Moda

O cotidiano criativo da Neriage

Nova coleção da marca da estilista Rafaella Caniello transforma sentimentos introspectivos em roupas para um presente e futuro mais leve.

Fotos: Divulgação
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"Percebi como as coisas ficam velhas rapidamente, como nós ficamos velhos rapidamente", diz Rafaella Caniello sobre alguns dos sentimentos que inspiram a nova coleção de sua Neriage. Quem pôde se isolar na pandemia talvez se identifique. Alteramos nossa percepção sobre nós, o tempo e coisas banais da vida doméstica. Sabemos exatamente quando e onde o sol bate em nossas janelas. Sons, antes imperceptíveis, se tornaram onipresentes, às vezes, ensurdecedores até. A pintura descascada de uma parede, o verniz gasto de uma superfície de madeira ou aquela dobradiça barulhenta evidenciam o passar do tempo num ritmo todo diferente.

"Criamos uma relação íntima com nosso entorno, com nosso cotidiano. As outras lembranças, agora, parecem mais antigas, mais distantes. E, assim, a saudade cresce e ganha vida em nossos sonhos e imaginações", continua ela. A coleção fala ainda sobre as quebras, rupturas ou transformações que nos compelem para frente, ao mesmo tempo em que reforçam a nostalgia. E isso é bem emblemático para o momento em que a estilista se encontra.

Antes, porém, vamos ao que interessa: as roupas. Para o verão 2022, Rafaella recupera alguns dos elementos e looks mais essenciais da Neriage. "Procuramos reimaginar nossas peças clássicas em formas e cores que harmonizam as ideias de quebra e fluidez", explica. Esse exercício tem a ver com o que já foi dito: rompimentos, envelhecimento, memórias e projeções.

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Os botões, por exemplo, são todos vintages e, por isso, diferentes uns dos outros. É a ideia da nostalgia. Os plissados, elementos bem característico da grife, não são mais lineares e, sim, cruzados, reforçando a ideia de quebra. Os babados, outro volume onipresente no trabalho da estilista, surgem assimétricos, quase como num jogo de opostos. A cartela de cores esmaecidas remete à imaginação ativa do passado presente.

No fim de 2020, Rafaella quase encerrou as atividades da Neriage por conta das dificuldades da crise pandêmica. Mudou de ideia depois conseguir um empréstimo bancário e refazer a sociedade com Laura Cerqueira Leite (contamos a história mais detalhada aqui). Agora, a marca encontra-se em fase de reestruturação e preparação para abertura de sua primeira loja, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Daí toda essa viagem de analisar o passado, entender o presente e planejar o futuro. A reedição de peças clássicas da etiqueta foi baseada em feedbacks das clientes, numa espécie de pesquisa de mercado recentemente conduzida. "Adaptamos elementos já existentes, como os quimonos, agora com menos volume lateral e uma manga mais ampla", conta Rafaella. "Pela questão da loja, também achamos importante nos apresentar de novo e reforçar a identidade da Neriage."

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O único porém é que essa vontade não se resolve muito bem na apresentação. Rafaella trabalha o vídeo manifesto criativo. "Escolhemos não mostrar muito as roupas, para reforçar os sentimentos", diz. O que é bem interessante, não fosse esta uma das poucas vitrines de comunicação no momento. No caso de um desfile presencial, dificilmente veríamos (ou gostaríamos de) uma passarela vazia ou que escondesse os protagonistas, no caso, as peças. Tudo bem, existe um material fotográfico – o qual recomendamos muito. Porém, dentro de uma semana de moda (e tratando-se de uma estilista tão talentosa), dá vontade de ver mais. Literalmente.

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