Moda

Dancing on my own

Como a tendência 70's das coleções de inverno 2020 foi da alfaiataria do dia a dia para as pistas de disco.

Ilustração @viamagalhaes
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Quando as coleções de inverno 2020 foram apresentadas, entre fevereiro e março deste ano, o novo coronavírus começava a se espalhar pelo mundo. Foi uma temporada esquisita, sem muita conexão entre passarela e realidade. O colapso era evidente e iminente, mas nenhum estilista poderia prever aquilo meses antes, quando aquelas coleções foram desenhadas. Agora, com parte da Europa retomando suas atividades e com lojas abertas prestes a receber o que foi desfilado no começo do ano, é interessante notar como algumas tendências mudaram ao longo dos meses de quarentena e lockdown.

Melhor exemplo é a interpretação da alfaiataria dos anos 1970. O que apareceu timidamente nos desfiles da semana de moda Nova York e Londres ganhou força em Milão e, principalmente, Paris. Ternos alongados com padronagem clássicas e cores neutras dominaram as passarelas da Givenchy, Saint Laurent, Chloé, Stella McCartney e Balenciaga.

Celine, inverno 2020.

Foto: Agência Fotosite

Saint Laurent, inverno 2020.

Agência Fotosite

A referência é da virada da década de 70 e 80. Foi quando a disco music começou a ser xoxada ao redor do mundo. Diziam que era muito negra, gay e libertária. A instabilidade econômica da época e o HIV serviram de trampolim para políticas e visões de mundo mais conservadoras, e isso teve impacto direto no estilo de vida das pessoas. Aos poucos, a celebração de liberdade e sexualidade dos anos 1970 foi substituída pela exaltação do sucesso profissional, sempre atrelado ao dinheiro e ao acúmulo de bens. Daí os excessos 80's.

Pense nos brilhos hedonistas e sensualidade misturados aos exageros de volume e proporção dos primeiros powersuits dos anos 1980. Para ficar mais fácil – e pop – é só lembrar da capa do álbum Nightclubbing (1981), da Grace Jones. Muitos dos looks geométricos usados pela diva naquela época foram reinterpretados na temporada de inverno 2020 – vide as coleções da Saint Laurent e Balenciaga.

Capa do álbum Nightclubbing, de Grace Jones.

Foto: Reprodução


Começou com a Dua Lipa, ali no seu momentinho pop 80's. Era quando a gente ainda achava legal fazer exercício em casa. Sabe os vídeos de ginástica aeróbica da Jane Fonda? Então, mas com uma voz robótica de algum aplicativo e imagens frias de fundo cinza. A cantora lançou o clipe de "Physical" em janeiro, mas em março já havia um workout vídeo da música para animar os treinos remotos.


Depois, veio Jessie Ware com todo um fundamento disco no álbum What's Your Pleasure?. Naquela altura do campeonato, começávamos a subir pelas paredes por mil e um motivos: ansiedade, carência social e sexual e aquele desejo de rebolar suada na pista de dança. A moça Jessie serviu tudo isso. A capa do álbum, aliás, é uma reprodução da foto que Andy Warhol fez de Bianca Jagger, ícone da moda dos anos 1970.


Na sequência, Kylie Minogue – que fez a última grande festa das gueis de São Paulo com um show no fim de semana anterior ao decreto de quarentena – anunciou que lançará um novo álbum em novembro. O nome? Disco. Para acalmar os ânimos das fãs, a cantora australiana apresentou o vídeo do single "Say Something", cheio de referências à estética das pistas 70's. Nem todo mundo gostou, mas para quem não aguenta mais moletons, camisetas e chinelos com meias, é uma luz no fim do túnel. Ou só uma lembrança de não precisamos viver só de roupas básicas.


Mais recentemente, Miley Cyrus também fez sua contribuição para o nosso hedonismo dançante de cada dia. No clipe de "Midnight Sky", ela encarna uma versão disco da sua madrinha Dolly Parton, com figurinos que poderiam muito bem ter sido usados por Debbie Harry no Studio 54.

Parece que a tendência da alfaiataria 70's para o dia a dia sofreu um leve desvio de comportamento. Nas coleções de resort 2021, apresentadas entre maio e julho, ela foi bastante ofuscada por paetês, tecidos metalizados e looks que raramente saem à luz do dia.

Festas e boates estão no final da lista de reaberturas pós-pandemia. Mas isso não quer dizer que é proibido brilhar e se sentir dentro de casa. Como uma boa música, um bom look serve para dar aquele up no humor e na autoestima. E, assim, não estou falando de vestidos de festa (se você tiver um em casa e quiser usar, arrasa aí). Por experiência própria, um colar ou acessório qualquer mais extravagante, uma manga volumosa, um ombro marcado ou um detalhe mais elaborado já dão conta do recado. Pensa que é como uma esquenta para quando a vacina chegar. Porque quando isso rolar, não vai ter ninguém parado e muito menos ofuscado.

Balmain, resort 2021.

Foto cortesia | Balmain




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