Laura Cangussu transforma plissados e estampas em assinatura própria
Com desenhos autorais, modelagens fluidas e muita pesquisa de cor, Laura Cangussu consolida uma estética sofisticada na moda nacional.
Seda estampada, lamês plissados e modelagens fluidas ajudaram Laura Cangussu a construir uma identidade própria no mercado brasileiro. Desde 2019, a estilista desenvolve peças que transitam entre diferentes ocasiões com um apelo sofisticado, mesclando referências de música e arte a superfícies elaboradas, prints exclusivos e materiais nobres em sua marca homônima. “Queria mostrar um Brasil rico visualmente, mas distante do óbvio”, explica ela.

Look Resort 2024. Divulgação
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Antes da empreitada, Laura trabalhou como advogada ambiental em grandes escritórios durante anos. Depois, como produtora de moda e stylist na revista Harper’s Bazaar Brasil. A relação com a roupa é algo que vem da infância. Enquanto criança, ela acompavanha a mãe e a costureira da família na criação de itens sob medida em Dracena, cidade no interior paulista.

Vestido Sanfona Poás, de Laura Cangussu. Divulgação
A construção da etiqueta ganhou forma em meio a um período delicado de saúde. Em 2015, ela recebeu um diagnóstico de artrite reumatoide e, no ano seguinte, enfrentou uma sepse e outras complicações ligadas a doença autoimune. “Foi um cenário de reprogramação de vida, de ritmo e de certezas.” Sem conseguir retomar a rotina intensa que mantinha até então, decidiu transformar a experiência acumulada entre styling, pesquisa de imagem e o interesse pela moda em um projeto autoral – e em um negócio.

Vestido Aurora Foil, de Laura Cangussu. Divulgação
Como ponto de partida, há os plissados. Laura se encantou por eles naquelas idas à costureira da família. Na sua grife, a técnica aparece em vestidos coluna, saias volumosas e peças de caimento leve, frequentemente feitas de seda estampada, lamê metalizado e com aplicações de foil. Cores e padronagens são outros pilares. “Me descobri uma boa colorista, chego a fazer mais de cem combinações até chegar no verde e no rosa perfeitos.” Os desenhos, contudo, são em colaboração com ilustradoras.

Vestido com estampa manual em linho aplicado na seda. Divulgação
O contraste é curioso. Fora do trabalho, o estilo pessoal da estilista tende ao minimalismo, com muito preto, branco, tons neutros e o azul do jeans. Nas criações, essa contenção é traduzida em camisas, shorts e calças de modelagens limpas, que funcionam como contraponto aos visuais mais expressivos – e dominantes. “Quem normalmente não gosta de estampa fala que usa as minhas”, comenta ela.

Vestido Gal, de Laura Cangussu. Divulgação
Um dos marcos da evolução da Laura Cangussu foi a coleção Samba. Apresentada em 2022, ela ajudou a consolidar o vocabulário da etiqueta ao trazer inspirações de mulheres que marcaram a história do gênero musical brasileiro, incluindo uma homenagem a Gal Costa. O movimento coincidiu com o boom de casamentos represados no pós-pandemia, destacando a label no segmento de moda festa.

Look da coleção Samba. Divulgação
Pouco depois, a repercussão foi além. No caso, além do mercado nacional. Em 2024, um look estampado da coleção Florar viralizou após aparecer no perfil do Instagram da influenciadora britânica Yasmin Devonport. A divulgação (orgânica, diga-se de passagem) resultou em pedidos de clientes e compradores de diferentes partes do mundo, abrindo caminho para as primeiras exportações para os Estados Unidos. Atualmente, Laura Cangussu mantém uma loja própria no bairro do Jardins, em São Paulo, está presente na multimarcas Matalab, também na capital Paulista, e além de operar via e-commerce com entregas para todo o Brasil e para o exterior.

A influenciadora Yasmin Devonport com o vestido da coleção Florar. Divulgação
O sucesso não veio sem ônus. “Foi quando vi o quanto a moda pode ser predatória”, afirma a designer. O vestido viralizado nas redes sociais gerou uma série de reproduções em gigantes de ultra-fast fashion. “Uma cópia da Shein pode simplesmente acabar com uma marca pequena como a minha.” O episódio escancarou outras fragilidades enfrentadas por designers independentes, como a disputa por matéria-prima e fornecedores. “Os grandes grupos compram toda a cota e sobra pouco espaço ou atenção para a gente. É muito difícil competir”, diz Laura. “Quando chega um pedido de uma dessas gigantes, o que estava para ser entregue em maio só chega em outubro.”

Look da nova coleção, ATHO. Divulgação
A liderança feminina no setor é outro um impasse. “Quando tenho que assumir o papel de empresária e negociadora, vejo que ainda temos um oceano para atravessar a nado. Se eu fosse um homem, certamente pensariam: ‘ele é um ótimo negociador’. Como mulher, os adjetivos são difícil e agressiva”, desabafa.
Prestes a celebrar sete anos de vida – em agosto –, a label entra em uma nova fase, com reformulação da identidade visual, novo logo, novas cores e mudanças na comunicação. Ainda estão previstos o lançamento de uma linha dedicada a noivas e projetos sob medida, além da retomada do processo de internacionalização. Enquanto isso, a coleção mais recente, chamada de ATHO, resume bem o modus operandi de Laura. Criada em parceria com a Fundação Athos Bulcão, ela interpreta obras do artista em estampas geométricas, veludos e túnicas de seda.

Laura Cangussu. Divulgação
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