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Moda Continental

Conheça o trabalho de três importantes estilistas responsáveis por dar força, voz e visibilidade à cultura e moda africana.

Foto Cortesia/Laurence Airlines
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Um continente com mais de trinta milhões de quilômetros quadrados, aproximadamente um bilhão de pessoas e mais de cinquenta países é um organismo vivo, vibrante, potente em suas múltiplas camadas e não pode ser generalizado. Quando falamos de uma região tão importante para a história da humanidade como a África, estamos falando de territórios, climas, cores e culturas diversificadas.

Com a moda africana, ou melhor, as modas africanas não é diferente. Sua diversidade, pluralidade, modernidade e tecnologia exigem que todos nós ampliemos nossos olhares acerca de sua vasta produção. Assim como no Brasil, pelo ponto de vista territorial e geográfico, não é mais possível falar de moda sem considerar as pesquisas e trabalhos de pessoas dos mais diversos lugares, ampliando nossas noções do mesmo, em sua mais completa magnitude.


"Ao nos conectarmos com as produções de moda africanas nos damos conta dos sofisticados e múltiplos códigos estéticos e criativos que nascem dos encontros do que é tradicional com o moderno. Indo na contramão da colonialidade, são as pluralidades do continente que tornam as modas africanas tão ricas", diz Hanayrá Negreiros, mestra em ciência da religião e colunista de ELLE.

Referência de muitos na indústria global, a moda africana vive da ampla participação de estilistas, designers e artistas que trazem consigo pensamentos responsáveis por quebrar paradigmas, estereótipos estéticos e práticas. São visões e atitudes que priorizam a sustentabilidade, valorizam culturas locais e oprogresso tecnológico.

A seguir, entrevistamos três estilistas em posição de destaque entre os profissionais daquele continente: Lisa Folawiyo, especialista na utilização do tecido Ancara e na introdução do mesmo no mercado global; Laurence Airlines, especializada em moda masculina e moda consciente; e Palesa Mokubung, primeira designer africana a colaborar com a H&M. As três são alguns dos principais nomes fortalecendo e dando visibilidade à moda africana local e internacionalmente.

Palesa Mokubung

Palesa Mokubung, 39 anos, nascida na África do Sul, está na indústria de moda há 15 anos com a grife Mantsho (que significa Linda Mulher Negra). "Queria um nome que fosse nativo da África do Sul e fosse um guarda chuva para todas as minhas criações. Eu desenho principalmente roupas femininas e a marca fala muito bem com elas, elas sentem os meus sentimentos."

Palesa Mokubung

Fotos Divulgação

O grande boom em sua carreira acontecem em 2014, ano que concentrou importantes conquistas para a estilista. Foi quando se formou em Design de Moda e ganhou o Prêmio de Moda e Inovação no Mbokoko Women in The Arts Awards, fundado por Carol Bouwer. Naquele mesmo ano, outro fato garantiu reconhecimento internacional: Palesa assinou uma parceria com a rede de fast-fashion H&M. "Definitivamente a colaboração com H&M está no topo dos momentos mais marcantes na minha vida. Tenho muito orgulho, porque há muito tempo quis estar na indústria. Levei meus estudos muito a sério porque a moda tende a ser vista como hobby e não é para mim."

O trabalho de Palesa consiste na conexão de materiais africanos com sedas e outros tecidos ocidentalmente considerados nobres. A partir dessa junção, ela os transforma de maneira inteligente em peças modernas e ousadas. "Consegui com sangue, suor e lágrimas. Acho que ter um negócio acessível, que pode contribuir para a vida das pessoas e dar trabalho a elas, é uma grande conquista. Faço isso com integridade e convicção. EMme considero uma forte trabalhadora criativa e empreendedora", fala.

Filha de pai criativo e mãe intelectual, Palesa estudou negócios durante sua formação em moda. "É algo que gosto muito, principalmente dos desafios. Gosto de aprender como fazer dinheiro e como viver fazendo o que eu amo." Sua principal inspiração, porém, é arte, mas à reportagem ela diz que qualquer coisa pode ser fagulha criativa. "Uma imagem bonita ou até um cheiro bonito, me apego a tudo que me provoca nesse sentido", revela.

Laurence Airlines

Laurence Chauvin-Buthaud, fundadora e diretora criativa da Laurence Airlines, tem 36 anos e nasceu na Costa do Marfim. Aos quatro anos de idade, contudo, mudou-se para a Paris e, hoje, divide seu tempo entre os dois continentes, produzindo suas coleções na Costa do Marfim e as vendendo em sua loja na capital francesa. A marca é especializada em moda masculina e suas inspirações estão vinculadas aos aspectos culturais e tradicionais da sua região. Seus processos também são pautados por práticas responsáveis e sustentáveis ambiental e socialmente.

Laurence AirlinesFoto Cortesia/Laurence Airlines

"Meu trabalho é um local de encontro onde tento expressar equilíbrio entre os elementos, criando menos e melhor. Atualmente, estou trabalhando em um projeto de residência artística na Costa do Marfim. Quero reunir moda, arte e filosofia para criar um mundo e amanhã com mais consciência. Adoro criar encontros entre coisas que não são necessariamente opostas, apenas diferentes", diz ela.

Sua própria vivência tem um pouco disso. Criada entre dois continentes, Laurence viveu culturas e sociedades distintas – e isso têm impacto direto na sua própria identidade e criatividade. Algumas de suas influências são Alejandro Jodowrosky, Clarissa Pinkola Estés, Boris Cyrulnik, além de criações de Vivienne Westwood e Comme des Garçons. "Adoro sabores, cores, formas, vibrações. Meu universo é rico e variado, meu processo criativo gira em torno do encontro entre diferentes influências e materiais."

Seu trabalho carrega fortes raízes de seu lugar de origem. "O caminho que fiz foi precursor, mas, em 2010, quando lancei a marca, aquilo ainda não estava super na moda como agora. Foram poucas as pessoas que entenderam minhas roupas sem classificá-las de forma clichês. A moda apresentada em modelos negros não agradava nada naquela época. Há dois ou três anos, ser negro tornou-se tendência e isso abre outra percepção do meu trabalho e, especialmente, o mercado da moda africana contemporânea", afirma.

Lisa Folawiyo

Lisa Folawiyo, 44 anos, fundadora e diretora criativa de Jewel by Lisa, nasceu em Lagos, Nigéria, é responsável por criar roupas femininas e acessórios multifacetados que já rodaram o mundo. A estilista é especialista na utilização do Ancara, tecido original da África Ocidental e cobiçado internacionalmente. Já se apresentou sua marca em lugares como Lagos Fashion & Design Week e na semana de moda de Nova York e vestiu personalidades como Lupita Nyong'o, Lucy Liu, Thandie Newton e Solange Knowles.

"Felizmente, ainda moro aqui. Crescer em um lar bicultural me proporcionou uma visão mais ampla e diversificada. Olhando para trás, percebo que eu era cercada por muitas inspirações, influenciada por diferentes valores, mentalidades e opiniões", diz ela. Sua decisão de trabalhar nesta indústria veio quando percebeu que não havia uma moda criada e produzida na Nigéria. "Queria usar roupas modernas que representassem quem eu sou e de onde eu vim. Queria usar estampas e tecidos familiares, mas de uma maneira nova e moderna."

Lisa FolawiyoFoto Cortesia/Lisa Folawiyo

Ancara é um fenômeno global e Lisa é responsável por sofisticar a utilização do tecido. "Tomei a decisão consciente de reintroduzi-lo como um tecido luxuoso, moderno, desejável e fácil de usar", revela. "Precisava que fosse algo que ninguém tivesse visto antes, caso contrário, não faria sentido." Ela decidiu, então, criar roupas femininas e acrescentou a cada peça uma retexturização do tecido, com o uso de perolização manual, enfeites e bordados. E foi um grande sucesso.

Lisa, se diz profundamente inspirada pela cultura nigeriana, seus costumes, histórias e tradições. Os trajes típicos inspiraram a designer em algumas de suas principais coleções. "Memórias da minha infância também servem de inspiração. Além do meu humor, mentalidade, crenças e convicções pessoais. Sou muito inspirada por estampas e tecidos específicos, novas técnicas de design e formas de ornamentação e artesanato", conta a estilista. "Além das influências de pessoas fortes que marcaram minha vida, desde membros da minha família até mulheres incríveis com as quais tive o privilégio de trabalhar. Mulheres que, apesar das limitações e das probabilidades que atuam contra elas, continuam avançando e alcançando em seus objetivos."

Apesar do sucesso, Lisa pontua alguns obstáculos em seu caminho: a indústria de moda na Nigéria ainda é extremamente embrionária. Apesar de progressos recentes, faltam fábricas bem equipadas, trabalhadores qualificados e ambientes adequadas às práticas de trabalho. Tudo isso colabora para uma defasagem no nível e qualidade de produção exigido por compradores internacionais. "Por outro lado, estamos avançando bem com práticas mais sustentáveis. Até por nossas limitações, produzimos em menor quantidade e conseguimos controlar e reduzir melhor os resíduos e descartes durante os processos. Sabemos que, no final do dia, o dinheiro fala. Devemos ter confiança em nossas habilidades para criar consistentemente roupas e coisas bonitas que sirvam de inspiração para o mundo. E fazemos isso mesmo com tantas barreiras e limitações estabelecidas contra nós. Mas sei que nosso talento, nossa resiliência, habilidades e excelência nunca podem ser negados ou diminuídos", finaliza.


Podemos recorrer à História sempre que for necessário para lembrar que, há um bom tempo, tem gente negra fazendo moda no Brasil por meio de sofisticados códigos estéticos.



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