Moda

Escape para quem e para onde?

Estilistas nacionais respondem à pergunta e abordam a necessidade de revisão de antigos-novos sonhos.

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Há grandes chances de você já ter ouvido alguém falar que a "a moda precisa fazer sonhar" ou que "em tempos sombrios, ela nos ajuda a ter força". Essas afirmações não estão certas nem erradas, elas apenas carecem, muitas vezes, de uma análise social mais sensível – ou interessada.

Exuberância e escapismo, por exemplo, apareceram de maneira marcante nas coleções apresentadas após o 11 de Setembro de 2001. Em uma matéria do Washington Post de 2018, Robin Givhan escreveu sobre aquele momento: "Os americanos foram encorajados a se saciar com atividades que lhes trouxessem felicidade, porque fazer isso era uma maneira de lutar. Fazer moda, produzir desfiles. Os básicos sustentam a vida. O extra nos permite viver plenamente".

Sonhar é um mecanismo natural a qualquer ser humano. É involuntário e precisamos dele: nos ajuda a passar por uma guerra, um vírus, em rumo ao ideal do amanhã. Lidamos com crises nos apoiando no fantástico, na poesia, espiritualidade e muito mais. Entretanto, no exercício da imaginação, é importante não se descolar da Terra.


Em 25 de maio deste ano, no Estado de Minnesota, nos EUA, aconteceu o assassinato de George Floyd. O caso gerou protestos em diferentes cidades do mundo, através do Movimento Black Lives Matter. Os meses seguintes foram marcados por profundas movimentações coletivas contra a hegemonia caucasiana e violência policial. Associado a isso, em julho, o número de infectados pelo coronavírus voltou a crescer na Europa. O Brasil registrou mais de 32 mil óbitos em um mês e, nos Estados Unidos, a marca de 4 milhões de casos foi ultrapassada.

Em meio a este cenário, mais precisamente no dia 6 de julho, começou a semana de moda de alta-costura – pela primeira vez na história, em formato 100% online. Enquanto o Black Lives Matter estava nas ruas de diferentes capitais, dos 332 looks apresentados, 218 foram vestidos por mulheres brancas, 90 por negras, 16 por asiáticas e 8 por indianas. Entre os principais temas, tínhamos os contos de fada, referências ao surrealismo e à beleza grega clássica.

O paradoxo era evidente, bem como as questões: de que forma o mágico é construído? Quais são os valores transmitidos? No mundo lúdico, com quem normalmente se parecem aquelas criaturas? Existe apenas uma única possibilidade de fantasia?

Sonhar é necessário. Contexto também

Angela Brito, estilista cabo-verdiana, que mora no Brasil há 26 anos tem uma opinião bastante interessante sobre o tema: "o escapismo precisa trazer, além de sonho, realidade, senão não vale de muita coisa. Há um desespero em manter toda uma estrutura. E não só as grandes marcas. A volta do neo vitoriano, a sede de resgate de um passado. É quase um filme de terror, alheio ao que é relevante."

É uma posição com a qual Jaque Loyal concorda. Ela é produtora cultural e idealizadora do LOYAL, plataforma interdisciplinar periférica, situada no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Para ela, maquiar e fingir que nada está acontecendo é uma maneira de reafirmar as estruturas e sistemas tão criticados no início da quarentena. "É, mais uma vez, a lógica de que você é o quanto você tem, e com quem você parece. Essa ideia me diz que eu não sou nada, porque eu não teria e nem seria o bastante", explica.

Angela Brito.

Foto: Agência Fotosite

"O LOYAL surgiu como um espaço no qual a galera pode fazer algo, é um lugar que impulsiona jovens criativos da periferia." A ação foi iniciada em 2017 como um brechó e, hoje, contempla diferentes linguagens (moda, dança, performance, teatro etc). O trabalho associativo culmina em desfiles, cujas roupas são realizadas a partir da seleção e transformação de peças selecionadas em brechós locais. A próxima apresentação será totalmente digital e é uma das atrações do Festival Estética das Periferias, previsto para novembro.

"O sonho, no meu trabalho, está relacionado ao que eu vivo e falo. Quando eu comecei a perceber os artistas e as pessoas que estavam no Capão, percebi que não poderia mais me associar à Hannah Montana das aulas de inglês", diz Jaque. As atividades do LOYAL, em um território periférico, vão na contramão do jogo elitista de dominação. "É sobre apropriar-se de algo naturalmente humano [o sonho] e subverter a seu favor", afirma o doutor em Psicologia pela UFBA Avimar Ferreira Júnior.

Para ele, trata-se de uma perpetuação dos conceitos de indústria cultural, apresentados pelos filósofos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer. Pode parecer complicado, mas é familiar: a indústria cultural (da qual fazem parte cinema, televisão, publicidade, moda etc.) tem como objetivo a produção focada no lucro e na preservação do pensamento dominante. Através de aparentes renovações e estímulos ao novo, o capital evolui para continuar o mesmo.

Da esq. para dir.: Duda Carvalho, Isac Oliveira, Felipe Princess, Jaqueline Loyal, Gustavo Feitosa e Clara Xavier.

Foto: Larissa Estevam


"O sonho, no meu trabalho, está relacionado ao que eu vivo e falo." – Jaque Loyal

"Quando você tem, em um mesmo contexto, Black Lives Matter e desfiles com um forte referencial de conto de fadas nórdico e também helenístico, há uma afirmação de que 'ok, somos a favor de vocês, mas nós, brancos, somos lindos, transcendentes e poderosos'", diz Ferreira Júnior. Para ele, a situação só pode mudar a partir de uma equidade de tratamento, não em um aspecto individual, mas de raça e coletivo.

Aos poucos, contudo, a moda – e outras searas culturais e da comunicação – começa a entender as reivindicações de questões antigas, feitas ainda mais evidentes durante a pandemia. Apesar da pouca representatividade nas apresentações de julho, é cada vez mais frequente capas, matérias e produções de horário nobre serem ocupados por pessoas que antes não tinham destaque. Chega de Helenas do Leblon.

"Há um entendimento, entre alguns veículos, de que se um assunto está sendo questionado tão intensamente, é preciso ter um olhar mais atento em relação a ele. Alguns se comprometem e outros se isentam, ponto", afirma Dayana Molina, artista, ativista indígena, stylist, diretora criativa e proprietária da Nalimo. "Os tempos atuais podem até ser romantizados por uma minoria sem grandes preocupações. Contudo, a pandemia evidenciou a relação conflitante dos níveis de privilégios. O desequilíbrio das imagens dos desfiles é um exemplo disso. Quem vai pensar em, no meio do caos, se sentar na grama como se nada estivesse acontecendo e curtir a vida?"

A modelo Zahy Guajajara, em produção com styling de Dayana Molina.

Foto: Mateus Santana

Vicenta Perrotta.

Foto: Agência Fotosite

As antigas-novas práticas evidenciam o medo da perda da hegemonia. É o que acredita Vicenta Perrotta, artista, fundadora e estilista da marca homônima. Ela também é a criadora do Ateliê TRANSmoras, uma ocupação de produção artística, resistência e cultura transvestigênere. "Historicamente, moda fala de modos de operação em prol de alguém. A sociedade está orientada por uma lógica compulsória de consumir, de ser homem ou mulher. Tudo deve ter uma função."

Que funções seriam estas? "Vemos designações específicas para as partes do corpo. Por exemplo, quando eu pego uma camiseta e faço a gola dela de barra, a pessoa tem dificuldade em entender aquela função ressignificada", explica. Além disso, essas funções dizem se uma roupa é masculina ou feminina, se é para um corpo magro ou gordo e para qual classe social é orientada. São qualidades e características pré-fabricadas extremamente limitadas e não representativas. "Muita gente lucra com isso e tem interesse em manter essa ordem", diz Vicenta.

"Há muito tempo que essas marcas não são referência para mim", diz o estilista Isaac Silva, sobre as grifes que desfilaram na semana de moda de alta-costura, em julho. "Essa nova geração não está fazendo jus aos grandes costureiros que fundaram as casas e que, de alguma forma, sintonizavam as suas criações aos contextos - obviamente, com ressalvas", continua.

Isaac Silva.

Foto: Agência Fotosite

Para Isaac, no privilégio não há temor. "O limite existe de outra forma. Eles não têm a perda de algo. Todo mundo arrasando no verão europeu como se nada estivesse acontecendo." Segundo o DW Brasil, a França bateu, em 13/09, mais de 10 mil infecções em um dia. O recorde desde o início da pandemia. "Eles têm medo só quando suas bolhas são ameaçadas", afirma o estilista.


Em relação a como o sonho se apresenta no seu trabalho, o estilista destaca a espiritualidade, e não a religião. Segundo ele, esta última está muito associada a uma estrutura eurocêntrica. "Faço um estudo muito grande com recorte afro-indígena-ancestral, eles tinham uma filosofia de vida, não religião. A ligação com o divino já existe em quem tem o Candomblé que, por conta de uma estratégia de sobrevivência, precisa se enquadrar como religião para ter subsídios e proteção governamentais", explica Isaac.

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Angela Brito também destaca a importância de se utilizar referências ancestrais espiritualistas e enfatiza a perigosa tentativa da indústria de criar a categoria de "moda negra", "trans", "indígena" de acordo com um imaginário pautado por uma lógica caucasiana, que exotiza o que lhe difere.

"Somos indivíduos. Criaremos diferentemente, teremos vivências e experiências diversas. Eu sou eu e estou me descobrindo. Quando falam que a minha estética não é negra, falo que sou uma mulher negra e pergunto se acham que um espírito branco me possuiu na hora que estava criando", finaliza ela.


Em uma temporada marcada pelo esforço criativo de apresentações digitais, algumas grifes insistem em desfiles presenciais com o devido protocolo de segurança, mas duvidosa necessidade.



Criado por sete jovens espalhados pelo Brasil, o Projeto Moda Preta é uma iniciativa que conhecemos pela hashtag #olhaELLE que fala de moda de forma não estereotipada.

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