Moda

Acabou o algodão?

Estilistas e profissionais respondem à pergunta que tem impacto direto no valor que pagamos em nossas roupas.

Ilustração @viamagalhaes
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Já vai comprar a roupa branca do réveillon? Saiba antes que, pelo menos no Brasil, ela é o novo arroz do mercado. Assim como o aumento acumulado no ano de 19,25% no preço do grão que abastece do nosso prato feito ao japonês, a camiseta do aguardado Feliz 2021 – e também a calça jeans, a calcinha colorida e tudo mais feito de algodão – deve subir de preço. O quanto ainda é mistério, porque vai depender do percentual que as marcas, varejistas e tecelagens vão repassar para você.

O assunto veio à tona no final de setembro, via redes sociais, numa "thread" do perfil "Usebrusinhas", sobre escassez de tecidos que as marcas estão enfrentando na hora de produzir suas coleções. Em resumo, a falta de algodão e fio seriam os fatores dessa desordem, porque estariam sendo exportados a mais e vendidos por aqui de menos. Afinal, o dólar no patamar de R$ 5,6 alavanca a saída. O buraco feito por essa traça que corrói nossa moda é bem, mas bem mais embaixo. Mas, antes de entendê-lo, é necessária uma breve explicação sobre o agronegócio nacional.



Do plantio ao seu guarda-roupa

Primeiramente, há um consenso no mercado de que há um boom na produção de commodities, as matérias-primas da vida cotidiana hiperconsumista. O Brasil é há anos um dos líderes de vários desses segmentos, como a soja, o milho, a carne e o algodão. É motivo de orgulho que tenhamos nesta última safra que acabou de ser concluída, a de 2019-2020 (o primeiro ano é o do plantio, e o segundo, da colheita), chegado ao recorde de 2,9 milhões de toneladas de plumas colhidas.

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Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), estima-se que de 90 a 95% do algodão será exportado e o restante ficará no país para abastecer nossa produção, ou seja, cerca de 720 mil toneladas. Essa conta é feita com base em acordos com o setor.

O percurso do algodão funciona assim: após plantio e colheita, a pluma de algodão chega nas mãos do traders, responsáveis por vendê-la às companhias nacionais e internacionais para ser fiada. Os valores são cotados em dólar, na escala em libras (2,204 para cada quilo), em um índice que varia conforme a famosa lei de demanda e oferta mundial. Por ora não falta algodão no mundo, mas ele muda de valor por pressões externas, com variantes que vão desde o apetite dos grandes mercados em consumir a matéria-prima, até as guerras comerciais, como a travada pelos Estados Unidos e pela China, que prenunciam demandas nesse ou naquele país.

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Futuro incerto

Quem compra, claro, aproveita movimentos de baixa para comprar algodão em preços pré-fixados, e, no auge da pandemia, esse valor chegou em mínimas históricas, a cerca de US$ 0,48 a libra de algodão. Isso porque o mundo parou, inclusive as fábricas. Mas quando a Covid-19 arrefeceu na China e nos mercados asiáticos de forma geral, os pedidos voltaram com força e, com isso, o preço voltou a subir – e o dólar, ao mesmo tempo, em comparação ao real, também.

Plantação de algodão.Foto: Carlos Rudney | Abrapa

Paralelo a isso, as fiações começaram a recompor o estoque, mas o insumo ficou mais caro e o futuro ainda é nebuloso demais para religar as máquinas a todo o vapor. A recuperação asiática acelerou o volume das exportações do algodão que já estava beneficiado, e os comerciantes seguraram o preço mais alto, flutuando ao sabor do dólar. Ou seja, para a fiação brasileira, ficou mais caro fiar. Operar as fábricas na sua máxima capacidade custa caro e sem saber ao certo qual será a demanda nos próximos meses e ano, é um risco que ninguém está podendo assumir no momento.

É um dos custos menos flexíveis de toda a cadeia, e, não à toa, é um dos segmentos que mais sofreu na última década, com fechamentos consecutivos de unidades fabris em todo o país. Só São Paulo, entre 2012 e 2016, perdeu 18 fiações, e a concorrência com a importação asiática não ajudou neste cenário.

Nossas fiações têm menos manejo para responder a uma derrocada nos pedidos, cancelados no auge da pandemia da Covid-19, e também para responder ao mercado quando eles voltam. E, aí, chegamos ao presente. Dólar alto, demanda internacional aquecida e incerteza sobre o próximo ano, fazem os olhos de quem produz algodão se voltarem para o mercado internacional.

Segundo depoimentos de profissionais do setor ouvidos pela reportagem, o preço do quilo de um fio penteado 30, relativamente simples se comparado aos luxuosos que vimos nesta última temporada de desfiles, subiu de R$ 17 para R$ 24. Como será o consumo no futuro, porém, é uma grande incógnita.

Parte do mercado acredita que a recuperação atual no varejo esteja atrelada ao auxílio emergencial de R$ 600 distribuído pelo governo. Com sua diminuição para R$ 300, é provável que haja uma queda nesse quadro. Para 2021 a previsão é de um dos piores anos da história para o vestuário. Outra parcela, mais otimista, vê um aumento de demanda no ano que vem. No meio, estão os confeccionistas, que ao mesmo tempo em que colocam sua produção no alto, não contratam – e até demitem, pelas perdas dos últimos meses – para produzir os desenhos de roupas que chegam vindos das marcas que já planejam o inverno.

Entrelinhas...

O fato é que venda de vestuário no Brasil sobe puxada por essa demanda, e de julho para agosto, segundo o IBGE, a um percentual de 30,4%, o maior de todos os segmentos do varejo. Por um lado, vende-se, mas na base, o desajuste de preços e a pouca oferta de insumos freia quem precisa criar.

É o caso do estilista Isaac Silva, que neste mês terá de repassar em loja os 40% a mais que chegaram para ele na produção das linhas de produto de malharia. "No isolamento, as fábricas pararam de produzir, e agora estamos tendo de arcar com esse aumento que veio de repente", lamenta o designer, que tem como um dos motores das vendas a linha de malha e denim Acredite no Seu Axé. Silva, um dos expoentes da nova geração, não tem o mesmo poder de compra das grandes redes de vestuário, que conseguem preços melhores por comprar em escala.

Isaac Silva.

Foto: João Bertholini


Porém, mesmo grifes com escala maior, como é o caso de Raquel Davidowicz, dona e estilista da Uma, sofrem com a alta dos preços na cadeia. Ela não consegue, neste momento, nem estampar uma camiseta para a próxima coleção que lançaria já em novembro. "Nos preparamos bem para o inverno, mas acabei de receber uma ligação do fornecedor de zíperes dizendo que o preço aumentou em 10%, o que já acumula 20% de alta. Já a malharia, do sul, não tem insumo para produzir a tinta para estampar, e até dezembro, me disseram, 'esquece'", diz ela.

Se nada mais subir de preço, ela estima que seu inverno custará na vitrine pelo menos 15% mais, porque, segundo ela, "exportam o que é melhor, e para a gente, sobra o resto". As malharias sofrem de todos os lados. Além do fio estar escasso, tintas, químicos e até mesmo maquinário, que assim como o algodão são "dolarizados", sofrem com câmbio em patamares impraticáveis para uma indústria fragilizada pela alta demanda internacional.

Uma das maiores malharias do país, a Dalila Têxtil viu o preço do fio crescer de 30 a 35%, e, hoje, estima repassar um aumento de 20 a 25% no preço do tecido. "De agosto para cá, todo mundo começou a fazer pedidos ao mesmo tempo, e só não consegui colocar a produção no máximo porque não tem matéria-prima, que é 90% nacional", explica o presidente da Dalila, André Klein.

A empresa está em Jaraguá do Sul (RS), no mesmo polo em que outro grande fornecedor, a Malhas Menegotti, que segundo clientes também enfrenta problemas no abastecimento de insumos. "E mesmo se todas as fiações ligassem todas as máquinas, o que é irreal nesse momento, porque do ponto de vista do negócio você tem que respeitar fluxos financeiros e capital de giro para não dar passo errado, ainda assim não teríamos capacidade de fiar toda a demanda. Vivemos um processo de que todo mundo está desenvolvendo a cultura de exportação, sem balancear o que será do mercado interno. Haja bola de cristal para prever o próximo ano", diz Klein.

"O que precisamos mudar, e logo, porque os mercados maduros já estão mudando, é essa forma de plantar e consumir. Ela não segura por muito tempo, e a pandemia está provando isso, fazendo todos sentirem na pele" – Francisca Vieira, da Natural Cotton Color, da Paraíba.

De mãos atadas também está quem importa o fio. Os sintéticos, em sua maioria, vêm dos países asiáticos, trazido em containers que, antes da alta do dólar, custavam cerca de US$ 400 a US$ 500 cada. Pouco antes da pandemia estavam no patamar de US$ 2.500 e, agora, estima-se que cheguem na casa dos US$ 4.000. Isso significa que não há para onde correr. Está tudo caro, mesmo.

"O processo de desindustrialização do país e o pensamento de commodity nos expõe cada vez mais a essas oscilações", lamenta Klein, que calcula um aumento médio para o consumidor de R$ 10 numa camiseta básica do comércio popular e de pelo menos R$ 20 numa marca de moda.

Isso vale também para quem fia, tece e compra o algodão direto do trader, como é o caso da Vicunha Têxtil. Estima-se que, dos cerca de 700 mil toneladas de fardos de algodão nacional, a empresa com sede em Maracanaú (CE) compre 100 mil. Seu presidente, José Maurício d'Isep, afirma que o problema é entender o tipo de demanda que irá surgir no próximo ano, porque ligar todas as máquinas com o risco de haver uma sobreoferta de tecido é arriscado e, nesse momento, "que os bancos não estão liberando crédito, fica complicado fazer movimentos rápidos".

A Vicunha é especializada em jeans e fornece para praticamente todas as marcas e varejistas do país que você conhece. D'Isep calcula que, para a empresa, houve um aumento de 10% no custo da produção porque o algodão responde por 35% do insumos – já foi 40%, antes da inclusão de mais sintéticos no fio – e deu "uma estilingada" de 30% que balançou as expectativas de retorno da empresa.

"Mas é um aumento momentâneo, até entendermos como o mercado vai se comportar e as fábricas voltarem à normalidade. É possível, porém, que no próximo ano haja um aumento ainda maior nas exportações de algodão porque a produção americana foi impactada pelas queimadas na Califórnia e é possível que o preço aumente", explica.

Do aquecimento global à sustentabilidade

A crise climática é outro fator decisivo que precisa ser levado em conta e, de forma geral, o Brasil ainda não sofre como outros países. Os Estados Unidos, o maior exportador do mundo e com maior área plantada, sofre com as oscilações e precisa irrigar seu algodão. Aqui, por enquanto, as chuvas ainda facilitam o plantio. "Existe uma vantagem competitiva, porque entregamos ao mundo o que prometemos. O governo tem facilitado nossa entrada no mercado internacional ", diz o presidente da Abrapa, Milton Garbugio. "E não tem isso de problema com o clima, aquecimento global. Sempre temos chuva, está tudo normal", diz.

Ele não cita, porém, que por causa de uma estiagem recente, é possível que parte do plantio do algodão seja postergado porque agricultores ainda devem plantar a soja que não conseguiram, e que muitos deles, desestimulados pelo preço baixo praticado na pandemia, podem preferir o milho. Ainda assim, no comparativo global, temos uma produção mais responsável, mesmo que bem longe do ideal.

Uma calça jeans, que lá fora precisaria de 11 mil litros para ser feita, no país, a conta hídrica, segundo cálculos financiados pela Vicunha, consome menos de 5 mil. Em contrapartida, preferimos o volume de vendas ao valor agregado. Ou seja, nosso algodão de fibra média (quanto mais ela estica, mais cara é, e quanto mais sustentável, também), que necessita de agrotóxicos para crescer saudável, hoje atende majoritariamente os mercados chinês e do sudeste asiático. No longo prazo, nesse movimento radical da nova geração por responsabilidade sócio-ambiental, o Brasil pode perder mercado.

Capucho do algodão orgânico naturalmente colorido, da Natural Cotton Color, da Paraíba.Foto Cortesia | Flavia Aranha

Aí também reside a esquizofrenia brasileira. Temos algodão de qualidade, parte certificado com o selo BCI (Better Cotton Initiative) de sustentabilidade – que, diga-se, está defasado no mercado internacional de alto padrão –, mas importamos de volta o tecido mesclado, misturado a fibras mais baratas.

Um bom exemplo da voracidade internacional pela fibra sustentável, principalmente no mercado europeu, é a Natural Cotton Color, da Paraíba, que fornece para grifes nacionais, como Flávia Aranha, e grandes players mundiais, como a Resnatur, da Alemanha. De lá, partem tecidos para abastecer o dito "mercado verde", que os conglomerados de luxo devem abraçar já no próximo ano a depender dos pedidos que circulam nos bastidores.

Sua dona, Francisca Vieira, é líder de um movimento local que profissionalizou e fortaleceu as produções de algodão orgânico naturalmente colorido em assentamentos do estado. Na pandemia, enquanto a indústria penou, ela aumentou suas vendas e deverá fechar o ano com 300% de crescimento. "Suécia, Dinamarca, Áustria, Suíça. Exportei muito mais do que antes, mas não deixei de abastecer o mercado interno, só não consigo ampliar nesse momento a carteira de clientes", diz Vieira.

Para a empresária, há falta de visão dos produtores de algodão, que vão sentir em alguns anos quando o mundo começar a cobrar deles mais responsabilidade e um selo sustentável de verdade. Diminuir a área plantada e agregar valor a pelo menos parte dela, ou seja, tornando-a realmente sustentável, com certificações como a GOTS (Global Organic Textile Standard), seria o caminho para a manutenção do negócio e o fim da dependência cambial.

"O que precisamos mudar, e logo, porque os mercados maduros já estão mudando, é essa forma de plantar e consumir. Ela não segura por muito tempo, e a pandemia está provando isso, fazendo todos sentirem na pele" finaliza.


Ao longo de quase dois meses, ELLE Brasil conversou com mais de 40 profissionais diretamente afetados pela crise da covid-19. O resultado é uma série de reportagens com relatos profundos de uma indústria desesperada por esforços coletivos.



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