PUBLICIDADE

Já faz cinco anos desde a saída de Alber Elbaz da Lanvin, marca na qual o estilista ocupou o cargo de diretor criativo por mais de 14 anos. Desde então, os entusiastas de seu trabalho se mantiveram ansiosos para acompanhar os próximos passos – só não sabíamos que levaria tanto tempo.Foi apenas no final de novembro que Alber, finalmente, revelou mais informações sobre a sua nova marca, AZ Factory, um empreendimento em parceria com o grupo Richemont, previsto para ser lançado em janeiro.

"Desenhamos uma moda bonita e com soluções que funcionam para todos. Essa é uma marca digital de luxo baseada em inovação, tecnologia e, acima de tudo, representa um lugar para experimentar e testar novas ideias. É como um reset", informou a etiqueta em um comunicado. Segundo a divulgação oficial, a AZ Factory irá contar com um programa de experiência do consumidor chamado Alber & Amigos. "Somos construídos em torno das ideias centrais de amor, confiança e respeito. Falamos com os nossos clientes como amigos porque nos importamos", acrescentou a marca.

Embora os detalhes acima sejam recentes, já faz mais de um ano que Alber falou, pela primeira vez, sobre seu projeto. Em outubro de 2019, em entrevista ao Women's Wear Daily ele disse: "Escolhi o Richemont por intuição, e é a intuição que faz a moda e criação avançarem e irem para novos lugares. Tive algumas reuniões com eles e tudo se deu de uma forma elegante e humana". À época a marca ainda se chamava AZ Fashion.

PUBLICIDADE



Desde então, o designer vem trabalhando na etiqueta, porém sem data de lançamento definida. Porém, como a AZ Factory já consta no time de marcas que se apresentará durante a semana de moda de alta-costura, entre 25 e 28 de janeiro, especula-se que a ocasião marcará o início oficial das atividades. Enquanto a esperada estreia não chega, ao menos a identidade visual da AZ Factory, que faz referência aos óculos sempre usados por Alber, já pode ser conferida nas mídias sociais da marca. Já sobre a escolha do nome, o próprio contou: "Queria algo relacionado a uma fábrica dos sonhos. Hoje, só se fala sobre dados, algoritmos, produção e repetição. A AZ Factory é onde você pode se divertir, ser autêntico. Partimos de um sonho e então o produzimos".

O começo de sua história

A história de Alber Elbaz começa em Casablanca, no Marrocos, onde nasceu, em 1961. Porém, o designer, que já viveu em diversas cidades, se mudou quando criança para Israel com a sua família. Foi neste período que começou a se aproximar da moda. "Quando tinha uns 7 ou 8 anos, fazia esboços todos os dias do que a minha professora vestia", contou ele certa vez. "Dentro do meu quartinho, em casa, sentia que estava em outro lugar. Desenhar vestidos era como um sonho, uma fantasia."

PUBLICIDADE

A partir daí, seu futuro não poderia ser outro. O estilista se formou em moda na Shenkar College of Engineering and Design, em Israel, e logo depois se mudou para Nova York. Em 1989, por meio de uma conexão com Dawn Mello, da Gucci, foi apresentado ao costureiro Geoffrey Beene, com quem trabalhou por sete anos. Para Alber, esse momento foi como uma real escola: "Sr. Beene me ensinou tudo e me mostrou como eu preciso da moda para viver". Em seguida, se mudou para Paris e fez uma rápida passagem pelo ateliê de Guy Laroche.

A sua história mudou de rumo, contudo, quando recebeu uma oferta da Saint Laurent. O próprio Yves contratou Alber para assumir a Rive Gauche, linha de prêt-à-porter feminina da casa, enquanto ele concentrava os seus esforços na alta-costura. É claro que Alber não pensou duas vezes e aceitou o convite. "Para mim, isso não é um simples novo passo na carreira. É a realização do sonho da minha vida", falou em comunicado que anunciava a nova direção criativa. Na época, a maison não estava indo muito bem financeiramente e, logo em sua primeira coleção apresentada, a de inverno 1999, o designer já recebeu críticas.

Um momento de dúvida

Apenas um ano depois de chegar a Rive Gauche, Alber já estava de saída da casa francesa. A Saint Laurent foi comprada pelo grupo Kering (no período, ainda com nome de Gucci Group) e, em busca de novos ares para a marca, Tom Ford foi colocado no lugar do então estilista. "Na YSL, eu me sentia como um genro. Era como se eu fosse parte da família, porém nem tanto. Quando fui demitido, me senti como a viúva. Foi doloroso, foi destruidor", desabafou, em entrevista ao WWD. Alber só chegou a apresentar três coleções, e a última só foi possível depois de ter contestado, chamando atenção para certas cláusulas contratuais.

Após a demissão, o estilista ficou extremamente desesperançoso e enfrentou um momento bem complexo e quase desistiu da moda. Decidiu viajar pelo mundo, passando por lugares como Himalaia, Índia e Turquia. Foi neste momento que questionou o seu futuro e chegou até a pensar na medicina como uma opção. O que o empurrou de volta à moda foi um artigo que leu sobre um menino ferido em um ataque terrorista, contado pelo ponto de vista da mãe. "Naquele momento, pensei comigo 'quem precisa da moda'?" Porém, na manhã seguinte, acordou com um outro pensamento, recordando-se de todas as mulheres que vestiu e como fez elas se sentirem. "Um médico dará um Tylenol. Eu darei um lindo casaco vermelho que também fará uma pessoa se sentir bem, mas de outra forma."

A sua jornada na Lanvin

Com as esperanças recarregadas, Alber ganhou um novo capítulo em sua história quando recebeu uma ligação de Shaw-Lan Wang, ou Madame Wang, como é mais conhecida. Nascida na ilha de Taiwan, a chinesa seguiu os passos do pai, fundador do United Daily News, e se formou em jornalismo. Porém, em 2001, adquiriu a Lanvin da L'Oréal, passando a se dedicar inteiramente à moda. Foi buscando construir um novo momento para a etiqueta francesa que Wang propôs, entre algumas mudanças, a chegada de Alber Elbaz no comando criativo.

"Ela me ligou, me fez o convite e quando eu perguntei qual contribuição gostaria que eu fizesse pela casa, ela não me disse 'eu quero que seja um sucesso comercial'. Ela apenas me falou: 'eu adoraria que você acordasse essa bela adormecida'. Então, esse foi o ponto de partida", relembrou Alber em entrevista ao WWD. No período, a marca se encontrava em uma situação especialmente delicada. Desde o falecimento da fundadora, Jeanne Lanvin, em 1946, a maison nunca mais foi a mesma e, apesar dos esforços da família para se manter no comando da empresa, não tiveram sucesso e, pouco a pouco, venderam todas as suas partes.

A partir daí, foram muitas as tentativas, por parte de diferentes acionistas e diretores criativos, de ascender a Lanvin novamente. Nenhuma, contudo deu muito certo. Quer dizer, até a chegada de Shaw-Lan Wang e Alber Elbaz. Cada um com suas respectivas funções, a dupla estava decidida a reviver os tempos áureos da marca e, para isso, se debruçaram no legado da fundadora, estudando cada um de seus códigos e estratégias. "Acredito que quando um designer assume uma marca, ele deve fazer uma pergunta: 'porque essa casa ainda está viva?'. Não se trata de perguntar o que eles fizeram de errado, mas de entender no que acertaram. Era isso que eu tinha em mente", contou Alber.

Agência Fotosite

Desfile da Lanvin, de Verão 2013, durante o Paris Fashion Week.


E deu certo. Mesmo se deparando com uma marca doente que, com o passar do tempo, havia perdido toda sua identidade, sob a direção criativa do estilista a Lanvin finalmente se reergueu. Alber colocou nas passarelas francesas cada um de seus códigos mais marcantes, incluindo a clássica silhueta proposta por Jeanne até os seus identificáveis vestidos. Segundo ele, eram os vestidos que estava mais animado para apresentar, não só pela beleza vista no arquivo da casa, mas, principalmente, pelas mulheres que os usavam.

Não demorou para que o impacto entre grandes figuras femininas fosse criado mais uma vez. Em 2007, Alber foi eleito um dos cem nomes mais influentes do mundo pela revista Time e em seu perfil, escrito pela atriz Natalie Portman, a quem vestiu em praticamente todas as premiações, ela falou: "Alber não atribui grande importância às roupas. Ele não acha que um vestido deva transformar uma mulher, e sim ela mesma". Isso tinha muito a ver com a visão do estilista. Mais do que lançar tendências ou causar frisson, ele desejava construir a longo prazo um trabalho de valor, o que o fez.

A Lanvin passou a ocupar uma posição inédita e, mesmo fora de um grande conglomerado, se tornou uma das casas mais fortes da moda de luxo. O que chamava atenção era que, entre o enorme sucesso e prestígio, Alber sempre se afastou da ideia do estilista-estrela, e se manteve como um dos nomes mais acessíveis da indústria.

E a sua saída

Porém, 14 anos depois de sua chegada, Alber Elbaz foi demitido da Lanvin, em 2015. A notícia chocante não revelou grandes detalhes sobre os motivos de sua saída, porém fontes afirmaram que a ruptura aconteceu após desentendimentos entre o designer e a direção executiva. Em seu comunicado, Alber fez questão de deixar claro que essa não foi uma decisão pessoal, mas sim da "acionista majoritária da empresa", ou seja, Madame Wang, a mesma que o convidou para o cargo.

Uma semana antes, em uma festa do Fashion Group International, o estilista já havia chamado atenção pelo seu discurso que mostrava um certo descontentamento com os caminhos que a moda estava tomando. "Nós, designers, começamos como costureiros de sonhos, intuições, sentimentos. Começamos com 'O que as mulheres querem? O que as mulheres precisam? O que posso fazer para tornar a vida delas melhor?'. Isso era o que eu costumava fazer. Mas, agora, temos que nos tornar diretores de imagem, de algoritmo, de vendas. Temos que nos certificar que elas fiquem bem em fotos. A tela tem que gritar. Essa é a nova regra", afirmou ele.

Ainda assim, a saída repentina pegou todo o mercado de surpresa, inclusive os próprios funcionários da Lanvin. A equipe da marca chegou a exigir uma reunião com Wang, que mora em Taiwan, para solicitar o retorno de Alber, mas esse encontro nunca aconteceu. Os políticos francesas também se posicionaram e Jack Lang, ex-ministro da cultura do país, divulgou um comunicado: "Cortar as asas desse profissional excepcional me deixa triste e revoltado. Essa demissão é injusta. Ele é um dos nossos tesouros nacionais. Devemos a ele apoio, respeito e afeto".

Apesar da comoção, não teve volta e, desde então, Alber se manteve afastado dos holofotes, fazendo poucos posts nas mídias sociais e apenas participações pontuais em bate-papos. Em um deles, na faculdade Parsons, o estilista comentou: "Tudo que eu fiz, só vejo erros. Nunca vejo nada bom, por isso nem sempre é fácil ser eu. Mas, só agora com a perspectiva do tempo, vejo coisas que fiz e penso 'você sabe, não foi tão ruim'". Definitivamente, não foi e agora, em um novo esforço, mais um capítulo se inicia em sua história com o lançamento da AZ Factory.

Após a saída de Alber, a Lanvin passou a ser comandada por Bouchra Jarrar, estilista francesa que esteve à frente da direção criativa da marca por um ano. Depois, foi a vez do também francês Olivier Lapidus, já este, ficou por apenas oito meses e, até ser nomeado o seu substituto, a casa ficou sendo momentaneamente dirigida pelos estilistas internos da própria empresa. Já em 2018, Bruno Sialelli saiu da equipe criativa da Loewe para assumiu a Lanvin, onde está até o momento. A transição se deu de forma turbulenta e o designer, escolhido em uma tentativa de finalmente alavancar a marca de novo, foi processado pelo grupo LVMH por violação de uma cláusula de não concorrência em seu contrato. Mas, desde então, ainda entre vendas tímidas, Bruno vem se esforçando para unificar a linha feminina e masculina da casa.



Intrigas familiares, o forte apelo sexual trazido por Tom Ford, disputa pesada entre holdings de luxo e o rico mix de referências de Alessandro Michele são alguns dos capítulos que marcaram o primeiro século da marca italiana.


Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE