Vestir para passar

A moda e, mais especificamente, as roupas têm um papel essencial nas transformações e transições pessoais e emocionais de nossa vida.

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Roupas são significadores importantes na passagem do tempo. Servem como um registro estético de determinada época e contexto social, político, econômico e cultural. Acompanhar suas transformações ajuda a entender a história e nossa evolução. Podemos pensar em como os vestidos com corsets e camadas mil da Belle Époque, no começo do século passado, foram substituídos pelos looks desestruturados de silhueta reta e comprimento consideravelmente mais curto nos anos 1920. Como o glamour cerimonial e conservador dos anos 1950 precedeu a revolução jovem e sexual da década seguinte, ou como, dos libertários anos 1970, migramos para os burocráticos e corporativos 80.

É importante notar que essas mudanças não são puramente estéticas, como bem explica Hanayrá Negreiros, mestre em ciência da religião pela PUC-SP, pesquisadora e colunista de ELLE: “Elas acompanham rupturas, transgressões e conquistas sociais. Como nos anos 1960, com a minissaia e tudo o que aquela peça representou para as mulheres, ou o movimento Black Is Beautiful, com a aceitação e celebração, entre outras coisas, do cabelo afro”.

Mas, se roupas servem para demarcar mudanças sociais, não teriam elas o mesmo efeito sobre nossas próprias histórias, nossa própria vida?

Usamos branco no Réveillon, preto quando estamos de luto, explodimos em cores e brilhos com o êxtase do Carnaval, nos arrumamos rigorosamente para ocasiões formais e ainda reservamos nossos melhores looks para momentos de celebração ou qualquer acontecimento especial. Dependendo da religião, algumas datas também pedem trajes específicos, geralmente para marcar alguma transição, pessoal ou espiritual. Sem contar naqueles baques e transformações que nos viram do avesso e resultam num completo e extreme makeover. Seja lá qual for o rito de passagem, as roupas têm papel fundamental nessa travessia.

Apesar de sempre presente na história da humanidade, o termo “rito de passagem” só passou a ser assim conhecido, e discutido de maneira mais ampla, a partir do livro de mesmo nome do antropólogo franco-holandês Arnold van Gennep (1873-1957), publicado em 1909. Após estudar um vasto conjunto de dados etnográficos, ele identificou uma classe específica de rito que se tornou seu objeto de pesquisa principal.

Van Gennep divide os ritos de passagem em três tipos: os de separação, os de margem e os de agregação. Cada um deles expressa uma forma de transição. Por exemplo, nascimento e casamento são ritos de agregação, enquanto um divórcio e a morte, de separação. Já os de margem são um tanto mais complexos e imateriais. Eles assumem um papel central na análise ritual do antropólogo por revelarem a importância do espaço intermediário existente entre eles. São aqueles que envolvem questões ideológicas, filosóficas e religiosas até. Eles operam no limite do conhecimento e das normas ou tradições sociais e culturais dominantes.

Não por acaso, os ritos de margem são também chamados de liminares e os de separação e agregação, preliminares e pós-liminares, respectivamente. Pensa assim: primeiro, é preciso terminar, findar ou encerrar. A partir disso, entender, (re)conhecer, aceitar. E aí somar, compartilhar, incluir.

A moda tem uma peculiar similaridade com a característica liminar do rito de margem, como pensado por Van Gennep. É por meio dela que começamos a experimentar e construir nossa imagem. Escolhemos o que vestimos pensando em como queremos ser vistos pelos outros, pelo mundo. E isso dependente bastante de como nós mesmos nos identificamos, nos entendemos.

Tem um pouco a ver com aquela história da psicologia das roupas ou, num termo mais recente, da cognição da indumentária. E é importante falar sobre isso ao discutir a moda dentro dos ritos de passagem, pois envolve a desconstrução e a superação de algumas convenções, tradições e até do senso comum.

Desde 2012, quando os professores Adam D. Galinsky e Hajo Adam, da Northwestern University, publicaram um dos primeiros estudos sobre o tema, vários outros, científicos e teóricos, surgiram na sequência. De forma resumida, eles buscam entender como as peças que usamos afetam nosso psicológico.

Acontece que essa relação envolve relações um tanto mais complexas. Por exemplo, a leitura de determinado item do vestuário leva em conta uma série de construções estéticas, sociais e culturais na qual aquela roupa está inserida. O valor que damos a uma camiseta branca é diferente do de um terno. Quando esse julgamento envolve determinados corpos, a interpretação vem ainda mais carregada.

É só lembrar de quantos negros foram vítimas de violência policial ou assassinados por estarem na rua com um moletom encapuzado. O mesmo para as travestis e pessoas transsexuais mortas por vestirem o que lhes representam de forma mais humana, sincera e autêntica.

Muitas vezes, a maneira como queremos ser vistos pelo mundo envolve rupturas, quebra de paradigmas e preconceitos. O rito de passagem do eu construído para o eu verdadeiro é um processo de embate, confrontamento, desconstrução e reconstrução interno e externo. Daí a conexão da moda com o conceito de margem. Ser o que somos, o que queremos ser tem peso e as roupas podem aliviar ou fazer pesar esse fardo. Elas podem ser a origem e o destino dessa travessia. Depende de como escolhemos olhar para elas e vesti-las.