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Moda

Os artesãos da Ponto Firme brilham na SPFW

Trabalho com egressos do sistema carcerário amadurece com a formação e evolução de profissionais vindos do projeto social.

Fotos: Maria Sapienza
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Esta já é a quarta participação do Projeto Ponto Firme na São Paulo Fashion Week e está na hora de eliminar a palavra projeto de tal trabalho. Acontece que não se trata mais só de uma intenção, o Ponto Firme é "uma semente que se fortaleceu, criou raízes e identidade", como avalia o próprio Gustavo Silvestre, responsável pela criação do grupo em 2015, com o objetivo de qualificar na técnica de crochê pessoas no sistema peniteciário.

"Os meninos se guiam por este calendário de moda, é o nosso assunto durante o ano todo, o que nos motiva, desafia e emociona", ele comenta sobre o impacto que a semana paulista gera na vida dos participantes. Ainda hoje, Gustavo é voluntário, mas, segundo ele, a sua maior recompensa é a não reincidência destes que agora são os seus colegas de trabalho. "Isso prova que o Ponto Firme cria uma expectativa para pessoa, ela entende que faz algo importante, que é valorizado. Eles passam a ser chamados de artistas. E eu nem tenho dimensão disso porque é um resgate da autoestima em profundidade", ele afirma.


Um sinal grande de que esse esforço valeu a pena é o fato de que Anderson Figueiredo, um dos artesãos mais ativos do grupo, chegou com o caminho para a nova coleção do Ponto Firme. "Ele é artista. Desde a penitenciária, já havia me dito que gostava de esculturas, de esculpir em madeira. Eu fiquei de olho nele e realmente não me enganei", conta Gustavo. Anderson cumpriu a sua pena, saiu e procurou mais uma vez por aquele que tinha sido o seu mestre.

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Foi a partir de Anderson, inclusive, que se iniciou o grupo de egressos do Ponto Firme, uma vez que o trabalho dentro da penitenciária foi pausado em função da pandemia de Covid 19 e não tem previsão de retornar. Eis que Anderson surgiu com algumas máscaras muito elaboradas, uma produção autoral. Depois, ele apareceu com uma coleção inteira delas. "Vi e não acreditei. Elas podem ser vestidas, mas também funcionam como decoração", comenta Gustavo. E nelas estão reunidas uma série de técnicas diversas que vão muito além do crochê.

Tal imagem não só inspirou a coleção de roupas como também impactou a ideia da apresentação, que foi filmada no Teatro Sérgio Cardoso, para que as máscaras ganhassem a dimensão dramática necessária que elas merecem.

O espírito de criar com aquilo que se tem nas mãos seguiu como guia para o grupo de crocheteiros nas demais peças. Aliás, elas são todas feitas com descartes. "Olhamos para o material que tínhamos e não compramos mais nada", diz Gustavo.

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A coleção é muito simbólica de como a moda mudou ou se esforça para mudar nos últimos tempos. Não só existe ali uma mão de obra que é futuro de um trabalho social, como também, uma preocupação de elaborar um design interessante em cima daquilo que seria considerado lixo. O upcycling acontece de várias formas, mas, principalmente, com o crochê, dando novos volumes, dimensões e valores para uma roupa que já existia.

Outro destaque está na série de acessórios, empréstimos da renomada artista plástica Sônia Gomes. Estes são objetos que ela fez no começo de sua carreira, com resto de roupa, botão velho e zíperes quebrados — uma produção muito próxima do que os artesãos do Ponto Firme fazem hoje. "Muita gente não sabe disso, mas ela começou com acessórios de resíduo têxtil, bem antes de ser a referência brasileira de arte contemporânea que se apresenta na Bienal de Veneza", fala Gustavo.

O designer faz questão de que o nome de cada pessoa ou órgão que o apoia ou colabora seja reverenciado, como o dos patrocinadores Círculo, Brazil Foundation e Melissa. "Preciso valorizar quem mantém isso vivo, porque é um esforço de resistência incentivar um projeto que lida com uma ferida social tão grande, como a do sistema carcerário", diz. E, claro, todos os aplausos àqueles que no filme são devidamente creditados como artesãos e só podem ser chamados dessa maneira: Anderson Figueiredo, Anderson Joaquim e Tiago Araújo, que assinam a coleção ao lado de Gustavo.

Maria Sapienza

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