PFW: Maison Margiela, verão 2027
Glenn Martens solidifica sua visão para a Maison Margiela e deixa de se apoiar tanto em referências reconhecíveis da marca.
A trilha do começo do desfile de verão 2027 da Maison Margiela consiste apenas em sons de guitarras distorcidas, como no fim de uma música grunge. Alguns segundos depois, vem a música “Violet”, da banda Hole. A voz de Courtney Love, gritando a plenos pulmões, se encaixa com perfeição ao que é apresentado. O cenário, uma homenagem à estreia de Raf Simons na Dior, em 2012, também. Ambos foram assinados por Mark Colle. As flores que cobriam as paredes naquela época agora aparecem mortas. O passar do tempo deixou suas marcas.

Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação
![]() Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação |
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Após quatro desfiles, Glenn Martens começa a definir melhor qual é a sua visão para a casa. E isso tem a ver com deixar um pouco de lado as releituras e os easter eggs que o estilista explorou em suas primeiras coleções. Alguns fãs não amaram essa nova versão. Pelas minhas contas, somente cinco modelos vestem sapatos Tabi. Vale dizer que a etiqueta não é feita apenas de calçados com o polegar separado do restante dos dedos que viraram febre na última década. É mais sobre incômodo, desconstrução e reconstrução e subverter o que se espera de algo – seja um desfile, uma roupa ou um acessório.
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Neste verão, o designer encontra esse desconforto proposital no contraste entre coisas que, tradicionalmente, ocupam lugares opostos: o pesado e o leve, o exterior e o interior, o doméstico e o sofisticado. A pesquisa começa pela base, com um estudo sobre ateliês parisienses, divididos entre Tailoring, responsável pela alfaiataria e pelas peças mais estruturadas, e Flou, dedicado aos drapeados. Em vez de respeitar essa separação, porém, ele decide reapropriar suas práticas e misturá-las.

Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação

Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação

Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação

Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação
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Os dois trench coats do início do desfile exemplificam bem isso: suas lapelas são rígidas e, no tronco, há uma faixa que parece um cinto obi, típico dos trajes japoneses. Um deles é bege, como o clássico modelo pede, e o outro é de jacquard floral metalizado. A rigidez da alfaiataria convive, assim, com materiais mais ornamentais. Essa mesma tensão aparece em camisetas e vestidos que têm uma espécie de corset acoplado à gola. A estrutura que é feita para restringir, aqui não aperta o corpo. Do outro lado, estão os visuais amplos e drapeados, como os que trazem imagens de pássaros pintadas com tinta spray.
É a partir dessa lógica que a coleção chega à vida doméstica. Talheres são amassados e costurados a vestidos brancos, enquanto estampas florais de toalhas de mesa dos anos 1960 ganham versões plastificadas. Objetos cotidianos deixam de ser o que eram e passam a integrar a roupa. Mais uma vez, Glenn brinca com a percepção do que algo deveria ser.
![]() Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação |
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Essa mesma inversão aparece na maneira como ele trabalha o interior das peças, um dos pilares do trabalho de Martin Margiela. O forro é puxado para fora, como na jaqueta de couro masculina e nas golas dos trench coats, enquanto bodies e segundas-peles beges revelam aquilo que normalmente ficaria escondido.
No fim, é essa vontade de inverter funções e expectativas que parece definir melhor a coleção. Glenn não precisa recorrer o tempo todo aos códigos mais reconhecíveis da Maison Margiela para homenagear o legado de seu fundador. É ao encontrar uma forma menos autorreferencial de trabalhar a desconstrução que ele começa, de fato e pouco a pouco, a construir a sua própria linguagem para a etiqueta.

Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação

Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação

Maison Margiela, verão 2027. Foto: Divulgação
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