Met Gala 2022: ainda faz sentido sofrer por um look?

Escolhas de convidados levantam questões que pareciam superadas na moda.


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Foto: Getty Images



Antes de começar, vamos deixar de lado a chatice de adequação ao tema? O baile do Met do ano passado já deixou claro que o atual cenário da moda de luxo impossibilita um dress code totalmente composto de marcas estadunidenses. Ainda mais num evento como esse.

Dito isso, precisamos falar sobre o look de Kim Kardashian, provavelmente uma das mais belas e bem vestidas da noite da última segunda-feira, 02.05. O vestido, como muitos já devem saber, é o mesmo que Marilyn Monroe usou em 1962 para cantar parabéns para o presidente estadunidense John F. Kennedy, no seu aniversário de 45 anos. É o vestido mais caro já leiloado. A última venda foi por 4,8 milhões de dólares, em 2016 (Marilyn, em si, pagou uns 1.400 dólares pelo look desenhado pelo estilista Bob Mackie e confeccionado pelo figurinista Jean-Louis). Depois disso, ele foi adquirido pelo Ripley’s Believe It Or Not Museum, em Orlando, na Flórida.

Foram eles que emprestaram o modelo para Kim, e foi uma mega operação. Ela só pôde usar o vestido de verdade pouquíssimas vezes. As provas foram feitas com uma réplica. A partir dela, a celebridade percebeu que tinha duas opções: escolher outro look ou se fazer caber naquele. Todos sabemos a escolha final. Três semanas de dieta super-restrita (ela jura que não passou fome), exercícios, procedimentos estéticos e 7kg a menos depois, o caimento ficou perfeito.

Ainda assim, não dava para Kim passar a noite toda naquela peça histórica e bilionária. Imagina sentar, jantar, beber e ir ao banheiro apavorada por uma gota de vinho, um pingo de azeite, uma mancha de batom. O evento montou um minicamarim para ela se vestir (com ajuda de funcionários do museu que o guarda), minutos antes de entrar no tapete vermelho, e outro no topo das escadas, para que o item pudesse ser retirado antes que a celebridade entrasse na exposição (ela voltou para a réplica).

Quem acompanhou a transmissão ao vivo percebeu a dificuldade da Kardashian em subir cada degrau e até de se mexer e respirar. Ela não foi a única que passou sufoco. Não foram poucas as convidadas que precisaram de ajuda para subir a escada do Met, para virar de um lado para o outro para agradar a todos os fotógrafos ou que pareciam incomodadas com a cintura apertada.

Caudas, vestidos ou casacos longuíssimos e supervolumosos são realmente coisas do passado – ou de quem não se incomoda em ter algumas pessoas correndo atrás de você para impedir um tropeço ou algo do tipo. Ou simplesmente para auxiliar na locomoção ou movimentação. É uma ideia e imagem datada. E sem o verniz da nostalgia.

O tema do baile de abertura da segunda parte da exposição sobre moda estadunidense do Costume Institute do Museu Metropolitano de Arte de Nova York (Met), In America: An Anthology of Fashion, era Gilded Glamour. Trata-se de uma referência ao período conhecido na história dos EUA como Idade Dourada. Compreendido entre os anos 1870 e 1890, foi uma época de intensos avanços econômicos, tecnológicos, urbanísticos, culturais e sociais – e também de grande concentração de renda e aumento de desigualdades. E a moda teve papel importante no desenho e demarcação de algumas dessas mudanças.

Quem assistiu à série Gilded Age, da HBO, tem uma ideia do que estamos falando: a disputa entre o dinheiro novo e velho e seus donos, os novos costumes e etiquetas, a ascensão de uma nova classe e população, e como os trajes indicavam tudo isso.

Era a época dos vestidos acinturados por corsets, estruturados com barbatanas e enchimentos nos quadris, caudas longuíssimas, mais toda uma profusão de bordados, drapeados e brocados. Não eram roupas fáceis nem leves. Pelo contrário. Eram bastante limitantes, ainda que belas. Era também um tempo em que uma parcela mais abastada da população não fazia nada sozinha, era sempre servida, até nas atividades mais básicas. Como subir uma escada.

É o microcosmo dos microcosmos, mas em tempos de aumento de desigualdades sociais e de todos os tipos, não tem como passar batido ou sem alguma menção.

 

De volta à moda, a ideia do dress code não era uma mimetização de looks de época, mas uma interpretação contemporânea. Teve quem levou ao pé da letra, como a cantora Billie Eilish, de Gucci, numa materialização 2.0 do retrato da Madame Paul Poirson, de John Singer Sargent. Teve quem focou só na parte do dourado, como Cardi B, num Versace todo de correntes e bordados. Teve quem investiu na silhueta corsetada, como as irmãs Gigi, de Versace, e Bella Hadid, de Burberry, e as modelos Precious Lee, de Altuzarra, e Paloma Elsesser, de Coach. E teve quem preferiu fazer referências menos óbvias a Nova York daqueles tempos, como a atriz Blake Lively, de Versace.

E teve quem quis falar sobre o que a maioria dos livros e escritos deixam de lado. O músico Questlove fez questão de incluir no seu look elementos em referência à classe trabalhadora negra, responsável por boa parte das construções e serviços que geraram fortunas para tantas famílias brancas durante a Idade Dourada. A capa Zegna que arrematava o visual era ainda uma homenagem ao jornalista e editor André Leon Talley, falecido em janeiro deste ano.

O ator Riz Ahmed, de 4Designs, disse em entrevista que sua camisa aberta e calça presa por dentro da bota eram uma homenagem aos trabalhadores imigrantes daquele tempo. O look podia até ser algo fiel ao dos operários do século 19, já o colar de diamantes e outras pedras preciosas, da Cartier, nem tanto. E vale ressaltar outros convidados, como a atriz Cynthia Erivo, de Louis Vuitton, e a cantora Alicia Keys, de Ralph Lauren, que tocaram em assuntos e estéticas historicamente silenciados.

 

Pela primeira vez no Met Gala, a atriz Christine Baranski, uma das personagens mais conservadores e polêmicas de Gilded Age, disse ao The New York Times que ficou apreensiva com seu look ao receber o convite para o baile. Sentiu medo de ter de usar os mesmos vestidos pesados e com caudas imensas para subir as escadas do museu (ela os vestiu por horas nas gravações). Ficou aliviada quando viu o conjunto de alfaiataria de Thom Browne, uma versão bem atualizada (e masculina) do que simbolizavam seus vestidos na série. “Pelo menos não vou ter que carregar nem arrastar nada”, falou ao jornal.

Não dá para comparar o dress code de um baile com o retrato da moda de um tempo (o nosso, no caso). Ainda assim, não dá para ignorar alguns indícios. São detalhes, ideias nostálgicas, desejos velados, linhas e entrelinhas que confundem fato com ficção, passado com presente, fantasia com realidade – e, em último caso, com roupas. Quem já se apertou ou fez deus sabe o que para segurar um look em uma festa, pista ou evento que seja entende a dor e delícia da coisa toda. Mas aprendemos que não precisa de tanto. Como bem cantou Björk, “there’s more to life than this” (há mais na vida do que isso). Depois desse tudo que passamos e discutimos, a ideia de sofrer e se sacrificar para um clique, um aplauso, uma furada de fila na buatchy, um like (para ficar mais atual) parece coisa de outro mundo – ou do passado, mas parece que querem voltar com isso.

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