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Você sabia que o algodão de muitas roupas do mundo pode ser indiano? O sétimo maior país em extensão territorial é o maior produtor da fibra no planeta. Nas exportações, a Índia também domina ao lado do Brasil, Estados Unidos e Austrália; estes 4 representam 76% de todas as exportações mundiais, conforme dados da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA). São milhares de agricultores e agricultoras trabalhando em plantações, que, em novembro de 2020, foram protagonistas da maior greve da história, com mais de 250 milhões de trabalhadores reunidos. Agora, em fevereiro de 2021, eles seguem protestando contra novas medidas governamentais do país.


A repressão do Estado indiano e a forte mobilização chamou a atenção até da diva pop Rihanna e da ativista sueca Greta Thunberg. Na última terça-feira (02.01), a cantora barbadiana postou em sua conta no Twitter: "por que não estamos falando sobre isso?", linkando uma notícia sobre a repressão do governo sob os manifestantes. Em sequência, Greta publicou a mesma notícia com o comentário: "somos solidários aos protestos dos agricultores na Índia". Já a poetisa indiana Rupi Kaur escreve sobre os protestos há algumas semanas em seu perfil no Instagram; no último sábado (06.02), ela escreveu: "eles nos chamaram de 'terroristas' e nos caluniaram na mídia nacional. eles se reuniram para queimar fotos de @badgalriri, @meena, @miakhalifa, @gretathunberg e muitas outras mulheres."

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As publicações, de fato, não agradaram os governantes do país. "A tentação de hashtags e comentários sensacionalistas nas redes sociais, especialmente quando realizados por celebridades e outras pessoas, não é exata nem responsável", diz um trecho do comunicado oficial publicado terça pelo Ministério de Relações Exteriores da Índia. Um de seus ministros, Amit Shah, tweetou: "nenhuma propaganda pode deter a unidade da Índia! [...] A propaganda não pode decidir o destino da Índia, apenas o 'Progresso' pode. A Índia permanece unida e unida para alcançar o progresso". O Estado alega, no mesmo comunicado, que as novas medidas "ampliam o acesso ao mercado e proporcionam maior flexibilidade aos agricultores."

Pelo que estão protestando?

Em setembro de 2020 o governo indiano, sob a gerência do primeiro-ministro Narendra Modi, aprovou a Lei de Comércio e Promoção de Produtos Agrícolas, responsável por alterar a forma de precificação, comercialização e armazenamento de produtos agrícolas – como o algodão –, deixando-os mais sujeitos ao livre mercado. Hoje, eles têm um preço mínimo garantido pelo próprio Estado, o Preço Mínimo de Apoio. Com a remoção dos valores pré-estabelecidos, os agricultores (que somam metade da população do país) temem uma enorme vulnerabilidade à exploração por parte de grandes empresas. O risco da escravidão moderna – que já assola 20% da produção da fibra no mundo – também pode se intensificar.

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Para Suki Dusanj-Lenz, coordenadora do Fashion Revolution Índia (movimento global que incentiva maior transparência e justiça na indústria da moda), "o risco sob a nova legislação é que os agricultores possam criar dívidas ainda maiores com as grandes empresas e, eventualmente, ter de vender suas terras ancestrais para elas. Já estamos vendo isso acontecer e os agricultores simplesmente não confiam mais nas empresas após anos de exploração. Eles já estão trabalhando em um sistema insustentável."


A implementação da nova lei está embargada e o governo tenta negociações com os agricultores, que estão concentrados próximos à capital Délhi. "A Índia vive atualmente a maior greve organizada da história do mundo; milhões se dirigiram à capital da nação em protesto", comenta Suki. No Dia da Independência Indiana (26.01), barreiras foram derrubadas com tratores pilotados pelos próprios agricultores, que, em ato histórico, hastearam bandeiras em um dos monumentos mais antigos e simbólicos do país, o Forte Vermelho. O protesto foi tumultuado e a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e outras medidas de repressão para dispersar os manifestante; o governo também chegou a suspender a internet em algumas áreas do país para dificultar a comunicação entre grevistas.

Como isso afeta a indústria da moda?

São 350 milhões de pessoas nos campos produzindo a fibra natural mais utilizada no mundo: o algodão. A Índia tem participação nessa dinâmica antes mesmo de Cristo pisar na terra: em 3 mil a.C, o território já a produzia e exportava. Agora, toda a dinâmica mundial de produzir, vender e armazenar algodão pode ser afetada com as novas legislações, já que elas têm impacto direto na balança comercial global. Isso implica até no preço ou disponibilidade das blusinhas vendidas em lojas de fast-fashion do mundo todo, por exemplo. É uma reação em cadeia.

Grandes marcas de moda representam uma parcela relevante do mercado consumidor de algodão, mas nenhuma se manifestou sobre os protestos e novas legislações na Índia até a data desta publicação. Elas ainda são muito opacas sobre suas cadeias de fornecimento de matéria prima e beneficiamento, o que dificulta visualizar o que pode ser melhorado e quais as demandas dos trabalhadores. O Índice de Transparência da Moda Global 2020 mostra que apenas 17 (de 250 grandes marcas) publicam informações sobre seus fornecedores de matéria prima. Para Suki, "os produtores de algodão estão sendo espremidos por varejistas que pressionam por uma maior margem de lucro e roupas mais baratas, pagando muito pouco pela safra [da fibra]". A coordenadora acredita que os consumidores, quando consomem estas marcas, também têm responsabilidade neste "ecossistema injusto''.

Agricultora de al Agricultora de algodão.Foto: Greenqueen

Além disso, o algodão está cada vez mais submetido ao interesse de grandes companhias que detém o monopólio de sementes de diversas culturas. Com isso, a morte também é semeada: em um intervalo de 12 anos, mais de 200 mil agricultores indianos se suicidaram nos campos. Suki explica que com o aumento do consumo de vestuário, mais algodão é necessário, e "os agricultores recorrem a sementes geneticamente modificadas e que exigem um uso profundo de fertilizantes químicos, que danificam o solo e impactam negativamente o meio ambiente. Esse caminho é custoso e os fazendeiros acumulam dívidas, o que às vezes significa que eles têm que vender suas terras para as grandes corporações ou tirar a própria vida porque simplesmente não conseguem mais lidar com isso."

Um giro pelo mundo

Rihanna comentou sobre a Índia, mas é importante também olhar para outros países que têm se mobilizado na indústria do vestuário. Nosso vizinho no ranking de produtores de roupas, os Estados Unidos, vive uma forte pressão de trabalhadores e sindicalistas em Los Angeles. A cidade concentra cerca de 2.000 fabricantes, que empregam mais de 40.000 pessoas. A maioria são mulheres imigrantes, muitas vezes, em condições insalubres e precárias.

Para garantir sua proteção, foi criada em 1999 a lei AB-633, que determina o pagamento correto por parte dos fabricantes para suas funcionárias. Contudo, ela vem sendo corrompida por conta da fragmentação do trabalho e subcontratações. Por isso, nos últimos meses a luta tem sido para implementar uma nova legislação (SB 1399) que propõe um salário mínimo para as trabalhadoras do vestuário – atualmente elas recebem por peça costurada. O projeto tramita no Congresso americano e conta com o apoio de alguns parlamentares, organizações sindicais e movimentos sociais.

No continente asiatico, responsável por empregar 75% da classe trabalhadora da moda, o cancelamento de pedidos em massa por parte das grandes varejistas, no início da pandemia, fez emergir a campanha PayUp. Ela começou em abril de 2020 como uma petição online pressionando as grandes marcas a pagarem seus fornecedores. Depois, se desdobrou no movimento PayUp Fashion, com objeitvo de reformar a moda por meio de 7 metas acerca de direitos trabalhistas, protagonismo da classe trabalhadora, práticas de compra das marcas, transparência e amparo jurídico.



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