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Investigar e celebrar o nosso país é algo que Airon Martin, de Sinop, no Mato Grosso, adora fazer. E não seria diferente em sua segunda apresentação na São Paulo Fashion Week. Chamada de Boleia, a nova coleção da sua etiqueta, a Misci, é inspirada nas cabines de caminhão e no ato de levar alguém de carona, muitas vezes pessoas que caem no mundo em busca do seus sonhos.

A inspiração vem da sua infância. "Cresci e fui criado na beira da BR, em um cabaré que a minha família tinha. Lembro que, quando brigava com a minha vó, eu ia para a beira da estrada para pedir carona. Ela vinha correndo atrás de mim, para eu voltar para casa", relembra o estilista. "É uma coleção emocionante, porque celebro as mulheres da minha vida. Fui criado por elas e tem um ano e três meses que não as visito, por causa da pandemia.", diz.


O filme, dirigido por Renan Gomes e com locução do cantor baiano Ian Lasserre, exibe um interessante desfile gravado às margens do Rio Pinheiros, em São Paulo. Ao som da música Bora, de Washington Brasileiro, o forró cheio de elementos sintéticos casa bem com a ideia de Airon em olhar para o Brasil sem medo.

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Se o momento atual está puxado, o designer recorda que este é, sim, um país rico, vibrante, engraçado. Vestidos mídi e conjuntinhos monocromáticos mais grudados ao corpo dão um toque sexy e vêm como uma novidade para a marca. Eles saem de referências à pornochanchada e às frases de caminhoneiro.

Mas o símbolo preferido de Airon é a criação de tops e vestidos com um bolso embutido no meio do peito. "A minha mãe colocava tudo entre os seios. Carteira de cigarro, isqueiro, troco, recibo do mercado… Tudo no meio do peito". Levar isso para a alfaiataria, com muito cuidado no acabamento, é algo que o orgulhou demais. "É simples, mas uma imagem forte de muitas mulheres brasileiras".

Se a sua primeira apresentação vinha com tom de manifesto, esta nova faz da própria roupa a "militada" da vez, como o designer chama. "Este governo não olha para minorias e a gente sabe disso, mas existe uma incompetência que é também econômica. E a gente perde muito. Exportamos matéria prima, commodity, e depois compramos o produto lá de fora, com design que é de fora. Não há reconhecimento do potencial do design brasileiro", ele afirma.

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A sua maior vontade é conseguir fazer o oposto: exportar produtos com material e design brasileiros. Em razão disso, ele traz para a sua coleção tecidos 100% nacionais, como a seda, o algodão e o jacquard feito com linha paraibana.


Divulgação


Outro grande trunfo é a sua capacidade de criar bons acessórios. O grande "hino" da vez, como ele chama, é a nova bolsa, que fica entre um bambolê, uma hobo, uma pochete e é a sua interpretação da expressão "rodando a bolsinha". Além dela, há ainda o primeiro chinelo sustentável criado em escala industrial, que foi produzido pela grife em parceria com a indústria química Therpol, e uma colaboração com a também brasileira Ótica Ventura.

Para brindar tudo isso, foi enviado aos convidados uma cachaça, no lugar de um convite tradicional. A parceria foi com a cachaçaria mineira Tiê, que coleciona prêmios de melhores cachaças, e a ideia é lembrar que este produto, ainda alvo de muito estigma, é uma grande riqueza nacional. "Cachaceiro é quem entende de cachaça e não quem 'trupica' porque bebeu demais. A gente tinha que beber mais cachaça como quem bebe uísque", brinca o designer.

A coleção Boleia, brasileiríssima, começa a chegar no final de agosto à loja física da marca e e-commerce.

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