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Não foi fácil ser André Hidalgo nos últimos meses. O fundador do maior evento de moda autoral do país, a Casa de Criadores, viu parte importante da programação de marcas sair do calendário – ou entrar em modo de espera, para enfrentar a pandemia fora dos holofotes –, os patrocínios minguarem para um terço dos valores de 2019 e o próprio formato de apresentações presenciais ser interditado para dar lugar à plataforma virtual que o mundo da moda teve de se contentar.

Para marcas com poder de fogo, o investimento em fashion filmes pode não impactar o caixa, mas para as que se apoiam na passarela como única vitrine possível, o aparato que envolve a produção é um custo salgado. Hidalgo, então, teve de buscar força na palavra que o moveu nesses quase 25 anos de Casa para botar de pé a 48ª edição que se inicia nesta noite: resistência.

Cena do filme da estilista Vicenta Perrotta Cena do fashion filme da estilista Vicenta Perrotta, que abre a 48a. edição da Casa de CriadoresFoto: Denis Carrion

Ele viu no formato virtual uma oportunidade de abrir espaço para quem mora longe, como a estilista baiana Mônica Anjos, uma das dez estreias desta programação; encarou a saída de nomes antigos, como os de Walério Araújo e Weider Silveiro, migrados para a São Paulo Fashion Week, como um movimento natural que só valida a relevância de seu trabalho; e, por fim, entendeu que nem só de moda uma plataforma de comportamento como a dele se sustenta mais.

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Música, experimentação, artes visuais e novas linguagens formam o conceito de futuro que ele prega como força motriz dos próximos anos, que enxerga como luminosos para um evento cuja função principal de redefinir rotas virou imperativa para a indústria no pós-pandemia. Leia trechos editados da entrevista com o diretor do evento.


O que foi mais difícil no processo de tirar a Casa de Criadores do papel, ver a debandada de marcas da programação ou imaginar um novo formato de apresentações?

É tudo uma mudança de paradigmas difícil para todo mundo. O timing do vídeo é outro, porque a coleção tem de ficar pronta muito antes. Isso foi uma dificuldade para todo mundo, porque, quando fazíamos de forma presencial, era comum ver estilistas com máquina de costura minutos antes de entrar na passarela. Desta vez, acabamos criando uma linguagem sequencial para os desfiles da Casa, que chamamos até de episódios. Aconselhamos as marcas a produzir versões mais curtas dos vídeos, para alimentarmos as redes, o Instagram, o Tik Tok, que hoje são cruciais para a difusão da moda. Não foi fácil, mas também acho que o fato de as marcas serem menores, com pouco dinheiro, há a vatagem de elas poderem lidar de outras formas com a criatividade, estimulando novas frentes. Se pensar bem, esse caminho de experimentação é a essência da Casa.

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Foram muitas baixas de marcas de 2019 para cá.

Faz parte do processo e isso já acontece há muito tempo. Acho que só mostra a relevância da Casa, de ser uma curadoria para o mercado. De verdade, isso não me afeta nem deixa chateado, porque fui treinado ao longo tempo para ver isso acontecer. A gente perde um pouco o contato com as pessoas, porque elas participam menos do dia a dia e isso a gente corrige. Mas é natural que elas busquem novos espaços quando o momento de marca é diferente. A cada estilista que sai é uma nova vaga, sempre penso assim. Tem tanta gente talentosa que gostaria de aproveitar o espaço, e acaba que esse movimento mexe com o mercado, abre espaço para mais pessoas.

E foram 10 de uma só vez, o que é um recorde. Por que?

Olha, nem percebi. Quando fui ver, eram dez estreias. Isso é positivo, porque prova que o Brasil está cheio de talentos precisando de vitrine. E ao mesmo tempo, estamos abrindo diálogos com música, artes visuais, arquitetura, ao mesmo tempo que mantemos a função de lançar novos talentos. Estamos mais fortes, na verdade.

Imagino que tenha sido o formato digital que possibilitou isso.

Sim, e acho que passamos por um momento de democratização muito maior do acesso. Um evento de moda sempre foi elitista demais. Ele é determinado por um grupo de pessoas para determinadas pessoas convidadas. Sinto-me realizado que o evento está sendo visto por todos, acho que é o futuro. Não que esteja decretando o fim dos desfiles presenciais, mas é óbvio que essa linguagem audiovisual veio para ficar e é importante que todas as marcas a dominem o quanto antes.

Mas também é caro fazer um filme. Como viabilizou o projeto para essas marcas que zeraram o fluxo de caixa? Aliás, a própria Casa não deve ter tido a mesma verba das edições passadas.

Não posso falar em valores, por causa dos contratos, mas tive um terço do que costumávamos conseguir. Por isso o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, com o CCSP (Centro Cultural São Paulo), foi fundamental. Oferecemos o espaço para os estilistas, tivemos uma equipe dedicada a eles. Foi muito importante porque de trabalho a quem estava parado, eu digo, maquiadores, stylists, profissionais de imagem, gente dos bastidores. A Casa conseguiu que pelo menos 300 pessoas trabalhassem num momento crítico para a moda. Por isso também não deixaria de fazer o evento. Acho que continuar a fazer é resistência, sabe. E todos nós valorizamos muito mais o trabalho de quem está por trás. Não que não valorizássemos antes, mas acho que demos protagonismo a eles.

E muita gente até hoje critica a o evento, já ouvi chamarem de Casa de Criaturas. Ouviu também?

Sim, já ouvi. E, olha, sinceramente, se formos tachados como diferentes, esquisitos, sei lá o que, digo que somos mesmo. A Casa reflete sobre o que está sendo desenvolvido fora do sistema, e é assim desde o começo. Ela não é engessada, e isso é muito importante, porque antevemos as discussões. Falamos de inclusão, equidade de gênero, corpos fora do padrão e todas essas mudanças há muito tempo. E, veja que quem não assimilou as mudanças acabou ficando para trás, aliás, tem muita marca ficando para trás por causa disso.

Uma crítica recorrente é que muitas marcas mostram pouca roupa e muito discurso nos desfiles.

É preciso começar a colocar as marcas nos lugares certos. Se ela não é feita para vender um produto para muita gente, se o propósito dela é pensar a linguagem da roupa para discutir outras questões, não dá para colocar no mesmo plano de uma outra que procura atingir o mercado de forma mais ampla. Essa é a diferença da Casa, alguma marcas não estão ali para vender coisas, mas para mostrar como a moda pode falar sobre outros assuntos. Uma revolução está acontecendo na moda, sobre o que ela hoje de fato trata, e muita gente não está enxergando.

Vai voltar aos desfiles físicos em novembro?

Não dá para prever ainda. Se a pergunta é com o horizonte de hoje, não. Porque não vivemos numa bolha, não dá para colocar pessoas em risco. Estou quase certo que teremos desfiles físicos só no próximo ano, que, aliás, coincide com a edição de 25 anos do evento. E aí, sim, prepare-se para um evento gigante. Já temos fechados projetos robustos, patrocínios também. Será um grande evento.

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