Foto: Divulgação
A escolha de Penélope
“Sempre achei que ela é uma comediante extraordinária, além de uma atriz dramática maravilhosa. Ela consegue conter força, complexidade e sabedoria e é tão engraçada. Ela se interessa muito pelos elementos inesperados de uma personagem. Muitas pessoas teriam retratado Pina como uma sedutora poderosa, e Penélope se interessou imediatamente pelas coisas que a tornavam menos, entre aspas, perfeita. Ela é desajeitada, boba, raivosa. A maioria das pessoas não percebe que Penélope não tem nada a ver com essa personagem. E é por isso que acho que a atuação é ainda mais extraordinária.”
“O convite é, sem dúvida, a coisa mais pessoal e vulnerável que já fiz, e pensei nela (Diane Keaton) o tempo todo”
Diane Keaton
“O convite é dedicado à Diane (1946-2025) porque ninguém teria sentido o filme mais do que ela. Tive o prazer de trabalhar com Diane há muitos anos em O Natal dos Coopers (2015). Poucas pessoas viram, mas eu não o trocaria por nada, porque pude passar um inverno sendo filha de Diane Keaton. Ela foi uma grande inspiração para mim, inclusive como diretora. Como atriz, é claro, ela definiu o tipo de mulher mais interessante que eu já tinha visto na tela. Annie Hall foi para mim um momento de revelação sobre o tipo de personagem que eu queria interpretar. Tendo crescido amando Lucille Ball, senti que Diane havia desenvolvido aquele tipo de mulher vulnerável, empática e peculiar, baseada no instinto, impulso e coração. Ela transformou isso em alguém que podia ser incrivelmente inteligente e complexa. Angela não existiria sem Diane, e acho que o filme também não. Ela me disse para me entregar completamente. O convite é, sem dúvida, a coisa mais pessoal e vulnerável que já fiz, e pensei nela o tempo todo. Estava tão animada para mostrar o longa a ela. Estava editando quando soube da notícia (da morte de Diane) e, naquele momento, tive certeza de que O convite seria para ela.”
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