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A imagem de Christian Dior ajoelhado com uma fita métrica, medindo a distância entre o chão e a barra de uma saia, tem pouco mais de 50 anos, mas parece ainda mais distante no tempo em comparação com os dias atuais. Hoje, os centímetros (ou metros) entre o fim de uma peça e o chão já não têm tanta importância. É que liberdade é a palavra da vez e a minissaia tem muito a ver com isso.

Nas últimas temporadas, sua presença foi expressiva. Seja em tons mais neutros (como na Chanel de Virginie Viard) ou em paletas mais vibrantes (a aposta de Anthony Vaccarello na Saint Laurent), o comprimento recebeu destaque. Até mesmo a Dior, conhecida pelos comprimentos alongados ou mídi da volumosa saia do New Look, de 1947, apresentou uma versão metalizada, 100% inspirada na Pop Art, em sua coleção de outono 2021.

Nos anos 1960, quando surgiu, a minissaia foi igualmente celebrada. Nas mãos de Mary Quant – e nas pernas de Twiggy –, a peça se tornou uma obsessão. Entre os estilistas franceses da Era Espacial, como André Courrèges, a peça era indispensável para o imaginário futurista e, com os varejistas estadunidenses, conquistou fama global.

Ícone da juventude londrina, o item foi um ato de libertação e rebeldia contra uma geração de adultos conservadores. Tendo acompanhado a chegada do homem à Lua e a dos anticoncepcionais nas farmácias, a peça cobriu distâncias sociais e culturais infinitamente maiores do que seu comprimento. E, se continua nas passarelas hoje, é porque ainda tem muito a dizer.

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Inocência rebelde

Os primeiros baby boomers ingleses, nascidos logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, alcançaram a juventude na década de 1960. Prontos para começar um futuro profissional – na arte, moda e design, campos de estudo incentivados pelo governo local após final dos conflitos –, esses jovens não se viam trabalhando nos mesmos moldes nem sob os mesmo valores de seus pais.

Manifestantes em frente \u00e0 Dior, em Londres, protestando a favor da minissaia, em setembro de 1966 Manifestantes em frente à Dior, em Londres, protestando a favor da minissaia, em setembro de 1966.Foto: Getty Images

Entre os novos estilistas, a solução foi natural e unânime: abrir as próprias boutiques, ainda que longe dos centros comerciais, para escapar de aluguéis caros. O resultado foi revolucionário. Pela primeira vez, os jovens eram compradores e vendedores.

Um pouco mais adiantada foi Mary Quant, que, em 1955, já havia inaugurado a Bazaar, na King's Road, no bairro do Chelsea, em Londres. A loja, que seria um sucesso nos anos seguintes, estava alinhada às preocupações da geração: criar uma moda que refletisse o espírito da juventude londrina.

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Vestidos coloridos, sapatos de boneca e cortes de cabelo realçavam a estética infantil desejada, assim como o corpo magro, com as pernas expostas pela minissaia. As modelos Twiggy, com suas três camadas de cílios postiços, e Jean Shrimpton, incorporaram idealmente esse "Chelsea look". O visual era também uma forma de desafiar as convenções sobre a sexualidade feminina.

Loucos por míni

A origem da minissaia é um tanto incerta. Mary Quant já havia começado a experimentar com o comprimento em 1958, mas as primeiras manifestações expressivas do item vieram na década seguinte. O inglês John Bates, por exemplo, assinando com o nome francês de Jean Varon, introduziu saias de plástico transparente, na altura da coxa, em 1962.

Mary Quant recebendo a OBE, em 1966 Mary Quant recebendo a OBE, em 1966.Foto: Getty Images

Barbara Hulanicki, fundadora da Biba, foi uma das criadoras que ajudaram a tornar a peça um ícone londrino. A dupla Sally Tuffin e Marion Foale também fez parte do fenômeno, abrindo uma loja na concorrida Carnaby Street. Junto com Ossie Clark, Zandra Rhodes e Sylvia Ayton, as duas fizeram acordos para vender suas criações na Paraphernalia, boutique futurista nova-iorquina inaugurada em 1965.

Em Paris, o responsável por popularizar o estilo foi André Courrèges, com sua coleção Garota Lunar, em 1964. Por lá, Paco Rabanne também explorou o comprimento, com sua coleção Body Jewellery, de 1966. No mesmo ano, por suas contribuições para a moda inglesa, Mary Quant foi agraciada com a Ordem do Império Britânico – e foi à cerimônia formal com um minivestido!

Mais para cima, mais para baixo

O ano de 1969 marcou o auge da minissaia. Mas o encurtamento obsessivo da peça atingiu o ponto de saturação fashion e o retorno de saias e vestidos mais longos se mostrou a melhor alternativa. Tem a ver não só com o fator cíclico da moda, mas também com as variações de humores e valores sociais. Aos poucos, a obsessão jovem e a revolução sexual, iniciada na década de 1960, começou se pluralizar e se distanciar do culto ao corpo quase sempre magro e exposto.

Modelos chegando \u00e0 loja Biba, em Londres. Modelos chegando à loja Biba, em Londres.Foto: Getty Image

Além disso, as boutiques independentes de Londres não conseguiam competir com os níveis produção e venda internacionais dos grandes varejistas estadunidenses. A Biba, por exemplo, fechou as portas em 1975, depois de apenas uma década de existência, enquanto Mary Quant decidiu apostar em maquiagens e roupas de cama. Sem o fervor da juventude, a minissaia perdeu protagonismo.

A partir dos anos 1970, o item foi incorporado ao estilo dos punks, que combinavam a peça com meias-arrastão, jaquetas de couro, camisetas rasgadas e penteados rebeldes. Na primavera de 1985, Vivienne Westwood revisitou a peça em sua coleção Mini-Crini, com uma versão supercurta das saias vitorianas, estruturadas por crinolinas (por isso o nome).

As minissaias também fizeram parte de outro movimento nos anos 1980: o power-dressing. Adotado pelas mulheres yuppies (geração seguinte aos baby boomers), esse estilo, marcado pela alfaiataria com um twist de cores vibrantes e volumes nos ombros, definiu a presença feminina no ambiente corporativo. Por esse motivo, as saias passaram a acompanhar constantemente meias-calças opacas.

Malcom McLaren e Vivienne Westwood. Malcom McLaren e Vivienne Westwood.Foto: Reprodução

Yves Saint Laurent, alta-costura 1987-88. Yves Saint Laurent, alta-costura 1987-88.Foto: Divulgação

Chanel, ver\u00e3o 1995. Chanel, verão 1995.Foto: Getty Images

Yves Saint Laurent explorou o visual em sua coleção de alta-costura no inverno de 1987, repetindo o comprimento no desfile seguinte. Modelos similares também começaram a ser vendidos na Saint Laurent Rive Gauche, sua boutique de prêt-à-porter aberta vinte anos antes, ao mesmo tempo que aquelas de Londres.

Na década de 1990, comprimentos maiores voltaram a ter preferência nas passarelas, mas ainda era possível encontrar uma minissaia presente aqui ou ali. É o caso do desfile de prêt-à-porter primavera 1995 da Chanel, idealizado por Karl Lagerfeld, um desvio significativo de sua preferência, na época, por barras nos joelhos.

That's Hot

A redescoberta da sensualidade no fim da década e a obsessão pelo corpo bronzeado no início dos anos 2000 marcaram a entrada triunfal da minissaia no século 21. O culto à uma nova geração de celebridades ressuscitou a peça, que logo ficou associada a figuras como Lindsay Lohan, Britney Spears, Nicole Richie e, principalmente, Paris Hilton.

Em 2000, a herdeira nova-iorquina posou para o fotógrafo David LaChapelle, naquela que seria uma das imagens mais icônicas da época. Usando uma microssaia cor-de-rosa com uma fenda lateral, Hilton afirmou sua juventude rebelde na sofisticada sala da casa dos avós. Tão marcante quanto a estética que ajudou a firmar foi a frase de efeito que usava para aprovar aquilo que considerava sexy: "that's hot".

Paris Hilton em foto de David LaChapelle na casa de sua av\u00f3. Paris Hilton.Foto: David LaChapelle

O delírio pelos comprimentos curtos sofreu com a popularização do street style na década de 2010, a tendência crescente de estilos sem gênero e de peças confortáveis, com modelagens mais largas. Grandes casas de moda, como a Gucci, também abandonaram a minissaia em prol de estilos mais retrôs. Antes de 2016, quando Alessandro Michele assumiu a marca, o item era presença constante nas passarelas.

Pode até ser, para alguns, que menos não é mais quando o assunto é a minissaia. Mesmo que já não tão revolucionária, seu valor continua na sua comunicação atemporal. O diálogo com a juventude é tão atual e cheio de personalidade hoje quanto há 60 anos. Se as roupas pudessem falar, as minissaias gritariam! E a moda gritaria de volta, em celebração ao ícone.



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