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Olhe para as quatro principais semanas de moda internacionais e procure por grifes baseadas em países africanos em seus line-ups. Difícil encontrar, certo? Uma das exceções é Thebe Magugu. Estilista sul-africano à frente de sua grife homônima, ele se dedica a representar, com muito talento, narrativas, tradições e histórias de seu país de origem. Em 2019, ele se tornou o primeiro estilista negro a vencer o LVMH Prize, competição de talentos recentes pilotada pelo conglomerado francês, e, desde o ano passado, desfila suas coleções em Paris.

Nascido em Kimberley, na região central da África do Sul, Thebe exercitou o olhar sobre as passarelas pela televisão e revistas de moda, antes de optar pela formação específica. Cursou design, fotografia e comunicação de moda na School of Fashion & Design, em Joanesburgo, e lançou sua marca com desfile de na semana de moda da cidade, em 2016. A estreia foi uma espécie de prelúdio do que estava por vir. De um lado, o apreço aos elementos ditos tradicionais da construção de moda — moldes, escalas e marcações de cortes —, do outro o uso dessas ferramentas a serviço de uma visão mais pessoal, direcionada ao que lê sobre seus arredores.

"Quero que minha marca atue na documentação dos legados tanto de meu país quanto de sua região, usando a moda como comunicação", disse em entrevista recente à revista Paper. Ele explica que suas roupas são desenvolvidas não só com um grande aprofundamento técnico, mas também teórico. Desde o início, suas coleções vêm acompanhadas de uma bibliografia recomendada para quem pretende ir ainda além da materialidade da coisa.

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Modelos com looks da cole\u00e7\u00e3o Geology, de Thebe Magugu. Peças da coleção Geoloy, de Thebe Magugu.

Na primeira delas, chamada Geology, Thebe buscou alicerce em dois títulos para conectar a região semiárida de Karoo com o anseio pela fuga dos ruídos urbanos e uma relação mais direta com a natureza: The Quiet Violence of Dreams, romance premiado do autor sul-africano Sello Duiker sobre os desafios de um jovem no reconhecimento de sua identidade, e The Happiness Trap, best-seller do terapeuta estadunidense Russ Harris sobre o combate à depressão e à ansiedade a caminho da satisfação pessoal. A partir dos encontros de seus temas com os próprios questionamentos a respeito de sua carreira, fez com que peças com detalhes utilitários, em corda e tons inspirados no chão arenoso e azul celeste, por exemplo, traduzissem os sonhos de escape e liberdade da nova jornada.

Vestido Girl Seeks Girl, de Thebe Magugu. Vestido Girl Seeks Girl, de Thebe Magugu.

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Na seguinte, estampou a sororidade feminina no vestido Girl Seeks Girl, adicionado recentemente ao acervo do Metropolitan Museum de Nova York. O look é parte da coleção intitulada Home Economy (economia doméstica), desenvolvida a partir do questionamento sobre como tal disciplina e suas vertentes são nocivamente associadas às mulheres, alvos também das facetas mais negativas de tal projeção.

Junto com as anteriores, a coleção Art History (história da arte) também o ajudou a conquistar o LVMH Prize de 2019, ao projetar sua história pessoal à produção de artistas sul-africanas como Mary Sibande e Athi-Patra Ruga, prolíficas em pinturas, fotografias e performances. Da justaposição de universos criativos saíram suas cores vibrantes, a releitura poética (como na obra de Ruga) do "diário de pesadelos" do estilista, transformado em estampa sobre cetim duchese, e referências religiosas desenvolvidas nos volumes monásticos de vestidos e blusas.


Com injeção de capital e suporte do prêmio, Thebe conseguiu fazer de sua marca instrumento para outra especialidade: levantar para junto de si uma cadeia de fornecedores, artesãos e colaboradores criativos conterrâneos. Além de cultivar a produção de filmes e ensaios com parceiros recorrentes como os stylists Chloe Andrea Welgemoed e Ibrahim Kamara e a fotógrafa Kristin-Lee Moolman, dedicou-se à criação de uma publicação própria, a Faculty Press, um anuário que reúne artistas, fotógrafos, stylists e marcas convidadas para fazer releituras sobre temas relevantes.


A visibilidade também lhe permitiu ir mais a fundo nas explorações da história recente de seu país, ainda tão marcada pelas feridas do apartheid, e desenvolvê-las com mais recursos. No verão 2021, focou na história de espiãs, cuja atuações em via dupla, com e contra o governo de suas épocas, foram marcantes na luta contra a segregação racial. Em contato direto com nomes atuantes e com alta dose de inteligência criativa, transformou a impressão digital de uma das homenageadas em falsos poás, interrogatórios, cedidos pelo próprio governo, em estampa e o apelo elegante de agentes secretos da ficção em recorte de sincronia marcante com a realidade.

Apesar dos desafios impostos pela pandemia da Covid-19 — na África do Sul, os picos de contágio ocorreram em julho de 2020 e em janeiro e julho de 2021 —, Thebe seguiu a passos vigorosos neste ano. Primeiro, ressignificou a alquimia de tradições religiosas e culturais em exercício impressionante de iniciativas ecorresponsáveis. Nos tingimentos, por exemplo, colaborou com especialista em soluções obtidas através da ferrugem de telhas e de compostos de cannabis e plantas locais para marcar jaquetas e saias de lã merino 100% natural, dedicadas a elevar a elegância a um suposto plano superior. Em julho, destrinchou a imagem de caubóis e "foras da lei" em sua primeira coleção masculina na Pitti Uomo, tradicional feira dedicada ao segmento, em Florença. O interessante é que, quase ao mesmo tempo, o noticiário mundial destacava a prisão de Jacob Zuma, ex-presidente da África do Sul, investigado por denúncias de corrupção.

"Me permito imbuir minhas roupas de histórias que sempre quis contar para que as pessoas que interagem com as peças possam aprender algo através delas", revelou sobre parte do processo criativo à revista Paper.


Reparou no terninho vermelho-sangue usado recentemente por Miley Cyrus? Serve como indicativo de que, depois dos primeiros anos de sucesso e rápida ascensão, as histórias de Thebe Magugu estão só começando a ganhar projeção. Que venham as próximas aulas!

Bibliografia

Para ler mais, reunimos três títulos indicados pelo estilista com as coleções que ajudaram a construir:

Thebe Magugu, inverno 2018.\u200b

Thebe Magugu, inverno 2018.

Rape: A South African Nigtmare, de Pumla Ggqola (2015): a autora joga luz a diferentes elementos que estabelecem conexões com a "cultura do estupro" na África do Sul, o estigma sobre suas vítimas e casos notáveis da história recente do país (em inglês).

Thebe Magugu, ver\u00e3o 2022\u200b

Thebe Magugu, verão 2022

1984, de George Orwell (1949): o romance distópico deu origem ao termo "duplipensar", condição que Magugu revisita ao comentar a atuação dúbia de nomes corruptos em coleção masculina. Disponível em edição de luxo na Amazon Brasil.

\u200bThebe Magugu, ver\u00e3o 2021.

Thebe Magugu, verão 2021.

Betrayal: The Secret Lives of Apartheid Spies, de Jonatham Ancer (2019): o livro narra a história de espiões célebres na história recente da África do Sul e serviu como um dos pontos de partida para o verão 2021 de Thebe Magugu (em inglês). Disponível em versão digital na Amazon.

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