O guia definitivo para comprar second hand

Saiba como conseguir aquele vintage desejado sem levar pra casa gato por lebre.

Se os últimos tapetes vermelhos que você acompanhou pareceriam ter mais looks de 2003 ou até de 1993 do que de 2023, é isso mesmo. Cerca de dois anos atrás, peças vintage se tornaram tão populares entre as celebridades que, para o público, pode parecer uma tarefa fácil conseguir um. Basta um stylist ligar para a marca desejada, pedir para que ela vasculhe o seu extenso e catalogado arquivo e, voilá.

Mas não é bem assim que funciona. Em alguns casos específicos, os itens vintage usados por artistas são, sim, emprestados das casas de moda. No entanto, esse são casos raros. Na maioria das vezes, aquelas roupas foram rastreadas, compradas e restauradas por caçadores de antiguidades – um negócio em plena ascensão, que demanda muito tempo, dinheiro e persistência.

Das bolsas Kelly mais difíceis de serem adquiridas até os acessórios excêntricos vistos apenas nas passarelas da Dior sob comando de John Galliano, há tesouros preciosos no mercado de segunda mão. 

O seu crescimento online, porém, trouxe algumas complicações. Para pares de olhos pouco treinados, isso pode significar um golpe; para clientes indecisos, uma angústia. 

Pensando nisso, listamos a seguir tudo que você precisa saber antes de limpar seu carrinho de compras virtual com alguma raridade de tempos outros. Confira:

1
Faça sua lição de casa

Se você não tem dezenas de guias abertas em seu navegador, é possível que não tenha feito pesquisas o suficiente. Para uma compra bem-sucedida, consultas prévias em sites, fóruns e redes sociais podem fazer a diferença. Caso ainda possua dúvidas, dê preferência às plataformas ou aos vendedores receptivos e dispostos a fornecer mais informações e fotos do produto. Afinal, eles não devem ter nada a esconder.

2
De olho na autenticidade

“Os golpes são frequentes e vão se tornar cada vez mais comuns”, diz Paula Frank. A empresária baiana, que possui lojas de produtos de luxo seminovos em Salvador e em São Paulo, considera fundamental a exigência da nota fiscal por parte do cliente. “Busque uma empresa consolidada no mercado, que tenha domicílio físico. Quando se deparar com preços abaixo do ticket médio, desconfie”, aconselha.

Fiorella Mattheis, à frente da Gringa, e-commerce de revenda de moda, concorda: “Evite comprar em grupos de WhatsApp ou Instagram. Procure plataformas que garantam a autenticidade do item”. Fundada em 2020, a empresa, com sede no Rio de Janeiro, possui uma equipe de especialistas que analisa cada produto de acordo com suas próprias especificidades de cor, material, tipografia e logo. 

A ausência de uma avaliação controlada, individual e minuciosa como essa parece fazer falta em marketplaces de diferentes revendedores, como o Enjoei e o Mercado Livre. Com um número expressivo de itens falsificados em seus sites, ambas as companhias não responderam aos questionamentos da reportagem até o fechamento desta matéria. 

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3.
O céu não é o limite (se você não é milionário)

Para entusiastas de moda, a emoção de ir à loja e levar a compra para casa pela primeira vez é dificilmente replicada. “É uma conquista muito especial”, comenta Fiorella. A carioca acredita, porém, que para uma aquisição bem sucedida o item escolhido deve estar dentro do estilo e orçamento da cliente. “Dentre os modelos mais acessíveis para a entrada no mercado de luxo, destaco a bolsa Neverfull, da Louis Vuitton. É versátil, espaçosa e se encaixa em diferentes ocasiões. Para quem está disposto a pagar um pouco mais caro, a Double Flap da Chanel é um clássico”.

4.
Aposte na bolsa, literalmente

Em um varejo cada vez mais circular, escolher uma bolsa que potencialmente irá aumentar de valor 一 em moeda e em seu coração 一 é uma escolha sábia. “Diria que itens da Louis Vuitton, Chanel e Hermès são bons investimentos”, opina Paula Frank. “A Vuitton por ter o melhor couro do mercado, com uma resistência maior que a das outras marcas. A Chanel por, a cada ano, ter um upgrade de 20% sob o valor de venda. E, por fim, a Hermès pela raridade e dificuldade de acesso às peças.”

5.
Estragou, revitalizou? Considere os custos

Em brechós, encontrar itens desgastados pelo tempo é bastante comum. Os seus valores mais baixos podem até ser uma justificativa para concluir a compra. Antes, porém, é necessário estar ciente de como a sua revitalização funciona. “É um processo complexo. Muitas vezes, a reforma é mais complicada do que a própria fabricação”, afirma Sabrina Brandão, gestora da Sapataria Barone, localizada em São Paulo há mais de 60 anos. Ela explica que o método, com custos variados entre 200 a 20 mil reais, é extremamente artesanal e demanda uma mão de obra bem específica. 

No último mês, algumas de suas reformas mais impressionantes viralizaram nas redes sociais. Entre elas, há não só o reavivamento do couro, como também mudanças nas cores das bolsas e sapatos da Chanel, Bottega Veneta e Balenciaga. Entretanto, Sabrina alerta: “O couro legítimo é um material de alta durabilidade, mas a depender do estado em que se encontra pode não ser possível promover a sua recuperação. Por isso, é tão importante realizar a manutenção periodicamente”.

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6.
Em casos de arrependimento

O vintage chegou e não atendeu às suas expectativas? Fique tranquila, você poderá devolvê-lo, desde que esteja atenta às datas. No Brasil, o direito de arrependimento é previsto pelo Código de Defesa do Consumidor para compras presenciais e online. No entanto, o cliente deve informar o descontentamento à empresa, solicitando o reembolso, em até sete dias desde o recebimento do item. Caso esteja dentro do prazo, o valor pago deverá ser restituído. Se já tiver ultrapassado, a marca não possui qualquer obrigação de aceitar a devolução.

7.
Não tem no Brasil

Mesmo com a cotação alta das moedas internacionais, pode ser tentador escolher uma opção vinda do exterior. Graças aos avanços tecnológicos, o processo se tornou mais simples nos últimos anos, mas, além de se certificar de todos os itens anteriores, neste caso, ainda é preciso ter atenção aos impostos para evitar possíveis surpresas. 

Desde o mês de março, há uma série de medidas sendo estudadas pelo governo que, caso avancem, poderão causar alterações na fiscalização alfandegária. Até o momento, de acordo com as regras vigentes, quando se trata de compras feitas por pessoas físicas, qualquer carga com um valor acima de 50 dólares pode ser taxada. 

É na alfândega que os departamentos responsáveis agem, comparando o que foi declarado com o que realmente existe no pacote e avaliando se existe alguma chance de contrabando. Geralmente, os pacotes mais propensos a serem taxados são os que pesam mais de 2 kg e os que transportam produtos tecnológicos, como celulares e videogames.

Nada disso, porém, garantirá que a sua bolsa esteja isenta de tarifas extras. Se escolher receber em casa, o valor a ser pago, calculado na moeda estadunidense, é obrigatório e representa 60% do preço total da compra.

8.
Paciência importa

O maior segredo para adquirir tesouros antigos, talvez, ainda seja a calma. Com as soluções atuais, nos acostumamos a poder comprar o que queremos, quando queremos. Mas, ao se tratar de peças raras, talvez elas não possam ser encontradas na primeira, nem na segunda procura. Prometemos, porém, que quando você finalmente encontrá-las, irá apreciá-las ainda mais. A compra de nenhum item novo te oferecerá a sensação imbatível de possuir um pedaço da história da moda.