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Veneza, Havana, Seul, Singapura, Dubai, Versalhes, Saint-Tropez... Esses são alguns dos destinos que já foram escolhidos pela Chanel para apresentar a sua coleção Cruise (alto-verão ou resort). A ideia por trás desses mega-eventos (além de chamar muita atenção) é a de mostrar as propostas da marca para o guarda-roupa de viagem de sua cliente. No começo deste ano, já sabíamos: desta vez, a mais francesa das grifes de luxo voltaria à Itália, mais especificamente, para a ilha de Capri. No entanto, decretada a pandemia da covid-19 pela Organização Mundial de Saúde, uma mudança de planos teve de ser acionada.

Assim como as principais semanas de moda,que estavam agendadas para acontecer entre junho e julho e se viram obrigadas a se transformarem em eventos 100% online (como foi o caso da Alta-Costura e do masculino de Paris e Milão), a Chanel optou por uma alternativa digital para não deixar na mão a cadeia de produção gigante por trás dela. Assim, a solução foi convocar um time enxuto de profissionais para filmar e fotografar uma apresentação "express", em um estúdio na Rue Cambon próximo ao ateliê da grife, em Paris. Dali, a marca saiu com um lookbook com todas as peças, um fashion film com direção de Julien Pujol e um editorial estrelado pela top argentina Mica Argañaraz com fotografia de Karim Sadli. O conteúdo está na íntegra no site oficial da Chanel que tem divulgado pouco a pouco algumas partes do projeto em suas redes sociais.


Apesar da viagem banida, Capri continua sendo o ponto de partida para a coleção intitulada "Um passeio pelo Mediterrâneo", como explica a diretora-criativa da etiqueta Virginie Viard ao WWD: "As referências são as mesmas: estamos falando do estilo das atrizes que, nos anos 1960, escolhiam Capri para passar um feriado. (...) De qualquer maneira, este seria um espetáculo relativamente modesto para a Chanel. Seria algo parecido com a atmosfera elegante e refinada de Capri, mas simplificada. Algo como combinar uma jaqueta nova com um jeans antigo de uma coleção passada. Até porque, se você tem algo da Chanel, vai funcionar para sempre. Não é preciso estar sempre comprando algo novo."

E ela vai fundo nessa mentalidade: a maioria das peças do Cruise 2021 da marca foi feita com tecidos que já estavam em estoque. "Nós reutilizamos tudo o que tínhamos. Desde fios e tecidos até aviamentos como botões e fivelas. Foi muito emocionante perceber que conseguiríamos cuidar da mão de obra que, em momentos como esse, corre muitos riscos." Além disso, alguns dos looks foram feitos a partir de seda e algodão sustentáveis certificados pela GOTS (Global Organic Textile Organization).

Na prática, o resultado é uma roupa que segue bem na linha do que Viard tem trazido para a marca, desde que substituiu seu predecessor e mentor Karl Lagerfeld, falecido em fevereiro de 2019. Diferente do "kaiser", como o estilista era conhecido, sua pupila está mais interessada em criar peças funcionais do tipo "pé no chão" do que aludir a fantasias lúdicas como viagens ao espaço sideral ou jardins amaldiçoados que já inspiraram seu mestre. Assim, entra em cena uma Chanel mais leve, em tons quentes e terrosos, e que, curiosamente (tendo em vista sua clientela tradicional), chega com bastante pele à mostra. É o caso do truque de styling dos cintos vestidos diretamente sobre a pele da barriga de fora e dos biquínis de triângulo, por vezes, cobertos por bordados intrincados.

"Nós sentimos muito por não termos conseguido fazer o desfile em si, as condições simplesmente não nos permitem. Mas eu tenho esperança de que vamos retornar às passarelas em outubro, ainda que tenhamos que fazer algo entre quatro paredes para um público menor. Acreditamos que o desfile ainda é a melhor maneira de narrar uma coleção e continua sendo muito importante para a gente porque é o começo da história que vamos terminar de contar nas lojas", explicou o presidente de moda da empresa Bruno Pavlovsky também ao WWD.

Desde a ascensão de Viard ao mais alto cargo criativo da casa, parece ter se estabelecido um paradoxo entre o trabalho austero e sóbrio da estilista e a megalomania das apresentações da Chanel no gigantesco Grand Palais. Se por um lado suas criações parecem estar direcionadas aos desejos nem sempre tão violentamente exuberantes das clientes da grife, o cenário, ao contrário, ensaia uma performance espetacularizada que não chega. Esse novo formato digital, apesar de não ser uma aposta definitiva, esboça um caminho mais coerente entre conteúdo e plataforma de modo a valorizar o que realmente está em foco nas investidas da estilista. Dependendo da recepção, este pode ser um momento de virada para a Chanel e, considerando a sua posição e influência, marcas que vivem o mesmo dilema dentro de semanas de moda, já bem menos gloriosas do que seus próprios passados, podem seguir o exemplo.

No episódio de segunda-feira do Pivô Podcast, falaremos mais sobre essas novas formas de apresentações que diversas marcas estão desenvolvendo.



Em resposta a um mercado que superproduz para depois descartar, estilistas e marcas independentes estão mixando peças de várias etiquetas de luxo para criar um novo guarda-roupa consciente.

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