Cadastre-se em nossa newsletter para ler este e outros artigos.

Doses semanais de moda, beleza, cultura e lifestyle, além, é claro, de todas os lançamentos da ELLE!
Inscreva-se gratuitamente.

  • ASSINE NOSSA NEWSLETTER
  • O melhor da ELLE direto no seu inbox! Inscreva-se gratuitamente.
  • INSCREVA-SE AQUI
Moda

De mulher para mulheres

Seis estilistas no comando de suas próprias marcas dividem suas histórias e experiências como mulheres na moda.

PUBLICIDADE

Apesar de ser uma seara vista por muitos como feminina, a moda ainda mantém muitas estruturas de poder e de padrão que silenciam, diminuem e aprisionam mulheres. A indústria é composta majoritariamente por elas – mas são poucas que conseguem chegar aos cargos mais altos, construir sua imagem, sua marca e empreender em um universo ainda bastante masculino. Assim como em todos os outros lugares, nessa indústria as mulheres também são relegadas a papéis considerados menos importantes e sujeitas a salários mais baixos. A seguir, seis mulheres no comando dos próprios negócios, contam sobre suas experiências no setor:


Santa Resistência

A estilista M\u00f4nica Sampaio, da marca Santa Resist\u00eancia.

Mônica Sampaio

Foto: Victor Vieira

Militar e engenheira eletricista, Mônica Sampaio entrou na moda de maneira intuitiva. Havia o desconforto de não se ver representada na indústria e mais ainda como mulher afrodescendente. Foi assim que nasceu a Santa Resistência, em 2015. "Há muito tempo não via o que queria vestir. Quando falávamos de uma inspiração africana, ela era sempre voltada para os tecidos do continente. Não era essa a história que queria contar – queria mostrar a África por outros olhos", explica a estilista. "A Santa Resistência é uma releitura dessa cultura. Estamos falando de um continente enorme, diverso, múltiplo."

Apesar de não ter formação específica, Sampaio sempre desenhou suas roupas e, a partir daí, decidiu empreender. As cores, personalidades, vivências e religiosidades africanas são vistas em peças minimalistas, com foco em alfaiataria. O nome surgiu da vontade de mostrar a que veio e seus posicionamentos políticos – papel difícil de assumir. Logo a marca se uniu ao coletivo Afrocriadores, agora reformulado e batizado Fabricafro, composto por estilistas negras. "A moda é muito elitista. O caminho que encontrei como mulher não foi tão ruim, porque já haviam pessoas antes de mim desbravando essa indústria e virando referência nacional", conta.

Sampaio acredita que, já que a moda é reflexo do comportamento humano, criar uma sociedade mais consciente é seu papel fundamental. Sua produção é pequena, atemporal, em ritmo desacelerado, com mão de obra local focada em criar roupas com valor artesanal. A Santa Resistência foi selecionada pelo projeto Sankofa para integrar o line-up da São Paulo Fashion Week nas próximas três edições do evento.

Foto: Victor Vieira

Patricia Bonaldi

A estilista Patricia Bonaldi.

Patricia Bonaldi.

Foto: Bruna Guerra

Patricia Bonaldi fazia faculdade de Direito quando abriu sua loja em Uberlândia, Minas Gerais, em 2003, e precisou fazer uma escolha. Optou por manter a etiqueta homônima. "Muita gente não leva a moda muito a sério, ela é sempre vista como futilidade, não como um trabalho essencial que emprega milhares de pessoas. Aos poucos, fui me desvencilhando disso e me desconstruí. Hoje, vejo que eu emprego tanta gente, que giramos uma roda pesada. É muito gratificante ver o quanto nossa indústria é motor no mercado", diz.

Nos primeiros anos como estilista, ela produzia sob-demanda, de acordo com os gostos das clientes. Quando começou a participar do Minas Trend Preview, precisou criar uma coleção e foi, aos poucos, encontrando o estilo próprio, hoje, tão marcante. Em seguida, iniciou as exportações e logo entrou para o line-up da SPFW. Foi quando precisou encontrar um equilíbrio entre o comercial e o conceitual para colocar uma coleção coesa e interessante na passarela. "Foi um grande desafio", conta Bonaldi. Durante um bom tempo, se associou às blogueiras, para quem emprestava seus vestidos, mas percebeu a necessidade de se desvencilhar de uma imagem que já imprimia óbvia no mercado. No ano passado, a PatBo, segunda linha da marca, estreou no line-up da New York Fashion Week. Em 11 anos, sua equipe cresceu de 18 para 232, um aumento percentual de 1189%.

"Acredito que tem uma geração muito forte quebrando o machismo na indústria. O grande problema está na maneira como as mulheres são desacreditadas, o que dificulta sua trajetória para uma posição de protagonismo. Temos de sair desse lugar de medo que foi construído na gente", explica Bonaldi.. Neste mês, a estilista abre sua décima loja própria, em Goiânia, e conta que unir o e-commerce com a experiência presencial é essencial para o negócio. Mais importante ainda é a consciência de que ser uma etiqueta média – nem pequena, nem enorme – é o melhor para a PatBo.

Foto: Lisa Richov

Teodora Oshima

A estilista Teodora Oshima.

Teodora Oshima.

Foto: Cai Ramalho

Formada em Moda pela Santa Marcelina, Teodora Oshima trabalhou por alguns anos ao lado de Helô Rocha até se sentir confortável para abrir a própria marca. No começo de 2020, tomou fôlego e começou a criar peças de roupa para a cantora Liniker. "Sempre foi uma vontade minha ter uma etiqueta própria. Fiquei durante um bom tempo reunindo referências, de coisas que já me interessavam durante a pesquisa e eram diferentes do universo em que eu estava trabalhando", diz.

Sua marca homônima nasceu em setembro de 2020, em meio a pandemia, após oito meses de concepção. Oshima desenhou as peças, comprou tecidos e começou a trabalhar com algumas piloteiras, modelistas e costureiras que já conhecia. "Como já tinha bastante intimidade com elas, foi fácil criar tudo remotamente", lembra a estilista. Desde então, a etiqueta já lançou uma coleção principal e três drops e todas as peças são feitas sob encomenda, tornando-a mais sustentável e evitando o desperdício.

Ser uma mulher transsexual na indústria da moda não é fácil. Quando Oshima transicionou, já estava inserida no mercado de trabalho. Segundo ela, isso ajudou em alguns pontos. "Para quem está começando agora, infelizmente ainda é muito difícil, muito limitado", comenta. "Acho que eu só criei a Teodora Oshima depois da minha transição pois já me sentia madura para isso. Sabia que ia dar conta. Antes eu não conseguiria lidar com todos os processos necessários – a criação é apenas um ponto da estrutura toda."

Foto: Cai Ramalho

Kátia Barros

A estilista K\u00e1tia Barros.

Kátia Barros.

Foto: Raul Aragão

"Eu achava a cartela de cores da minha rotina muito cinza. Trabalhava em uma multinacional, todo mundo de roupa social, no centro do Rio de Janeiro", lembra Kátia Barros, fundadora da Farm. A carioca desistiu da vida de auditoria pois sempre sentiu um machismo muito forte no universo corporativo. "Não podia ir nos eventos da área pois mulheres não podiam dirigir o carro da empresa. Eu sempre era subjugada e deixada de lado, mesmo tendo o mesmo cargo que outros caras", lembra. "Acabei indo para um ambiente mais acolhedor. Na moda, trabalho com muitas mulheres. É completamente diferente."

Foi só quando criou algumas peças – com a alma e o estilo de vida colorido que sempre gostou e sentia falta – e começou a vender na Babilônia Feira Hype que tudo mudou. Em alguns meses, a Farm já era um sucesso de público, com filas no stand da feirinha, e, em dois anos, ganhou sua primeira loja. Quando percebeu o impacto de suas criações nas meninas cariocas, Barros entendeu o tamanho da mina de ouro que tinha nas mãos. Ela foi correndo estudar moda e seu sócio, Marcello Bastos, tratou de aprender mais sobre varejo. O resto é história. E uma que completará 25 anos em 2022, com 75 lojas próprias, um plano de internacionalização potente e estruturado e a imagem de um estilo de vida brasileiro bastante vendável. Até o fim de 2021, serão 90 pontos.

"De lá pra cá, a gente foi evoluindo. Foi fundamental ter estudado para entender, na teoria, o que fazia na prática. Sempre achei nossa moda muito importada, mesmo sem experiência e visão estratégica. O Rio de Janeiro é tão bonito, tem tanta natureza, o tom de pele, cabelo natural, o samba, um borogodó. A gente é tão colorido e sensual… A nossa roupa não é para ser tão careta", comenta. "O carioca está sempre quase de férias. A Farm é a marca dessa roupa. Ouvimos muitos relatos de fora do Brasil que nossa roupa, na pandemia, levantava o astral e isso não é só um mood carioca, como eu pensava no início. É um estado de espírito que representa o Brasil. É um desejo que o mundo inteiro tem."

Foto: Raphael Lucena

Jal Vieira

A estilista Jal Vieira.

Jal Vieira.

Foto: Camila Rivereto

Jal Vieira entrou na moda em 2010. Ela estava no primeiro ano de faculdade quando começou a trabalhar na Amapô. "Meu início no mercado foi meio no tropeço, porque não era uma realidade próxima a mim. Eu não me via nesse espaço e custei a entender que poderia ocupá-lo", diz a estilista. Após seis anos, desistiu das roupas e foi trabalhar com audiovisual. Voltou diretamente para o line-up da Casa de Criadores com sua marca própria, que conquistou clientes através de vivências e verdades únicas, além de roupas criadas com materiais não-usuais como cortiça e cadarço de tênis.

Sua última coleção, inspirada nos poemas de cinco mulheres negras, foi criada, costurada e desfilada pela estilista. "Essa coleção foi um mergulho interno, um processo de dentro para fora. Ter feito isso em vídeo também foi muito bom para mim. Se tivesse sido presencial, não teria me exposto desse jeito", explica Vieira. Demonstrar vulnerabilidades e sensibilidades sempre foi mais complicado para mulheres, comumente vistas como fracas por um mercado – e mundo – hegemonicamente masculino.

"A indústria, em si, é disparadamente composta majoritariamente por mulheres. Se você entrar em uma sala de aula, a maioria das professoras são mulheres professoras. Por que não chegamos aos cargos de destaque? É um retrato micro do que é macro. Os espaços são muito segregadores, porque são tomados por homens cisgêneros brancos que minam nossa confiança. É difícil se manter segura quando uma indústria inteira te questiona", opina a estilista. Para o futuro, o plano é continuar contando histórias de uma moda descolonizada, com foco em reutilizar peças antigas e tornar a marca mais sustentável.

Foto: Camila Rivereto

Lenny Niemeyer

A estilista Lenny Niemeyer

Lenny Niemeyer.

Foto: Claudia Garcia

Foi de um casamento apaixonado e de uma mudança para o Rio de Janeiro que Lenny Niemeyer tirou inspiração para criar uma das marcas de moda praia mais elegantes do Brasil. "Achava os biquínis disponíveis muito pequenos. Eu e minhas amigas tínhamos que comprar modelos G, mesmo sem nenhum peito, para ficarem um pouco maiores", lembra a estilista paulista, que absorveu rapidamente o lifestyle carioca. "Como acredito que trabalhar é algo que se faz não apenas para se distrair, eu acelerei esse processo. Aprendi tudo sozinha, fui entendendo sobre modelagem, estamparia. Mas também tive mil problemas no meio do caminho, a garagem – que era meu ateliê – inundou, a fábrica foi roubada… Nunca foi fácil."

Lenny lembra que, como ainda não havia achado um estilo próprio, se contentava em criar a modelagem mais precisa possível. "No começo, desenhava de acordo com o estilo das lojas para as quais eu vendia, como Daslu e Fiorucci. Demorei para encontrar meu DNA." O que só aconteceu de fato com a abertura do primeiro ponto próprio, quase 30 anos atrás. Outra reinvenção necessária, foi após a entrada da marca nos calendários das fashion weeks, até então pouco acostumadas com desfiles moda praia.

"Era um momento em que as gringas amavam os biquínis das brasileiras, a Gisele Bündchen estava surgindo e começaram a perceber que colocar moda praia nos line-ups chamaria atenção da imprensa estrangeira. Dito e feito." Lenny conta que seu desfile é feito para emocionar, o que torna toda a experiência de assistir ao vai e vem das modelos uma experiência muito mais completa. Neste ano, se a pandemia permitir, a marca planeja comemorar seus 30 anos em uma grande celebração no Rio de Janeiro. "Depois de tudo que passamos, a cidade merece."

Lenny consolidou sua marca em uma época em que a mulher inserida no mercado de trabalho era vista com maus olhos. "Vim de uma educação machista, em que nós precisávamos ter um homem. Meu negócio era visto como um passatempo. Quando ia em reuniões com bancos ou empresas dominadas por homens, sentia muito preconceito. Mas sempre fui eu sozinha na minha marca. Bato palma para esse empreendedorismo que vem rolando. Nós conseguimos conquistar um mercado muito grande", finaliza.

Foto: Juliana Rocha



Camila Faus e Fernanda Guerreiro falam sobre envelhecer em uma sociedade que tem dificuldade de entender que mulheres não são eternamente jovens. Nesta coluna, elas abordarão o assunto com humor e a seriedade que ele merece.


Em imagens poéticas e potentes, a fotógrafa espanhola Carlota Guerrero celebra as mulheres e naturaliza a nudez e a diversidade.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE

A ELLE Brasil utiliza cookies próprios e de terceiros com fins analíticos e para personalizar o conteúdo do site e anúncios. Ao continuar a navegação no nosso site você aceita a coleta de cookies, nos termos da nossa Política de Privacidade.

Assine nossa newsletter

Doses Semanais de moda, beleza, cultura e lifestyle, além, é claro, de todas as novidades e lançamentos da ELLE no seu inbox.
Increva-se gratuitamente.