“É preciso ter muita garra para manter a floresta de pé”

Depois de uma imersão de quatro dias visitando comunidades do Acre e do Amazonas, a atriz Bruna Linzmeyer compartilha sua experiência na expedição da SOS Amazônia com a Nike e conta o que podemos aprender com o esporte para ajudar a preservar e regenerar as florestas brasileiras.

Para ganhar, é preciso entrar em campo. Para entrar em campo, é preciso de um time. É assim que o futebol, invarialmentemente, funciona. Todo jogo exige uma garra que se traduz na união das pessoas que estão com a bola no pé e também das que torcem, vibram e acompanham das arquibancadas ou dos bastidores. É dessa forma que a floresta também se constitui: em coletividade e sinergia com o plural. E é assim que Bruna Linzmeyer se apresenta: uma mulher extraordinariamente diversa, que acredita no poder do encontro e na soma de esforços por um objetivo em comum.

Recentemente, a atriz passou por uma experiência que reforçou essa fé no coletivo: em outubro, ela viajou pela região Norte do país para conhecer alguns projetos da ONG SOS Amazônia em parceria com a Nike, que contam com a participação ativa das comunidades locais . A comitiva, que teve também a reportagem da ELLE entre seus integrantes, partiu de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre, e foi até Guajará, no Amazonas. Durante quatro dias, Bruna pode conferir iniciativas como o Faça Florescer Floresta, que recupera áreas degradadas com a implantação do manejo agroflorestal por moradores da região, e o Projeto Quelônios do Juruá, que envolve as comunidades na proteção de tartarugas, tracajás e iaçás. No nosso site e nas nossas redes sociais, você pode conferir mais detalhes, fotos e vídeos da viagem.

Nascida em Corupá, interior de Santa Catarina, Bruna Linzmeyer foi para São Paulo ainda adolescente batalhar a vida como modelo. Acabou se encontrando mesmo na dramaturgia. Hoje, ela acumula mais de dez produções televisivas, outras tantas em filmes nacionais e internacionais, várias indicações a prêmios da categoria e muitos planos para o futuro. Em breve, poderá ser vista no filme Cidade Campo, de Juliana Rojas, e na série Notícias populares, de Marcelo Caetano. Fez ainda a voz de uma cobra no filme Se eu tô aqui é por mistério, de Clarissa Ribeiro, e atualmente está trabalhando na escrita de roteiros e outros projetos próprios.

Mesmo com a agenda profissional lotada, Bruna encontra tempo para marcar seu posicionamento na sociedade e é conhecida também pelo engajamento nas causas feministas e LGBTQIA+. Foi daí, por sinal, que veio seu interesse pelo futebol. “Comecei a entender que tinha um cruzamento que me interessava, porque muitas jogadoras da seleção brasileira são LGBT+. Isso me interessa no futebol, esses desvios que essas mulheres enfrentam, porque não é como se fosse fácil estar lá. Elas sustentam muita coisa para estar ali”, diz ela, que lembra de ter jogado vôlei quando criança porque futebol “não era coisa de menina”.

Hoje, no entanto, Bruna não se deixa intimidar por rótulos, sejam eles sexistas, sejam políticos. Na expedição à Amazônia, a camisa da seleção brasileira de futebol foi sua fiel escudeira do início ao fim da viagem. “Essa bandeira representa um Brasil, e ele tem muitas coisas, tanto ruins quanto boas. Como é que podemos assumir isso, ao invés de negar o que está acontecendo?”, diz a atriz.

Um dos elementos da coleção Veste a garra, da Nike, para a Copa do Mundo 2022 é a estampa de onça-pintada, uma referência à ferocidade do país no esporte e também a um dos animais mais emblemáticos do Brasil. A Amazônia tem a maior concentração de onças-pintadas no mundo, mas toda essa rica fauna está ameaçada pela degradação ambiental. A situação é cada vez cada vez mais alarmante: só em 2022, a região perdeu o equivalente a 2 mil campos de futebol por dia de florestas, de acordo com dados do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). “Se a gente é capaz de parar um país inteiro pelo futebol, como também puxar esse engajamento para manter as florestas em pé?”, questiona Bruna.

Assim como no campo, só é possível ganhar se houver coletividade. E garra, virtude que Bruna diz ver como essencial para reverter a destruição ambiental, foi o fio condutor de uma conversa sobre cotidiano, mulheres extraordinárias, camisa da seleção e o que podemos aprender com o esporte sobre a preservação e a regeneração da Amazônia. Confira a conversa com a atriz a seguir.

 

“Se a gente é capaz de parar um país inteiro pelo futebol,
como também puxar esse engajamento para manter as florestas em pé?”

 

O tema dessa ELLE View é “mulheres extraordinárias”. O que você entende por “extraordinária”? Qual é a sua visão quando escuta essa palavra relacionada a figura de uma mulher? 

Uau! Me vem muitas coisas na cabeça, mas, para tentar ser sintética, “extraordinário” é aquilo que está para além do cotidiano. E as mulheres, historicamente, são conduzidas para estar dentro de casa para cuidar do que é cotidiano, e não estar nas ruas, na política, nos palcos, na escrita dos roteiros. Apesar de estarmos trabalhando muito para mudar isso – e temos mudado –, sabemos que, historicamente, isso foi colocado. Uma das definições possíveis é a mulher que faz do cotidiano algo extraordinário. O trabalho não remunerado da casa, os filhos e o cuidado e o afeto com as pessoas são atividades que são ordinárias, mas que se tornam extraordinárias, porque a gente é muito inteligente.

 

O que a gente viveu durante os quatro dias de expedição no Acre e no Amazonas foi uma história muito particular. O quanto isso foi transformador para você?

Eu estou rodeada por tudo o que a gente viveu, agora sonho com isso. Tem muita coisa que posso contar, mas tem coisas que só conseguimos vivenciar estando diante da nossa pele e dos nossos olhos. Tem a ver com o quão poderoso é as pessoas trabalharem juntas. A potência do coletivo, do engajamento comunitário, de quando um grupo de pessoas que está rodeado de um tema, de uma terra, resolvem fazer algo juntas, trabalhando juntas, pensando, dedicando seu tempo e seu amor pra isso, acho que foi a coisa mais poderosa que a gente viu. O grupo da própria SOS Amazônia: eles só existem porque estão juntos, estão todo tempo articulando olhares, trocando informações invisíveis enquanto estamos ali na imersão. O trabalho de articulação entre as próprias comunidades, que é o resultado da atuação da ONG, juntando as famílias, os vizinhos, é poderoso demais.

 

Como a coletividade atua na sua vida, não só como atriz, mas também como mulher?

Eu nasci em uma cidade pequena, isso faz com que esse senso de coletividade esteja muito presente, para o bem e para o mal. Essa troca comunitária de cidade pequena é muito presente na minha vida. Um outro senso é a comunidade LGBT+. Fui muito acolhida quando precisei. As pessoas sempre falam o quanto é importante o que falo nas redes, o fato de não esconder que namoro mulheres, mas pouca gente tem dimensão do quanto fui acolhida. O senso de comunidade das pessoas lésbicas, bissexuais e trans com que eu convivia me dava muita certeza do caminho e de quem eu era. Enquanto eu duvidava de mim, aquelas pessoas não duvidavam. Outro senso de coletividade grande na minha vida é o meu trabalho. Quando falamos de audiovisual, é um trabalho coletivo. É impossível fazer um filme sozinho. Atuar é sobre troca, escuta, jogo de ir e vir.

 

Pensando na coletividade que vivenciamos lá com o futebol: em algum momento da sua vida você teve relação com o esporte? E como você vê essa relação do futebol com a coletividade da vida? 

Eu não jogava futebol, as meninas jogavam vôlei. Fui me aproximando do futebol a partir do universo LGBT+ e feminista, em que compreendemos que “o Brasil é o país do futebol”. Mas qual futebol? Futebol masculino, não é? E as mulheres no meio disso? Eu fui me aproximando a partir de uma perspectiva feminista do futebol. Comecei a entender que tinha um cruzamento que me interessava, porque muitas jogadoras da seleção brasileira são LGBT+. Isso me interessa no futebol, esses desvios que essas mulheres enfrentam, porque não é como se fosse fácil estar lá. Elas sustentam muita coisa para estar ali. Enfim, isso me interessa: fazer do cotidiano algo extraordinário. Tem também o fato dele estar ligado à diversão. Já me fiz essa pergunta uns anos atrás: o que eu faço da minha vida que não é trabalho? O que eu faço no meu cotidiano que não é trabalho? Para mim, ir ao cinema acaba sendo trabalho, fazer um curso de fotografia também, então, me pergunto: o que eu faço da minha vida por pura diversão? Foi aí que comecei a nadar. Essa dimensão de diversão que o esporte tem é muito poderosa, criamos relações nos divertindo. É importante deixarmos que esses hormônios, que são liberados enquanto a gente corre, possam resolver algumas questões que algumas conversas não conseguem solucionar. Às vezes, é jogando uma bola que você resolve algumas coisas com você mesmo e com as outras pessoas. O esporte é muito poderoso.

 

“Acho que a garra tem a ver não somente com sobrevivência,
mas com conquistar esse prazer, diversão e afeto, que são cotidianos.”

 

E você continua fazendo natação? 

Comecei a nadar no mar em 2021 e morro de medo de onda. (risos) Tudo começou porque a Marta (namorada de Bruna) queria que a gente surfasse juntas, ela adora surfar. Eu nado uma vez por semana. Tenho me aproximado das ondas. Tem uma esquina do mar em que eu nado e tenho pedido à professora para irmos até lá, perto das ondas que quebram em alto-mar. Eu chego perto e, ao mesmo tempo em que morro de medo, grito em cima da boia, olho fascinada. É uma mistura de fascínio, medo, desespero e alegria. E acho que isso é uma coisa importante pra vida também, que as coisas não são uma só. Tem uma coisa importante para gente lidar, com medo ou com as coisas trágicas que ocorrem na vida: é a gente assumir que elas existem. Porque tem um processo muito importante do trauma que é a negação: é você fingir que não está acontecendo. E, de alguma forma, estou associando muito isso ao que a gente viveu em relação à Amazônia, à floresta, ao desmatamento. Você assumir que a terra fica seca se você só plantar milho a vida inteira. Você precisa assumir que a floresta está caindo para, realmente, colocá-la de pé.

 

Isso requer coragem, não é? O que significa para você essa coragem, essa garra brasileira?

Não à toa você começou com “mulher extraordinária”. Acho que a garra tem a ver não somente com sobrevivência, mas com conquistar esse prazer, diversão e afeto, que são cotidianos. Em algum momento na entrevista, me veio essa frase “é preciso ter muita garra para manter uma floresta em pé”. Não é só jogar a semente. Existem processos que são cotidianos. Tem que fazer a semente germinar, transferir a semente para uma terra, aguar todos os dias, preparar o solo… É um trabalho de meses, anos, você tem que estar lá todo dia.

 

É muito interessante isso que você coloca sobre o tempo. Como você lida com essa relação com o tempo? De alguma forma, ele se conecta com o esporte?

Morando na cidade e lidando menos com as coisas da terra, a gente manipula o tempo. A natureza tem um ritmo próprio e, conforme você está próximo dela, seu coração está batendo nesse ritmo. Então, se a gente é capaz de parar um país inteiro pelo futebol, como também puxar esse engajamento para manter as florestas em pé, não é? Eu não sei a resposta, mas ela existe. Se essa pergunta é possível, a resposta é também, talvez o exercício seja essa investigação: o trabalho que a SOS Amazônia faz, e o apoio da Nike à causa, é a possibilidade de trazer respostas a essa pergunta.

 

Num contraponto a essa essa paixão nacional, o uso da camisa da seleção foi muito politizado nos últimos tempos, mas já se vê um movimento por parte dos torcedores para se reapropriar desses símbolos. Qual é a sua reflexão sobre isso?

Quem deixou de usar a camisa da seleção? As periferias não deixaram de usar, não somente a do Brasil, mas todas as camisas de times. Acho que essa pergunta é uma pra se colocar: “Quem deixou de usar essa camisa?” A bandeira representa um Brasil, e ele tem muitas coisas, tanto ruins quanto boas. Como é que podemos assumir isso, ao invés de negar o que está acontecendo? Como é que podemos engajar o futebol pela floresta? Pelas mulheres? Pelas pessoas negras e indígenas? Como trazer essas pautas tão estruturais para o nosso dia-a-dia?

 

Como você imagina que podemos chegar a esse novo mundo possível?

Olha, não tenho respostas, mas tenho alguns comentários e perguntas de novo. Eu acho que não vai ser um filme de final da tarde, não terá um final feliz, um filme em que nada mais de ruim está acontecendo e todas as pessoas são boas. Não existe. A gente está disposta a lidar com a contrariedade e complexidade de cada um de nós, inclusive a nossa? Então, essa dinâmica do filme do final da tarde, esse filme da Disney, que vai chegar alguém para salvar a gente e tudo vai ficar bom e perfeito, isso nunca vai acontecer. Acredito que esse mundo novo está acontecendo. Ao mesmo tempo em que ele está sendo destruído, ele está se construindo.

 

Fotografia e drone: Gustavo Dantas, mavo.co
Direção: Sabrina Duarte
Direção de fotografia: Maria Navarro
Som Direto: Maiara Pinho de Oliveira
Trilha Sonora: Matheus Tiburcio
Layout: Julia Capanema