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Moda

O que rolou no 3º dia da Casa de Criadores

Confira os principais destaques das marcas que se apresentaram na quarta-feira (25.11).

Diego Gama | Foto: Cai Ramalho

Heloisa Faria


Heloisa Faria está de cara nova. Nesta temporada, a marca homônima da estilista chega com identidade visual repaginada e propostas um tanto diferentes das que vinham sendo apresentadas nos últimos anos. Modelagens e construção, agora, são um pouco mais complexas do que antes. Pensa num blazer metade rosa, metade verde-militar, meio utilitário meio garota, como se fossem duas peças sobrepostas, mas costuradas juntas. Ou num casaco de alfaiataria bem geométrico com os ombros removidos e, no lugar deles, um top de crochê e alças arrematadas por laços. Tem ainda uma espécie de bolero com mangas bufantes, uma calça jeans feita de capa e uma macacão branco inspirado em uma clássica camisa branca.

As construções podem ser mais elaboradas, mas os processos são os mesmos. Tudo que se vê no vídeo foi feito com tecidos em estoque e reaproveitamento de peças antigas da estilista. A diferença é que o resultado final não é tão simples e pronto para o consumo imediato, como o que podia se encontrar na antiga loja da marca na Vila Madalena, em São Paulo. O ponto, aliás, não existe mais e, em breve, um novo espaço, mais intimista e com atendimento por hora marcada, será inaugurado no bairro de Pinheiros.

É que em 2020 tudo mudou, né? Até a maneira como Helô enxerga e faz moda. "Nos meses de quarentena, presa aqui em casa, comecei a olhar minhas roupas e me questionar porque as faço e para quem", explica. Nesse processo, recuperou algumas peças antigas e com alto valor emocional e começou a achar outro sentido no seu ofício. "Percebi que gosto mesmo é de criar em esquema de ateliê, fazer coisas com história, com calma, com contato direto com o consumidor. Não sou uma comerciante, nunca fui."

Alexandre dos Anjos


Alexandre dos Anjos é formado em moda pela Faculdade Santa Marcelina, mas seu trabalho tem diversos atravessamentos artísticos. Seu ateliê, na República, em São Paulo, por exemplo, é compartilhado com artistas plásticos e visuais. Ele já trabalhou na Ellus, na Cavalera e na Zoomp, mas sempre relacionado à estamparia ou à pintura sobre roupas. São elas, aliás, os destaques do vídeo apresentado na noite desta quarta-feira (25.11).

O filme começa no papel, com ilustrações do estilista-artista e, aos poucos, vai ganhando forma em tecidos pintados e modelados sobre um busto ou mesa de corte. "É a ideia do corpo como suporte para a arte", explica Alexandre. "Tudo que ele veste foi pensado como arte", continua. Entre cenas de bastidores e intervenções gráficas, jaquetas e luvas decoradas dão conta do viés mais prático e algo comercial.

Ellias Kaleb


"A pintura está presente na minha vida desde a minha infância", conta Ellias Kaleb. "A moda só apareceu aos 18 anos e, desde então, tento fazer esse cruzamento entre elas." O resultado veio com a coleção de peças de algodão, cortadas numa alfaiataria, com elementos de quimonos, ou em peças coladas ao corpo, como lingeries ou beachwear. O destaque, porém, são as estampas manuais, desenhadas e coloridas pelo estilista.

Para algumas pessoas, a vista da própria janela foi tudo que podia se ver durante os meses de quarentena. Pensando nisso, Ellias pediu para seis profissionais criativos (Isis Broken, Sávio Drew, Danilo Telles, Negro Du, Bruno Ferreira e Nilson Filho) de diferentes partes do país clicarem o que viam das casas onde estavam isolados. As paisagens foram então pintadas em recortes de tecido, aplicados como bordados, ou diretamente nas peças.

Dario Mittmann


A coleção, ou melhor, o look apresentado por Dario Mittmann nesta edição da Casa de Criadores não existe. Não em termos materiais. Ninguém pode comprar ou vestir o vestido com barra assimétrica e mangas volumosa de tecido metalizado todo franzido. Ele só existe virtualmente. Foi modelado digitalmente sobre o corpo escaneado da modelo Gabriela Van de Beld, com uma tecnologia que vem ganhando cada vez mais adeptos desde que a pandemia acelerou processos de digitalização de forma geral.

Em entrevista, Dario diz que "quis deixar a roupa em segundo plano". Na verdade, ele nem chama aquilo de roupa, prefere usar o termo skin, utilizado para definir o que cobre os corpos de avatares virtuais. "A ideia é romper alguns vícios e limitações da criação física, explorar conceitos de biodesign e futurismo tecnológico", explica ele, que contou com a colaboração de Lucas Hirai, Franco Palioff e Lotvs no projeto.

O projeto, aliás, se chama Plasma 00 e é dividido em algumas partes. A primeira explora a noção de uma existência virtual – assunto bastante discutido em um momento em que o contato físico pode ser prejudicial à saúde. O segundo é o caminho inverso: brincos e bolsas criados digitalmente se tornam reais com impressão 3D (já à venda no site do estilista). Os próximos, ainda não revelados (pelo menos não em imagens), incluem, entre outras coisas, a produção de roupas por meio de modelagem digital.

O vídeo, com cara de vinheta, se destaca por uma série de fatores. A imaterialidade sendo a primeira e mais importante. Em um momento de exploração de novas formas de apresentação, faz sentido o esforço em para superar os limites convencionais. A abordagem da experiência, representação, vivência e criação virtual também merece atenção. A incorporação dessas tecnologias, quando bem-feita, pode trazer uma série de benefícios e impactos positivos para a indústria e mercado de moda. E já que estamos vendo tudo isso de nossas casas, que seja algo que nos instigue a expandir olhares e conhecimentos.

Boldstrap


Uma crítica recorrente aos desfiles da Boldstrap na Casa de Criadores (pelo menos deste que vos escreve) é sobre a conformidade com um certo padrão de corpo gay. Ainda que isso não tenha mudado completamente (vide predominância de corpos magros), é sensível um princípio de mudança de olhar. Se antes as coleções eram focadas na interpretação ou reprodução de harness, jockstraps e outros elementos fetichistas ou do universo S&M, agora percebe-se uma abordagem um pouco mais ampla. Os itens citados acima continuam presente, mas quase que em segundo plano. Agora dividem espaço com peças rendadas, bodies com estampa de onça, leggings, tops, bermudas, tangas e mais um tanto de referências de lingeries e corseteria. Se a discussão não-binária ainda é embrionária na moda, no mundo da roupa íntima é ainda mais.

"Percebi que estava perdendo me distanciando da diversidade que deu origem à marca", diz o diretor criativo Pedro Andrade. "Estava me enquadrando numa estética específica e deixei de lado a representatividade de corpos e pessoas que nos ajudaram a construir a Boldstrap. Estava muito gay e pouco queer, pouco bixa." O pensamento veio da inquietude em relação às barbaridades ditas e feitas por membros do atual governo. "Quis fazer dessa coleção uma afronta política, subverter os códigos militares com um pouco de deboche, bom humor e muita sexualidade", finaliza.

Diego Gama


As imagens e roupas da nova coleção de Diego Gama são das mais belas já apresentadas pelo estilista. Pode-se dizer que são o encontro ou equilíbrio perfeito entre vontades (ou vontades e necessidades) distintas, até então, imiscíveis. Suas apresentações variavam entre aquelas completamente criativas, geralmente debruçadas sobre experimentações têxteis e questionamentos estéticos, e outras com maior viés comercial. Embora desfiles recentes mostrem uma aproximação entre as duas frentes, ainda era visível a separação. Não mais.

Tudo bem que as peças de destaque pesam mais de 15kg e contabilizem algumas semanas de trabalho manual para ficarem prontas. Por serem tão especiais, justificam o tempo de espera numa eventual compra sob encomenda. O que importa dizer aqui é que imagem final é bem mais harmônica. Combina o lado artesanal e tecnicamente complexo e inovador de Diego, com as demandas mais imediatas do mercado (vide as jaquetas, bermudas meio soltinhas e vestido de tricô).

Sobre as protagonistas, são roupas feitas com silicone, numa evolução da técnica desenvolvida por Diego há alguns anos. Originalmente, ele usava os próprios dedos para espalhar o material sobre a roupa. Agora, são milhares de gotículas que dão forma, cor e estampa às camisetas, jaquetas e vestidos. Os desenhos, rostos de pessoas negras, são reproduções de pinturas do artista Victor Fidelis.

O que não transparece nessas imagens (feitas por Cai Ramalho Karla Brights e com direção de arte de Alma Negrot) é o esforço, dor e sentimentos envolvidos no processo. A aplicação das gotas de silicone, por exemplo, além de dolorosas, deixou as mãos de Diego inchadas por alguns dias. Mas o efeito físico, pode também ser interpretado como reflexo da batalha emocional. A coleção foi chamada de F43.1. O código é a referência internacional na medicina para o estado de estresse pós-traumático.

Para o estilista, "esta coleção pode ser resumida em estresse. Não sabia o que fazer, como fazer nem porque fazer um trabalho como esse dentro de uma pandemia". No meio do caminho, teve ainda o assassinato de George Floyd, o caso do menino Miguel e tantos outros exemplos de políticas e violências racistas que culminaram numa série de protestos e movimentos pelo mundo (a criação da Célula Preta, da qual Diego faz parte, é um deles). Seus processos artesanais, pesquisas e desenvolvimentos de técnicas têxteis e de construção eram como uma válvula de escape, uma terapia. "Me deixavam mais leve. Agora, não houve leveza. Foi um desabafo pesado, um condensamento de sentimentos", finaliza.

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