O traço escultural de Eero Saarinen

Nascido na Finlândia e naturalizado estadunidense, ele transformou a arquitetura dos anos 1950 com seus projetos ousados e, sobretudo, monumentais.


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Gateway Arch, monumento desenhado por Eero Saarinen, em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos. Foto: Getty Images



Um terminal de aeroporto que lembra um pássaro levantando voo, um monumento no formato de um arco imenso, com quase 200 metros de altura, um cilindro de tijolos com uma abertura no topo que ilumina um altar. 

Eero Saarinen mudou a paisagem estadunidense com obras que impressionam por suas curvas em concreto armado. Sinuosas, surpreendentes, elas sublinham construções projetadas entre os anos 1950 e 60. 

O prédio da companhia aérea TWA, em Nova York, foi inaugurado em 1962. O portal de St Louis, que rememora a expansão do país para o oeste, é de 1965. Já a capela do MIT (Massachusetts Institute of Technology) ficou pronta em 1955! Enquanto os dois primeiros trazem formas fluidas, como gestos que flutuam, a igreja é de total simplicidade: um abrigo sólido e silencioso, perfeito para a meditação.

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TWA Flight Center, no aeroporto JFK, em Nova York. Foto: Getty Images

Nascido em 1910, em Kirkkonummi, na Finlândia, Eero vem de uma família que respirava arte e arquitetura. A mãe, Loja, era designer têxtil e escultora. O pai, Eliel, arquiteto. A família, que incluía outra filha, se mudou para os Estados Unidos na década de 1920. 

Eliel e Eero Saarinen

Eero chegou a estudar escultura em Paris, mas deixava claro que nunca cogitou fazer algo diferente a não ser seguir os passos do pai, o que o levou à Faculdade de Arquitetura em Yale.

Embora os dois tenham feito sucesso na mesma carreira, seus estilos são completamente diferentes. O trabalho de Eliel partia das formas escandinavas medievais para colocar de pé projetos que bebem na fonte do art nouveau e do romântico, caso da estação ferroviária de Helsinque. Eero se arriscou por outros caminhos, mas cresceu literalmente sob as asas do pai.

Enquanto Eliel fazia os projetos, ele ficava debaixo de sua bancada, desenhando. Dizem que todos os dias pedia para Otto, um funcionário do escritório, desenhar um cavalo. Mais tarde, quando entrevistava alguém para trabalhar em sua equipe, ele repetia o mesmo pedido. O motivo? Ele sabia se o candidato era de fato um bom desenhista se conseguisse fazer a figura com apenas dois ou três traços. 

O início da carreira

Foi na Cranbrook Academy of Art, estudando escultura e design, que se tornou amigo de Charles e Ray Eames. A celebrada cadeira Tulipa é fruto dessa parceria.

Após um ano de estágio em Helsinque com o arquiteto Jarl Eklund, ele voltou aos Estados Unidos para trabalhar em um projeto de planejamento urbano no Michigan. Em 1938, entrou para o escritório do pai. Juntos, criaram uma escola em Crow Island, que se tornou referência para a arquitetura do pós-guerra. 

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Depois que o pai faleceu, em 1950, Eero mergulhou em projetos com pegada experimental, estabelecendo um vocabulário novo para a arquitetura, com formas esculturais e proporções grandiosas – algo que não se via até então. 

Seu primeiro trabalho com esse viés foi o centro técnico da General Motors, em Warren, no Michigan. Inspirado pelo estilo de Mies Van der Rohe, ele organizou cinco blocos modulares em torno de um espelho d’água. Para completar, circundou as construções com árvores, numa espécie de jardim de Versailles moderno. “A experimentação pode trazer grandes riscos, mas o risco maior é não explorar”, dizia. 

Daí em diante, ergueu uma série de projetos admiráveis, como o auditório Kresge, do MIT. A estrutura, com grandes panos de vidro e teto em forma de concha bipartida, fica de frente para a capela, também assinada por Saarinen, e mostra o interesse do arquiteto em propor uma nova linguagem para prédios públicos ou institucionais.

Vale a pena admirar seu traço em outras obras, para além das mais conhecidas, como o ginásio de hóquei de Ingalls, o aeroporto de Dulles, em Washington, a igreja North Christian, em Indiana, ou a sala de concertos Kleinhans, em Buffalo. 

As cadeiras e a famosa mesa Saarinen

A década de 1940 foi especialmente pródiga para o arquiteto. Ele se naturalizou estadunidense em 1940 e entrou com Eames em um concurso do Museum of Modern Art, de Nova York, para a mostra Organic Design in Home Furnishings. 

Os dois venceram a competição nas categorias cadeira (com o modelo Orgânica) e sala de estar, o que garantiu que suas peças fossem para lojas de departamentos. A exposição abriu em 1941, no mesmo dia em que as vendas começaram, dando uma projeção enorme à dupla.

Na década seguinte, Eero continuou se desafiando a projetar mobiliário, com especial interesse pelo desenvolvimento de cadeiras – segundo a maioria dos designers, o móvel mais delicado de se criar, porque requer não apenas uma visão estética, mas também estrutural mais complexa.

Sua série de cadeiras de fibra de vidro que levam seu nome, em versões com e sem braços, parecem brotar do chão como flores. O mesmo vale para sua mesa, com um disco de mármore ou plástico apoiado sobre uma haste metálica única, como um pedestal.

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As icônicas cadeira e mesa Saarinem: pé de pedestal. Foto: Getty Images

“A parte debaixo de mesas e cadeiras tradicionais criam um mundo feio, confuso, agitado. Eu queria limpar essa confusão. Queria fazer da cadeira uma coisa só”, justificou. 

Para Eero, a função influenciava, mas não ditava a forma. Ele era capaz de se aventurar na estética sem se deixar tolher pelo propósito da peça, nem abandoná-lo pelo caminho. “Sempre desenhe uma coisa a considerando em um contexto maior. Uma cadeira em uma sala, uma sala em uma casa, uma casa em uma paisagem, uma paisagem em uma cidade”, pontificava. 

Além de workaholic (ele reclamava quando madrugava no escritório durante um feriado e não encontrava ninguém, e nos dias normais gostava que a equipe voltasse de casa depois do jantar para finalizar algum projeto), Eero era visionário, inquieto.

Eero Saarinen

Eero Saarinen, em 1958. Foto: Getty Images

Viveu intensamente a arquitetura até o último dia de sua vida, em agosto de 1961, quando morreu durante uma cirurgia para retirar um tumor cerebral, aos 51 anos. Não descansava a caneta enquanto não chegasse à perfeição em cada projeto. Crítico, sempre achava que era possível ir mais longe.

“Nossa arquitetura é humilde demais. Deveria ser orgulhosa, mais agressiva, muito mais rica e maior do que vemos atualmente. Eu gostaria de contribuir para expandir essa riqueza”, refletia. A julgar pelo conjunto de sua obra, pode-se dizer que sua ambição foi cumprida espetacularmente.

Para saber mais:

Documentário Eero Saarinen: The Architect Who Saw The Future, dirigido por Eric Saarinen, filho de Eero.
Os desenhos e projetos de Saarinen podem ser consultados no Centro Cranbrook para Coleções e Pesquisas.
O Smithsonian guarda documentos digitalizados de Eero e de sua segunda esposa, Aline, em seu acervo.

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