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O melhor da semana de moda de Londres, terminada na segunda-feira, 21.02, foi pautado por um clima obscuro, melancólico e decadente. Simone Rocha, por exemplo, deu uma roupagem bem sombria para os babados e rendas românticas em camadas mil. O ponto de partida foi um conto irlandês chamado Children of Lir. Basicamente, é a história dos filhos de um rei que são transformados em cisnes por centenas de anos por uma amante ciumenta do monarca. Quando finalmente conseguem retomar a forma humana, morrem de velhice.

Entre os vestidos volumosos e as jaquetas pesadas que já fazem parte do seu repertório, a novidade fica com as balaclavas adornadas com cristais, os looks mais sequinhos e curtos e os vestidos com transparências no torso. Estes últimos, aliás, trazem um ar de sensualidade a essa mulher sempre coberta por várias camadas de babados, rendas, tules e veludos retratada pela estilista.

Simone Rocha, inverno 2022. Simone Rocha, inverno 2022.Foto: Divulgação

Na Erdem, o inverno 2022 é uma interpretação do que as pintoras Jeanne Mammen e Elfriede Lohse-Wächtler, as dançarinas Anita Berber e Valeska Gert e fotógrafa Madame d’Ora usavam para sair na noite de Berlim dos anos 1930. Esse foi um período de extrema efervescência cultural e superação de convenções sociais conservadoras. Da fluidez e liberdade sexual da época, saem vestidos sinuosos, pontuados por transparências e brilhos. Muitos deles vêm combinados a casacos de alfaiataria igualmente decorados. O resultado é uma coleção de elegância decadente, intensa e cheia de sedução

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A segunda apresentação de Harris Reed na London Fashion Week tem como ponto de partida uma releitura dos trajes de realeza da Era Vitoriana por uma geração de clubbers londrinos. O clima segue dramático e teatral, num mood já bem característico de Reed. Dessa vez, porém, há um foco maior em peças para além da festa, com mais opções de alfaiataria (ele teve ajuda de um alfaiate treinado na Saville Row). Outro destaque é que a coleção foi toda feita com tecidos reaproveitados, mas de origem extremamente nobre e de alta qualidade.

Erdem, inverno 2022. Erdem, inverno 2022.Foto: Divulgação

Harris Reed, inverno 2022. Harris Reed, inverno 2022.Foto: Divulgação

Ainda que não exatamente parte da semana de moda londrina, Raf Simons apresentou sua coleção virtualmente no último dia do evento. O cenário do desfile era uma sala com paredes de tijolos, carpete rosa claro e móveis cobertos por um tecido vermelho, como em uma casa abandonada. A música era digna de filme de terror, desses que o suspense vem mais pela trilha sonora do que pela imagem. A cartela de cores é sombria, quase toda composta de pretos, cinzas, marrons, com alguns pontos de luz em vermelho, roxo, verde, laranja e branco. A imagem se distancia um pouco daquela baseada em interpretações de movimentos culturais juvenis ao buscar uma maior sofisticação e polidez.

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A principal inspiração é uma pintura do artista holandês Pieter Bruegel the Elder. Com nome de Netherlandish Proverbs, a obra retrata pessoas e animais encenando provérbios populares nos Países Baixos do século 16. As cenas cotidianas, no entendo, beiram o absurdo, a estranheza e a loucura. Bruegel foi treinado na tradição da arte renascentista italiana, mas cultivava admiração especial pelas temáticas fantásticas e eróticas do conterrâneo Hieronymus Bosch. As inspirações, em suas mãos, eram traduzidas em temas naturais, ressaltando a influência de normas sociais sobre a natureza humana.

Netherlandish Proverbs, Pieter Bruegel the Elder. Netherlandish Proverbs, Pieter Bruegel the Elder.Foto: Reprodução

No desfile de Raf, as modelos cobrem seus olhos com chapéus (assinados por Stephen Jones) e capuzes não muito diferente da figura central da pintura de Bruegel. Alguns desenhos lembram modelos criados por Cristóbal Balenciaga, as criações futuristas de André Courrèges nos anos 1960 e ou trajes eclesiásticos. As referências históricas não param por aí. Há todo um trabalho de volumetria, construção, pregas e estamparia que flertam com silhuetas e elementos de alta-costura.

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Trata-se de um movimento cada vez mais presente – e evidente – no trabalho do estilista belga. Tem a ver com uma mudança no comportamento e nos desejos dos consumidores. Cansados de básicos e das infinitas releituras de um tal streetwear, existe uma vontade maior por roupas bem construídas, elaboradas e com algum sinal de formalidade.

Raf Simons, inverno 2022. Raf Simons, inverno 2022.Foto: Divulgação

Daí o foco nos casacos de alfaiataria, com tecidos felpudos, de couro envernizado ou de material semelhante ao látex. São peças que combinam tradição com um tipo de subversão e erotismo. A maneira como são usadas, fechadas pelas mãos na altura do peito, contribuem para a leitura de constrição, de desejos reprimidos. Como se convenções sociais e culturais estivessem limitando impulsos carnais.

Em alguns looks, não há buraco para os braços, como se as mangas estivessem enfiadas para dentro da cava. Algumas jaquetas têm desenhos de efeito trompe d’oeil de trench coats e outras, usadas com as costas para frente, trazem estampas de mãos segurando um buquê. Nos acessórios, braceletes, brincos e colares de esqueleto voltam a marcar presença, e com interpretações mi. Desejo e reparação, sabe como? A semiótica pira.

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